E sobrou até para quem não merece

Secretário sueco do Nobel de Literatura, no afã de atacar os EUA, discrimina escritores e comete uma injustiça histórica

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

05 de outubro de 2008 | 00h42

Até o início da semana, eram boas as chances de um escritor norte-americano conquistar o Nobel de Literatura deste ano, quebrando um jejum de 15 anos. As barbadas seriam Philip Roth, Joyce Carol Oates, Don DeLillo e Thomas Pynchon, com Bob Dylan correndo por fora. Nas bolsas de apostas londrinas, Carol Oates e Roth apareciam bem cotados, atrás somente do italiano Claudio Magris e do poeta sírio Adonis, com DeLillo logo atrás e Pynchon mais na rabeira. Na noite de terça-feira, quase ninguém mais acreditava na vitória de um representante dos EUA. Nada a ver com os desdobramentos da crise econômica. Os autores norte-americanos haviam sido simplesmente marginalizados da disputa por uma voz autorizada da Academia Sueca. Em entrevista à Associated Press, na tarde de terça-feira, o secretário permanente do júri do Nobel de Literatura, Horace Engdahl, reduzira a atual literatura dos EUA a sua expressão mais simples. "Demasiado servil aos modismos da cultura de massa", disparou. "A América é muito insular", insistiu. "À míngua de traduções, não participa do grande diálogo literário - e muito se ressente de sua ignorância", detonou. Mais uma dose de aquavit e Engdahl teria comparado Carol Oates a Sarah Palin.Pelo cargo que ocupa, Engdahl não pode ser um interlocutor indiscreto, muito menos boquirroto. Ainda que não estivesse externando a opinião de alguns ou da maioria dos 16 jurados cuja votação, secretíssima, preside há 11 anos, sua crítica causou danos desnecessários à reputada discrição da academia e seu proverbial ecumenismo estético. Até prova em contrário, sua opinião reflete o pensamento dos demais jurados. Se tivesse deixado claro que extravasara um conceito subjetivo, o mundo literário norte-americano teria apenas dado um muxoxo e pedido mais um dry martini.Certo, a literatura, muito menos a norte-americana, traduzida e vendida em todo o mundo, não precisa do Nobel (e até viveu sem ele por muito, muito mais tempo que Hollywood viveu sem o Oscar), mas não é desprezível, sobretudo agora, com o hábito da leitura em extinção, um prêmio que, além de expor o vencedor na mídia e impulsionar a venda de suas obras, deposita em sua conta 10 milhões de coroas suecas (cerca de R$ 2,6 milhões). Sem contar o diploma e a medalha de ouro. Nem o afago no ego, de valor inefável.Harold Augenbraum, diretor da Fundação Nacional do Livro dos EUA, acusou Engdahl de não ter a menor familiaridade com a literatura norte-americana, prontificando-se a enviar-lhe uma lista de grandes obras e autores contemporâneos. David Remnick, editor da revista The New Yorker, lembrou três das inúmeras injustiças do Nobel (Proust, Joyce e Nabokov jamais ganharam o prêmio), cobrando do sueco maior conhecimento da vitalidade literária da geração de Roth, Updike, DeLillo e outros filhos de imigrantes que, a seu ver, tampouco se deixaram "destruir pelos horrores da Coca-Cola". O anglo-ganense Kwame Anthony Appiah, professor de filosofia em Princeton, ressaltou a presença planetária dos livros escritos por norte-americanos, tachou Engdahl de eurocentrista e negou que a fonte do "grande diálogo literário" universalista tivesse, hoje, Paris, Frankfurt ou Estocolmo como endereço. Crítico literário especializado em literatura escandinava, Engdahl errou, longe, na dosagem, mas só em parte na substância. O predomínio do lixo, da ficção medíocre e picareta, caudatária do gosto massificado, é um fenômeno mundial. Apesar dos pesares, a literatura dos EUA mantém uma pujança e um poder de sedução que a francesa e a italiana há muito perderam. Páreo, para ela, só a britânica, igualmente beneficiária da língua franca em que se transformou o inglês. Mas é verdade que os norte-americanos, inclusive porque sobranceiramente monoglotas, traduzem muito menos do que deveriam e necessitam, deficiência lamentada inúmeras vezes por Susan Sontag, cujo empenho pessoal em introduzir importantes autores estrangeiros no mercado editorial dos EUA, com reflexos no Brasil, nunca será suficientemente louvado. O eurocentrismo da Academia Sueca é cacoete de nascença. Seus primeiros 12 prêmios de literatura ficaram na Europa. Quebrada a rotina em 1913, com a premiação do indiano Rabindranath Tagore, seguiram-se mais 14 anos de hegemonia européia. Na última década, a predominância dos europeus foi total. O chinês Gao Xingjian já era cidadão francês havia três anos quando levou o galardão de 2000. Os norte-americanos demoraram 30 anos para fazer jus a um Nobel. O desprezo foi quebrado por Sinclair Lewis, em 1930. Desde então apenas seis outros autores nascidos nos EUA mereceram a deferência: Pearl Buck (1938), William Faulkner (1949), Ernest Hemingway (1954), John Steinbeck (1962), Saul Bellow (1976) e Toni Morrison (1993). Desses, apenas Faulkner, Hemingway e Bellow foram vencedores acima de qualquer suspeita. Como a Academia de Hollywood, a sueca erra mais que acerta. Tem acertado mais nos últimos anos, mas nem sempre convence quando tira da cartola um desconhecido, um "exótico", como a mídia internacional costuma rotulá-los, ainda que um "exótico" europeu. A premiação, há três anos, da austríaca Elfriede Jelinek causou mal-estar até entre os acadêmicos. Um deles, Knut Ahlund, demitiu-se do júri por considerar a obra de Jelinek uma constrangedora bobajada pornô. Dois autores "exóticos" (talvez já esteja na hora de se tirar outro da cartola, após as premiações de celebridades como J. M. Coetzee, Harold Pinter e Doris Lessing) têm figurado com notável insistência nas listas de recomendações e apostas na internet: o poeta coreano Ko Un e o já citado Adonis. O suspense só vai durar até a próxima quinta-feira, às 8h, com transmissão ao vivo pela grande infovia: www.nobelprize.org. Se por acaso der Roth, Carol Oates, DeLillo ou qualquer outro norte-americano, Horace Engdahl estará desmoralizado. À reputação de boquirroto acrescentará outra: a de ser uma voz solitária no júri do Nobel.

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