E tem também os pashtuns...

Tudo parece levantar dúvidas sobre a estratégia dos EUA de enviar mais soldados ao Afeganistão

Olivier Roy*,

06 de dezembro de 2009 | 03h39

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Como anunciou essa semana, o presidente Obama está apostando que o envio de mais 30 mil soldados para o Afeganistão mudará rapidamente o equilíbrio do poder naquela região, reduzirá o apoio da população local ao Taleban, fortalecerá os que se opõem a ele, proporcionará ao governo de Cabul a possibilidade de aprumar-se, permitirá que a ajuda humanitária e o desenvolvimento cheguem ao campo e possivelmente trará alguns taleban cansados de guerra à mesa de negociação. A Al-Qaeda ficaria assim sem seus redutos e os EUA poderiam declarar sua missão cumprida.

Em essência, o presidente americano anunciou um aumento das forças no Oriente Médio, no curto prazo, a fim de preparar o terreno para a implementação de um programa político no longo prazo. Esse programa, criado no governo Bush em 2002, tem como objetivos a boa governança, o combate à corrupção, o treinamento de uma polícia profissional e a promoção do desenvolvimento econômico e social. Como o projeto político fracassou nos últimos oito anos, segundo a lógica somente a ação militar poderá restaurar as condições para que ele possa reviver. Portanto, tudo depende de uma intensificação da ação militar para combater a insurgência. Indubitavelmente, numa época em que o Taleban está migrando para outros países e o governo de Cabul encarna mais do que nunca um Estado falido, nada poderá ser feito sem o aumento da força militar. O Taleban pressente que a vitória está próxima e não tem nenhum interesse em negociar. As opções para os Estados Unidos são sair ou ampliar a luta. Será que a nova estratégia no combate à insurgência funcionará?

A intenção aparentemente é usar táticas que funcionaram no norte do Iraque: jogar os líderes tribais tradicionais contra os taleban radicais oferecendo-lhes incentivos, na esperança de que amplas camadas da população que não aderem à política dos taleban se voltem contra eles. Nessa perspectiva, o governo corrupto de Cabul, nada confiável, é mais problema que vantagem, o que significa que as tropas americanas e da Otan teriam de se envolver politicamente nos governos locais em lugar de entregar as chaves a Cabul assim que a área estivesse limpa.

Para que essa estratégia funcione é preciso entender de maneira correta a insurreição taleban, e a influência do Paquistão sobre o Afeganistão deve ser pelo menos neutralizada e encaminhada na direção certa.

A insurreição dos taleban é ao mesmo tempo um movimento étnico e social. O Taleban personifica tanto o irredentismo pashtun quanto uma mudança do sistema tribal tradicional. A insurgência está limitada às áreas povoadas pelos pashtuns. No Paquistão também as "áreas islâmicas libertadas" são todas pashtuns. Os militantes islâmicos não pashtuns optaram por outras linhas de ação.

A frustração dos pashtuns por terem sido privados do poder não foi menosprezada pelas potências ocidentais. Elas apoiaram o desmantelamento das forças da Aliança do Norte - não pashtuns que tomaram Cabul em novembro de 2001 -, tarefa bastante fácil depois do assassinato de seu líder carismático, Ahmed Shah Massud.

Mas agora os não pashtuns no Afeganistão não têm mais meios para se proteger de um retorno sangrento do Taleban, e não podem confiar num Exército nacional afegão. Portanto, o problema está em como aplacar os pashtuns sem enfraquecer ainda mais os outros grupos étnicos, transformados nos melhores aliados das tropas da Otan pelo temor de um retorno do Taleban. O presidente Hamid Karzai foi escolhido em grande parte porque poderia personificar uma identidade pashtun tradicional. Mas a aristocracia tribal que ele representa já não têm raízes nas áreas tribais.

No norte do Iraque, os líderes tribais tradicionais responderam satisfeitos à abertura que o general David Petraeus lhes ofereceu para se livrarem da ameaça dos combatentes da Al-Qaeda não iraquianos, que os ignoravam ou mesmo tentavam aniquilá-los. Mas no Afeganistão, assim como no Paquistão, esses líderes praticamente desapareceram. Em seu lugar surgiu uma nova elite de jovens taleban educados em escolas islâmicas, mais ligados ao Paquistão e ao Golfo do que ao Ocidente.

Qual é o papel do Paquistão? Se os taleban encontrarem refúgio no Paquistão, poderão facilmente escapar do impacto de uma intensificação do reforço militar nos próximos dois anos. Eles podem razoavelmente prever que os EUA não terão condições de sustentar um contrapoder na área tribal afegã ou de fortalecer o governo de Cabul. Portanto, bastará que esperem.

A pressão externa sobre o Paquistão dará poucos resultados: a prisão ou a morte de alguns líderes taleban ou de quadros da Al-Qaeda. Até agora, o Exército paquistanês usou tanto o Taleban quanto os militantes islâmicos como instrumento de sua política regional de "aprofundamento estratégico" em relação à Índia. E entretanto quer um governo islâmico pashtun em Cabul.

Essa complexa e perigosa cooperação entre o Exército e o Taleban baseava-se num pacto: os taleban, os afegãos ou os paquistaneses poderiam fazer pressão para que seu programa no Afeganistão ou nos territórios a noroeste do Paquistão fosse aceito, mas não deveriam contestar a liderança do Exército paquistanês. Islamabad teria de permanecer intocada. Os taleban infringiram o pacto quando, partindo de seu reduto no Swat, realizaram uma incursão rumo a Islamabad passando pelo Buner. O Exército não teve outra opção senão contra-atacar. Mas seu objetivo não é destruir o Taleban, e sim trazê-lo de volta sempre que ele ultrapasse os limites.

Enquanto o Exército paquistanês não considerar sua campanha contra o Taleban uma questão de vida ou morte, não será de nenhuma ajuda valiosa para a política dos EUA e da Otan no Afeganistão. Há mais de 30 anos o Paquistão vem combatendo indiretamente no Afeganistão. Portanto, pode esperar a saída das tropas americanas e da Otan da região.

Pelo que posso perceber, uma mudança fundamental só poderá ocorrer quando for encontrada uma maneira de aliviar a frustração paquistanesa no Afeganistão e o Paquistão desistir de décadas de política de apoio aos islâmicos no poder. Se não for definida uma política mais abrangente e mais coerente que inclua esses elementos, 30 mil soldados americanos, com o acréscimo de outros da Otan, não farão nenhuma diferença.

*Autor de Globalized Islam: The Search for a New Ummah (Columbia University)

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