AP Photo/LM Otero
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E se ele fosse branco e cristão?

Garoto muçulmano foi preso no Texas porque levou um relógio caseiro à escola. A professora achou que fosse uma bomba

Manny Fernandez,Christine Hauser, THE NEW YORK TIMES

19 Setembro 2015 | 16h00

O despertador feito em casa por Ahmed Mohamed lhe valeu uma suspensão da escola secundária onde estuda, em um subúrbio de Dallas. Ele acabou detido e algemado pela polícia na segunda-feira depois de a direção da escola acusá-lo de fabricar uma falsa bomba. E, na quarta, foi convidado para ir à Casa Branca, recebeu o apoio de Hillary Clinton e Mark Zuckerberg e se tornou alvo de enorme atenção quando foi questionado se não teria sido visado por causa de seu nome e sua religião.

Resultado: o jovem aluno da MacArthur High School em Irving, Texas, de 14 anos, que gosta de montar objetos, de tecnologia e de camisetas da NASA e pretende estudar no Massachusetts Institute of Technology (MIT), viu-se no turbilhão nas mídias sociais repercutindo um intenso debate sobre Islã, imigração e conceitos de etnia nos Estados Unidos.

“Belo relógio, Ahmed!”, disse o presidente Obama no Twitter. “Gostaria de trazê-lo aqui na Casa Branca?”. Deveríamos inspirar mais crianças como você a gostar de ciências. É o que torna os EUA um grande país”. 

A assessoria de Obama convidou Ahmed à Casa Branca para a Noite da Astronomia em 19 de outubro, evento que reúne cientistas, engenheiros, astronautas, professores e estudantes que passam uma noite olhando as estrelas no gramado do jardim sul da Casa Branca.

O porta-voz do presidente disse depois que aquele episódio era um caso prático de preconceito irracional num período em que o país vem combatendo o terrorismo islâmico internamente e no Oriente Médio. E o secretário de imprensa da Casa Branca, Josh Earnest, acrescentou, se referindo à professora: “O episódio ilustra bem como estereótipos perniciosos podem impedir que mesmo pessoas de bom coração, que dedicam sua vida a educar jovens, realizem o bom trabalho a que se propuseram fazer”.

Em alguns websites conservadores Ahmed foi objeto de insulto e críticas, além de sugestões de que este país não é lugar para ele e sua família.

Ainda na quarta-feira, diante de sua casa em Irving, ele acenou para uma multidão de repórteres enquanto sua família trazia pizzas e bebidas para o pessoal da imprensa. Ahmed disse que pensava em sair da MacArthur High School e que aceitara o convite de Obama.

Indagado sobre a atenção e o apoio recebido de Obama, de Hillary e Zuckerberg, ele respondeu: “Sinto-me realmente fora de série”, acrescentando que gostaria de aproveitar o momento para “tentar o máximo que puder não apenas para me ajudar, mas ajudar todas as crianças do mundo inteiro que enfrentam um problema como este”. Depois de cumprimentar as pessoas com um “as-salaamu alaikum”, saudação de paz muçulmana, ele se definiu como “a pessoa que construiu um relógio e teve muitos problemas por isso”.

O pai de Ahmed, Mohamed El Hassan, 54 anos, mostrou-se humilde, emocionado, agradecido e patriótico, fazendo questão de mencionar que a família vive naquela casa há mais de 30 anos e que seu filho havia consertado o seu carro, seu telefone, a rede elétrica, seu computador e construíra, no estilo totalmente americano, um kart. “Esta não é a América”, afirmou, referindo-se à detenção do filho. “Não somos nós. Não somos assim”.

O delegado de polícia de Irving, Larry Boyd, afirmou que os policiais agiram corretamente ao deter o adolescente, baseados na informação que tiveram: inicialmente, não teria ficado evidente que o despertador era só um experimento de aula. Indagado se os policiais teriam reagido de modo diferente se Ahmed fosse branco, o delegado respondeu que eles teriam adotado o mesmo procedimento. “Você não pode levar coisas como esta para a escola”, completou ele. A coisa em questão era o produto do amor de Ahmed pelas invenções. Ele fabricou o relógio com uma caixa de metal, um mostrador digital, fios e uma placa de circuito. Era mais pesado e maior do que um despertador normal, com fios, rosca e componentes elétricos.

Ahmed disse ter levado o despertador à escola para mostrá-lo a um professor de engenharia, que o achou bonito, mas pediu para ele não mostrar a invenção aos outros professores. Mais tarde o relógio tocou na aula de inglês. Ahmed então o exibiu à professora, a direção da escola chamou a polícia e o garoto foi interrogado. “Ela achou que era uma ameaça. Foi triste o fato de ela ter uma impressão errada do relógio”, contou o garoto. Impressões digitais e uma foto dele foram tiradas num centro de detenção juvenil, o relógio foi confiscado e Ahmed foi suspenso por três dias da escola.

Numa carta aos pais, o diretor do estabelecimento, Dan Cummings, informou que a polícia reagira a “um objeto suspeito no câmpus”. Depois, num comunicado, a direção reconheceu que a informação divulgada após o incidente fora “desproporcional”. 

A prefeita Beth Van Duyne escreveu no Facebook que não houve erro da escola ou da polícia “por averiguar o que consideraram uma ameaça potencial”, mas acrescentou que, como mãe de família, ficaria transtornada se o caso tivesse ocorrido com seu filho. “Felizmente todos aprendemos com os fatos verificados esta semana. E o aluno, que tem dons óbvios, não se sentirá absolutamente desencorajado de explorar seu talento em eletrônica e engenharia”, anotou.

Democratas do Texas disseram que a detenção de Ahmed resultou de um sentimento antimuçulmano por parte das autoridades de Irving. “A prisão de Ahmed é a conclusão lógica da islamofobia em Irving e isto é deplorável”, afirmou a presidente do Partido Democrata do condado de Dallas, Carol Donovan.

Segundo Ahmed, a polícia ainda estava com seu relógio (pelo menos até quarta-feira). Antes de dizer que adoraria mostrar suas invenções para investidores no programa de televisão Shark Tank, perguntaram se ele gostaria de enviar uma mensagem para outros jovens inventores. “Vão em frente. Não deixem que as pessoas mudem o que você é”. 

/TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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