'É tudo esprit de Corps'

Assim o ex-prefeito define a ação de promotores e magistrados contra sua pessoa

Ivan Marsiglia, de O Estado de S.Paulo,

27 de março de 2010 | 15h39

 

 

SÃO PAULO - Encontrar o foragido da Justiça em São Paulo foi fácil. Difícil foi chegar até ele. O táxi que levava a reportagem ficou parado na Marginal do Rio Pinheiros durante o dilúvio que caiu dos céus na quinta-feira à tarde, causando 39 pontos de alagamento na cidade. No caminho, a taxista católica teve tempo de anunciar o fim do mundo e contar as agruras de sua vida desde que um "acidente histórico" tirou-lhe o irmão, arrimo de família. "Saí de casa para confortar minha mãe e, quando voltei, meu marido tinha me abandonado e minha filha ia se casar com um presidiário. Hoje, Deus me ajudou: larguei o trabalho como marreteira e financiei este carro no banco." Na portaria do condomínio de duas torres na Av. Juscelino Kubitschek que abriga a sede da Eucatex, o apressado interlocutor não resistiu a perguntar qual fora o tal acidente. "Meu irmão era o motorista da van que caiu no buraco do metrô em 2007."

 

Coincidências acontecem, mesmo em uma metrópole caótica. Assim, não é tanto de se espantar que, naquele mesmo dia, um desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo tenha mandado suspender o processo que apurava responsabilidades pelo desabamento ocorrido em 12 de janeiro de 2007 nas obras da Linha 4 da Estação Pinheiros. Nem que o "fugitivo" supracitado - que nada tem a ver com essa história, diga-se - tenha mencionado o episódio por conta própria, logo no início da conversa.

 

"Criticar podem me criticar, mas meus túneis não inundaram, meus piscinões funcionaram, minhas estradas não esburacaram e não tive nenhuma estação de metrô que desmoronou", diz Paulo Maluf, contemplando a cidade que administrou de 1969 a 1971 e de 1993 a 1996 da janela do 11º andar, na sala de reuniões da empresa da família. "Eu me chamo Paulo, nasci na Maternidade São Paulo, torço para o São Paulo Futebol Clube, fui prefeito e governador de São Paulo. Amo esta cidade. Gilberto Kassab fez Escola Politécnica como eu, é bom gestor e não tem culpa da chuva que caiu este ano. Mas ninguém investiu mais em São Paulo do que eu."

 

Aos 78 anos, o deputado federal pelo PP-SP parece disposto e bem-humorado. Se ficou abatido com a forma pouco lisonjeira com que apareceu no noticiário dos últimos dias, não demonstra. Dr. Paulo, como é chamado por assessores e funcionários, figura ao lado do filho Flávio na lista de procurados da Interpol, a agência de polícia internacional. Nome e foto do parlamentar foram incluídos na seção "Alerta Vermelho" da página de internet da instituição, a de nível máximo, em que é pedida a sua prisão por crime de conspiração para fraude. Se deixar sua querida São Paulo e viajar para algum dos 181 países membros da Interpol, pode ser detido. Aqui, a Constituição brasileira o protege de extradição.

 

A prisão de Maluf foi pedida pela Justiça americana após uma denúncia da promotoria de Nova York. A acusação é de que teria movimentado, por meio de um doleiro, US$ 11,68 milhões de uma agência do Safra National Bank na Quinta Avenida para contas secretas no paraíso fiscal da Ilha de Jersey, no Canal da Mancha. A quantia teria sido desviada das obras da Av. Água Espraiada, atual Av. Roberto Marinho, entre janeiro e agosto de 1998. Em setembro de 2005, Maluf e Flávio também tiveram prisão preventiva decretada no Brasil sob acusação de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Passaram um mês e dez dias na carceragem da Superintendência da Polícia Federal, em São Paulo, até serem soltos por um habeas corpus do Supremo Tribunal Federal.

 

Ocorre que a apuração sobre as peripécias desse dinheiro nos EUA caiu nas mãos do então promotor público Robert Morgenthau - um investigador implacável de crimes financeiros que, ao lado do prefeito Rudolph Giuliani e do chefe de polícia William Bratton, é um dos responsáveis pela política de "tolerância zero" que reduziu a criminalidade de Nova York na década de 90. Morgenthau aposentou-se em janeiro deste ano, mas seus colegas não deram folga.

 

O assistente da promotoria, Adam Kaufmann, informou a membros do Ministério Público no Brasil que a prisão cautelar do deputado foi pedida nos EUA após seus advogados romperem um acordo firmado com a promotoria americana. Maluf se comprometeria a pagar uma multa em troca de sua apresentação à Justiça de Nova York. Assim, foi autorizado a passar o réveillon de 2008 para 2009 na Itália com a família, sem ter as autoridades nos calcanhares. Na volta do passeio, no entanto, interrompeu as negociações. O Aliás entrou em contato com Erin Duggan, da promotoria de Nova York, para obter detalhes do processo, mas ela se disse impedida de comentar.

