E Rummy, vai se desculpar?

McNamara lamentou o erro do Vietnã. Rumsfield continua seguro do acerto no Iraque

Bradley Graham*, The Washington Post

20 de julho de 2009 | 12h09

No final da vida, Robert McNamara se tornou um triste estudo de caso sobre o que pode acontecer quando um líder do Pentágono acaba se arrependendo de ter conduzido o país a uma guerra desastrosa e faz tentativas de se retratar. Para muitos, seu tardio reconhecimento das dúvidas e dos erros cometidos durante a condução da Guerra do Vietnã veio tarde demais, e após sua morte, no dia 6, ele foi lembrado como figura trágica e lamentável.

 

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Com os Estados Unidos envolvidos numa nova guerra, que conta com seus próprios casos - excessivamente numerosos - de planejamento deficiente, estratégia equivocada e liderança fracassada, a sombra do exemplo de McNamara nos leva a perguntar: será que alguém pedirá desculpas pelo Iraque?

 

Enquanto estiveram em seus cargos, os funcionários da administração Bush que desempenharam importantes papéis na decisão de invadir o Iraque e nos primeiros anos da ocupação americana demonstraram grande relutância em reconhecer os próprios erros, que dirá em expressar arrependimento. Apesar de o presidente George W. Bush ter reconhecido afinal a necessidade de uma mudança de estratégia e aprovado um grande aumento na presença militar americana no país (o chamado surge), nem ele e nem os principais membros do seu gabinete jamais deram sinais de duvidar dos objetivos do empreendimento como um todo.

 

Agora fora do poder, nenhum deles demonstrou remorso por aquilo que muitos americanos enxergam como uma aventura condenável que já cobrou um altíssimo preço em termos de vidas e dinheiro, prejudicando a imagem nacional. Os poucos funcionários de alto escalão daquele governo que escreveram suas memórias - o ex-diretor da CIA George Tenet, o ex-chefe de políticas civis do Pentágono Douglas Feith e o general da reserva Richard Myers, que serviu como chefe do Estado Maior Conjunto - registraram seus relatos num tom amplamente defensivo. Sem paciência para escrever o próprio livro, o ex-vice-presidente Dick Cheney tem se mostrado extrovertido e combativo desde que deixou a Casa Branca. Até Colin Powell, cujas reservas a respeito da guerra enquanto secretário de Estado são hoje amplamente conhecidas, jamais expressou, como cidadão, nenhuma ressalva ou falta de apoio ao esforço de guerra como um todo.

 

O ex-participante de destaque que menos se manifestou publicamente a respeito do Iraque é aquele que ocupou o antigo cargo de McNamara e é frequentemente considerado culpado por tudo que deu errado na guerra: Donald Rumsfeld.

 

Os paralelos entre Rumsfeld e McNamara são fortes - até certo ponto. Ambos assumiram o Pentágono com o objetivo de exercer maior controle civil sobre o Exército. Ambos estavam determinados a transformar a burocracia militar numa organização mais eficiente e adaptável. E ambos foram considerados arrogantes, abrasivos e impacientes.

 

Mas a distinção mais profunda entre os dois está na maneira pela qual cada um enxergou o próprio mandato após seu término. Enquanto McNamara, mesmo antes de deixar o cargo, começou a duvidar do propósito da Guerra do Vietnã e das perspectivas de vitória, Rumsfeld parece nunca vacilar na sua convicção de que invadir o Iraque foi a decisão certa e o plano de guerra dos EUA era sólido. Quando o pressionei, durante uma última entrevista para a biografia dele que publiquei recentemente, em relação a eventuais arrependimentos que teria diante da maneira com que conduziu a guerra, ele desconsiderou a pergunta, chamando-a de indagação favorita da imprensa, indigna de uma resposta.

 

Rumsfeld continua imerso na sensação amarga de que a percepção da guerra e do papel desempenhado por ele teria sido muito distorcida pela cobertura supostamente unilateral da mídia, boa parte da qual teria tomado como fonte relatos de funcionários do Departamento de Estado e do Conselho de Segurança Nacional - interessados apenas no benefício próprio.

 

"A desonestidade intelectual por parte da imprensa é um problema sério", ele me disse, acrescentando que "um incentivo poderoso ao tom predominantemente negativo e dramático" impulsionou a cobertura. "Trata-se de uma fórmula de sucesso garantido. Rende Prêmios Pulitzer; consegue promoções; garante a identificação do repórter na metade superior da primeira página."

 

Segundo Rumsfeld, parte dessa fórmula previa sua ridicularização, ao lado de Bush e Cheney, enquanto Powell e Condoleezza Rice (na época conselheira de Segurança Nacional, antes de assumir o Departamento de Estado) eram poupados. Como exemplo, ele destacou as acusações contra Bush e Cheney, que teriam mentido sobre a posse de armas de destruição em massa por parte de Saddam Hussein quando defenderam a necessidade da invasão. "Nunca acusaram Colin Powell de ter mentido", declarou Rumsfeld. "Nunca dizem que Condi mentiu."

