Ecossalsichas

Como a Rede de Marina Silva pretende fazer política livre, leve e solta em chão de salsicharia?

RENATO LESSA*,

23 de fevereiro de 2013 | 16h45

A máxima de Bismarck é surradíssima, mas surrados também parecem ser os tempos que correm. Segundo o prócer da unificação alemã, salsichas e leis são coisas tais que não se recomenda saber e ver como são feitas. Verdade seja dita, muito tem sido feito com relação à qualidade das salsichas. E não é de agora: os judeus portugueses, sob o risco da Inquisição e para afastar suspeitas sobre sua real condição, faziam-nas recheadas de pão e alho, e não de carne de porco. Por fora, salsichas, digamos, bismarckianas, por dentro, deliciosas “alheiras”, acompanhadas da sempre reconfortante sensação de não se estar a comer coisa impura.

Ao lembrar da iguaria luso-judaica, e da dialética de pureza/impureza ali manifesta, sou assaltado pela suspeita de que Abraham Lincoln, segundo Spielberg, pode ser considerado uma espécie de alheira da política. Com efeito, a substância de sua política - a 13ª Emenda à Constituição norte americana, que proíbe a escravidão - veio acompanhada de invólucros e práticas não totalmente estranhos às práticas legislativas brasileiras contemporâneas. Mas, será que alheiras políticas são duráveis? Será que é coisa segura pôr o invólucro a serviço da substância? Por vezes, é inevitável que se o faça: se o que está em questão é a proibição da escravidão, por exemplo, que se comprem deputados para tal. Não se trata, pois, de moralismo abstrato, mas de risco de passagem a um padrão de cultura política de predação, segundo o qual as chances da virtude dependem da homenagem que está disposta a conceder aos vícios. O passo seguinte pode ser representado não mais pela exigência de realismo, por parte das virtudes, mas pela aberta negociação conduzida pelos vícios entre si mesmos. Esse piso passa, então, a determinar as condições de “realidade”: aqui está, por efeito de gravitação, o “grau zero” da política, o terreno a partir do qual tudo começa.

Seja lá como for, e retornando à complementaridade bismarckiana entre leis e salsichas, a impressão que se tem é a de que, no que diz respeito à manufatura legislativa, nada de comparável ao crescente cuidado com as iguarias embutidas tem sido feito. Isso a tal ponto que a metáfora, a rigor, não mais se sustenta. Salsichas, é forçoso dizê-lo, hoje são submetidas a processos de controle de qualidade superiores em regra aos que vigoram na dinâmica dos Parlamentos.

As recentes eleições para a direção do Congresso e para a liderança do PMDB na Câmara de Deputados bem atestam a percepção do estadista da unidade alemã. Com efeito, dada a complexidade culinária crescente e a natureza dos ingredientes envolvidos, nada melhor do que a supervisão de mestres salsicheiros de indisputada competência. Em jargão asséptico e politológico, trata-se de valorizar a “experiência”, um juízo, na verdade, comprometido com os valores aí implicados, já que não se põem em discussão os fundamentos de tal “experiência”. É como se “experiência” na política fosse algo que se acumula com o tempo e com o depósito de materiais naturais, e que não fosse ela mesma resultado de crenças, que nada têm de natural, a despeito de sua naturalização e de sua resiliência. Nesse sentido, a salsicharia de Bismarck tem a consistência de uma paisagem: passamos por ela e ela segue ali, sempre inteira e idêntica a si mesma.

Pois bem, a senadora Marina Silva acaba de lançar um movimento que visa à constituição de um novo partido, designado como Rede, no qual o tema da sustentabilidade ocupa lugar central. É injusto, no mínimo, dizer que a desconversa sobre ser de direita ou esquerda, de oposição ou de situação, e que devemos seguir em frente, assemelha-se à esperteza de Gilberto Kassab, cujo partido pré-abocanha postos ministeriais. De certo, há lá sinais de confusão programática e de vulnerabilidade a oportunistas. A própria ideia de reservar 30% das vagas nas listas partidárias para independentes soa como interessante, não fosse a lei eleitoral fundada no voto personalizado. As chances do indivíduo independente, sem máquina e sem arrecadadores de campanha, são modestas. Se fosse o caso de listas partidárias bloqueadas, e a depender da posição dos independentes nas mesmas, a coisa poderia resultar em algo, embora eu não saiba bem no quê.

A ideia de rede não é panaceia. Na verdade pode ser um mito encobridor da nossa imensa perplexidade diante da livre operação da salsicharia à antiga, assim como de nossas confusões. No entanto, pode soar como pouco honesto opor à iniciativa “pós-partidária” um arrazoado realista, sobretudo por quem tem por tal realismo pouca ou nenhuma estima. A despeito disso, há lugar para a inquirição séria: a que vêm os proponentes da iniciativa? Como imaginam estabelecer suas práticas de política líquida - livre, leve e solta - em meio ao chão de fábrica da salsicharia? O partido da sustentabilidade, se a coisa for séria, não poderá deixar de conceber e de mobilizar a chave da insustentabilidade dos padrões da culinária política vigente. Há, pois, um dever de elucidação. Do contrário, tudo não terá se limitado à modificação oportunista no âmbito da concorrência habitual.

*RENATO LESSA É PROFESSOR TITULAR DE TEORIA POLÍTICA DA UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE, INVESTIGADOR ASSOCIADO DO INSTITUTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS DA UNIVERSIDADE DE LISBOA E PESQUISADOR VISITANTE NO CENTRO INTERNAZIONALE PRIMO LEVI, EM TURIM

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