 

"Isso não existe, é sonho", nega Maluf, pés juntos sobre o piso de Eucatex. "Não teve acordo nenhum. É um ato de arrogância, inadmissível no mundo democrático." Na terça-feira, o decano assessor de imprensa do deputado, Adilson Laranjeira, anunciou a contratação do escritório americano Kostelanetz & Fink, LLP para processar o procurador-geral do Condado de Nova York e exigir a retirada do alerta vermelho na Interpol. O advogado de Maluf, José Roberto Batochio, preferiu reagir dizendo que era um acinte ao Legislativo do País: "Numa comparação extrema, seria como o Fausto (de Sanctis, juiz federal brasileiro) decretar a prisão de Hillary Clinton".

 

Os embaraços na Justiça americana, acusa ainda a nota de Laranjeira, seriam resultado de "mera vingança" pelo fato de o deputado ter apresentado o projeto de lei 265/07, que responsabiliza membros do Ministério Público brasileiro "autores de processos ilegais e sem base jurídica", que corre na Câmara Federal. E aponta o promotor do MP de São Paulo, Silvio Marques, como o autor da articulação. A explicação sobre why the hell a promotoria dos EUA haveria de se preocupar com a questão, o próprio Maluf dá: "É um esprit de corps", aludindo a um corporativismo internacional entre colegas de área.

 

"Essa tese não tem o menor cabimento", responde Marques, que garante que o pedido de prisão foi uma iniciativa exclusiva da promotoria de Nova York. "É apenas uma desculpa que Maluf dá pelo fato de ter desviado dinheiro público e não ter conseguido se livrar do processo nos EUA." Maluf rebate: "Depois de 43 anos de vida pública, não tenho uma condenação penal. Ninguém tem ficha mais limpa do que o Paulo Maluf. Moro na mesma casa, na Rua Costa Rica, desde que entrei na política, não fumo, não bebo e não jogo, e estou casado há 54 anos com a mesma mulher".

 

Talvez nenhuma outra figura pública brasileira tenha feito da negação veemente a qualquer acusação uma verdadeira profissão de fé. A ponto de uma reportagem da revista Piauí ter assinalado o mantra de 17 sílabas recitado ano após ano pelo assessor Adilson Laranjeira: "Paulo Maluf não tem nem nunca teve conta no exterior".

 

Mal o político paulista fez sua aparição no site da Interpol, gracejos tomaram conta da blogosfera. O casseta Hélio de la Peña postou um haikai no Twitter: "Maluf - Alguém roubei, não sei quem fui". O site Kibeloco repaginou um velho cartaz do filme Eu, Robô, com o rosto de dr. Paulo no lugar do de Will Smith e a inscrição: "Eu rôbo - o povo de São Paulo há mais de 35 anos". Até Boninho, diretor do Big Brother Brasil, referiu-se a ele no blog do programa, comparando o político com o lutador Dourado, polêmico reincidente da edição deste ano: "Muita gente ama, muitos odeiam".

 

De outra forma, como entender os 739.422 votos que teve na última eleição parlamentar, em 2006? Votação, faz questão de dizer, espraiada em todos os 645 municípios e "com pelo menos 1 voto em cada uma das 77 mil urnas do Estado". Por isso, em 2010, já decidiu: vai tentar a reeleição.

 

Exibindo a planta da nova fábrica da Eucatex em Salto, no interior paulista, que terá 180 mil metros de área construída e irá elevar, segundo prevê, o faturamento do grupo dos atuais R$ 850 milhões para R$ 1,2 bilhão ainda neste ano, jura que a política é uma vocação que só lhe trouxe problemas. "Se eu quisesse dormir em cama de mola, ficava aqui. Durmo em cama de faquir porque gosto." E confessa a razão: "Aos 12 anos, quis ser padre para ajudar as pessoas. Meus pais ficaram loucos. Por isso acabei entrando na política, faço tudo pelo sorriso do povo".

 

Sem titubear, afirma ter viabilizado a democracia ao admitir a vitória de Tancredo no Colégio Eleitoral ("se tivesse renunciado ou conspirado, ele não teria sido eleito"), exalta a própria tolerância ("se tem alguém que defende a liberdade de imprensa sou eu, que tenho sofrido todo dia com ela") e se diz "comunista em comparação com o presidente Lula", quando o assunto é política de juros ("o maior defensor dos banqueiros brasileiros é o BC do PT").

 

Sobre a prisão de 2005, tampouco se faz de rogado. "Não há político que se sobressaiu e não tenha sido perseguido", ensina Paulo Maluf. "Gandhi e Mandela foram presos. Washington Luís e Juscelino, também. Getúlio só não foi porque se matou. Você se lembra de mais algum que tenha sido preso? Eu digo: o Lula. Então, ainda tenho chance de ser presidente um dia."

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