 

A sequência de cálculos equivocados relacionados à guerra no Iraque já foi bem documentada. Além de invadir o país com base na falsa premissa dos estoques de armas de destruição em massa que o Iraque teria, a administração Bush fez um planejamento inadequado para o período posterior à invasão, pressupondo equivocadamente um ambiente relativamente estável que permitiria a rápida retirada do principal contingente das forças dos EUA. As autoridades americanas demoraram para combater a insurgência que as surpreendeu. Em vez disso, elas sustentaram pressupostos irreais sobre o grau de preparação das forças iraquianas e dos políticos do país ante a perspectiva de devolver-lhes o controle, insistindo numa abordagem que até o início de 2007 testemunhou um aumento na violência e quase levou à guerra civil.

 

Rumsfeld discorda desse ponto de vista sobre a condução da guerra. Ele sustenta que a estratégia seguida por ele entre 2003 e 2006 obteve grande sucesso - provocando substanciais baixas no inimigo, preparando forças iraquianas capazes e estabelecendo um novo governo para o país. A mudança na estratégia e a implementação da maior presença dos soldados americanos no país, o surge, no início de 2007, depois que Rumsfeld deixou o cargo, recebem crédito por terem resgatado o Iraque do limiar do desastre completo. Mas tal estratégia não teria funcionado antes, afirma ele, porque as condições não eram adequadas.

 

O problema desse raciocínio é que as conquistas da estratégia de Rumsfeld são superestimadas e as possíveis realizações de um programa de contrainsurgência mais bem administrado são subestimadas. Outros ex-funcionários da administração Bush demonstraram maior disposição do que Rumsfeld para admitir os graves erros que cometeram. Mas eles dizem que reconhecer erros é diferente de dizer que a guerra jamais deveria ter sido travada. Equívocos cometidos de boa fé, segundo eles, não seriam motivo o bastante para dizer "sinto muito".

 

"O pedido de desculpas de McNamara foi essencialmente a admissão de que ele sabia na época que os objetivos não poderiam ser atingidos", disse Larry Di Rita, que serviu como um dos principais assessores de Rumsfeld. "Pelo que eu saiba, nenhum dos funcionários do alto escalão da administração anterior, mesmo os que acreditam que deveriam ter agido diferente em relação ao Iraque, acreditava que os objetivos não pudessem ser cumpridos."

 

Outros fatores afastam ainda mais a possibilidade de Rumsfeld ou qualquer um que tenha desempenhado um papel importante no Iraque dar um passo adiante para expressar arrependimento. Para começar, não faltam motivos de culpa para serem distribuídos entre os responsáveis. A culpabilidade não é partilhada apenas pelos civis mais graduados do Pentágono, mas também por comandantes desinformados e funcionários dos altos escalões da Casa Branca, CIA e Departamento de Estado. Apesar de Rumsfeld, por exemplo, ser o principal responsável por decidir como a guerra seria travada, outros, entre eles seu suplente, Paul Wolfowitz, serviram como arquitetos intelectuais da invasão.

 

Além disso, o debate político acerca da guerra ainda precisa esfriar o bastante para garantir que autocríticas feitas de um lado, para não falar em manifestações de arrependimento, não sejam usadas pelo outro lado para conquistar vantagens políticas. "A questão ainda envolve muita política", disse Feith em entrevista concedida este mês. "Não vejo motivo pelo qual as vítimas de um ataque político devam jogar o jogo daqueles que protagonizam tal ataque."

 

Pode ser que simplesmente seja necessário mais tempo. Afinal, McNamara esperou 28 anos para publicar sua avaliação do passado cheia de remorso. "Em algum ponto da história, o país, incluindo vários membros do Exército, vai se arrepender muito de tudo isso", disse um ex-membro do Estado Maior Conjunto durante os anos Bush. "Mas coisas como essa precisam ser digeridas e contempladas por um longo tempo."

 

A espera traz uma vantagem adicional para aqueles que levaram os Estados Unidos à guerra: a possibilidade de um resultado mais favorável. As condições no Iraque parecem consideravelmente mais propícias para a recuperação do país do que há 30 meses, quando Rumsfeld foi substituído. Se o Iraque afinal emergir como país estável, os erros dos primeiros anos podem ser retratados simplesmente como o tipo de erro que faz parte de todo conflito.

 

Quer alguém um dia peça desculpas ou não, a história merece no mínimo um relato honesto e detalhado dos atos e motivações de Rumsfeld e seus colegas. "O mais útil é fazer uma análise fria e objetiva das decisões que foram tomadas e aprender com elas", disse John Nagl, tenente-coronel reservista do Exército, especialista em operações de contrainsurgência e presidente do Centro para uma Nova Segurança Americana, com sede em Washington.

 

Mais importante que ouvir um pedido de desculpas de Rumsfeld pelo que ele fez é receber uma explicação franca do porquê dos seus atos.

 

*Bradley Graham é autor de Jogando Segundo as Próprias Regras: as Ambições, Sucessos e Fracassos Finais de Donald Rumsfeld. Foi correspondente do Washington Post no Pentágono por mais de uma década

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