E se Bob não tivesse sido morto?

Chile sem Pinochet, menos mortes no Vietnã, nada de Watergate. Bem-vindos ao governo Robert Kennedy

Pedro Doria, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2007 | 20h04

Robert Francis Kennedy foi assassinado na madrugada de 5 de junho de 1968 com três tiros disparados por Sirhan Bishara Sirhan, jovem radical palestino. Horas antes, Bob havia vencido as primárias do Partido Democrata na Califórnia. As pesquisas indicavam que também venceria no Estado de Nova York, que o elegera senador. O primeiro tiro disparado por Sirhan, embora de calibre .22, bala pequena, atingiu o candidato na base da orelha esquerda e atravessou-lhe o cérebro. Não teve chances. Aquela noite trágica serve de ambiente para Bobby, filme dirigido por Emilio Estévez, em cartaz nos cinemas brasileiros. É um momento de virada na política americana. "A vitória de Richard Nixon, naquele ano, iniciou um grande período de hegemonia do Partido Republicano", explica Robert Mason, professor da Universidade de Edimburgo e autor de Richard Nixon e a Busca de uma Nova Maioria (não publicado no Brasil). A renúncia de Karl Rove, principal estrategista político do presidente George W. Bush, na semana passada, é um dos sinais daquilo que a revista britânica The Economist batizou de "a virada à esquerda americana".O possível fim desse período conservador nos EUA permite um exercício de especulação voltando àquele dia fatídico de 1968: E se Bob tivesse sido eleito presidente no lugar de Nixon? "Ele tinha pressa em retirar as tropas do Vietnã", diz enfático Evan Thomas, biógrafo de Kennedy e editor-assistente da revista Newsweek. "Esta guerra tem que acabar", discursara o senador Robert Kennedy ao declarar-se candidato à presidência. Mas ele nunca chegou à presidência. Os últimos soldados americanos só deixaram Saigon em abril de 1975."Kennedy era um homem pragmático e romântico ao mesmo tempo", continua Thomas. Como ministro da Justiça e número 2 no governo de seu irmão John (1960-1963), Bob foi fundamental no processo de acabar com a segregação aos negros no sul dos EUA. Também esteve ao lado de John na pior crise da Guerra Fria: o bloqueio naval americano a Cuba para forçar a retirada de mísseis soviéticos.Bob era o homem encarregado de executar as ordens mais duras do irmão, incluindo a pressão política a parlamentares. Mas era também ligado profundamente a questões sociais como pobreza e racismo. Num tempo de grande efervescência racial, em que negros se organizavam em milícias, como os Panteras Negras, Bob Kennedy era o único político branco que atraía seus votos."Ele aprendeu a duras penas o resultado negativo de políticas intervencionistas no exterior", diz Robert Dallek, historiador da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), autor de Nixon e Kissinger. A Guerra do Vietnã e a política agressiva de John contra Cuba haviam sido erros, avaliava Bob. Dallek se entusiasma: "Sabe o que seria do mundo sem Nixon? Não haveria Pinochet no Chile. Não haveria Watergate. Por causa de Watergate e Vietnã, o cidadão americano não confia em seu governo. Essas coisas afastam as pessoas da política. E sem o golpe no Chile, a imagem dos EUA em toda a América Latina também seria muito diferente."A imagem romântica de quase presidente, aquele que prometia encerrar a campanha no Vietnã, que num país ainda racista discursava por igualdade de direitos, embala até hoje setores à esquerda do Partido Democrata. Mas há quem sugira que Bob não fosse assim tão de esquerda. É a tese de outro de seus biógrafos, Michael Knox Beran. Em 1968, 40% dos trabalhadores dos EUA eram sindicalizados, um alto contraste com os atuais 15%. Ainda assim, o senador Kennedy enfrentava os sindicatos, pregando a necessidade de uma reforma para endurecer o sistema de seguridade social. Só nos anos 90 Bill Clinton viria a fazer essa reforma.O ano de 1968 era difícil para um candidato do Partido Democrata. O presidente democrata Lyndon Johnson estava desgastado pela Guerra do Vietnã. Achou que o risco de disputar a reeleição não valia a pena e, nas primárias, apoiou seu vice, Hubert Humphrey, contra Bob Kennedy pela indicação do partido. Com a morte de Bob, Humphrey disputou a presidência com o republicano Richard Nixon, que também não estava tão forte. Humphrey perdeu a eleição presidencial por muito pouco, lembra o professor Robert Mason. "Muitos acham que se as eleições fossem uma semana depois, Nixon teria perdido. Um candidato tão carismático como Bob Kennedy, que propunha soluções tão novas para os problemas, poderia ter sido eleito, sim." Sua dificuldade seria provavelmente outra, no próprio Partido Democrata, para conseguir a indicação contra Humphrey, privilegiado pela máquina partidária. Intrincada, controlada por chefes locais, enrolada no jogo de subornos dos líderes sindicais e com vínculos mafiosos, só vencia eleições internas do partido quem a máquina indicasse. Kennedy precisaria ainda virar esse jogo, comprometendo-se.E se, naquela cozinha tumultuada do Hotel Ambassador pela qual passou após fazer o discurso de vitória nas primárias californianas, Robert Francis Kennedy não tivesse sido assassinado? "Seus partidários imaginam a melhor das presidências", diz Mason. "Mas, talvez, após um governo por demais à esquerda, a resposta conservadora viesse ainda mais intensa." E, assim, o igualmente carismático governador da Califórnia, Ronald Reagan, talvez tivesse mais cedo sua chance de chegar à Casa Branca.SEGUNDA, 13 DE AGOSTOCai o arquiteto de Bush Karl Rove, vice-chefe do gabinete da Casa Branca, pede demissão do cargo. Rove maquinou as duas vitórias eleitorais de Bush. Ultimamente, apostava no projeto da lei de imigração, cujo fracasso no Congresso tornou mais difícil uma vitória republicana em 2008.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.