Gagosian
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Ed Young escreve sobre como os animais percebem os sentidos da natureza

Autor explica como algumas espécies reúnem informações sensoriais para ver o mundo

Sadie Dingfelder, Washington Post

09 de julho de 2022 | 16h00

Uma confissão: vira e mexe eu entro em conversas com crianças a respeito de fatos sobre animais. Muitas vezes, elas estão certas e eu estou errada – eu culpo o desenho ‘Wild Kratts’. Mas posso ter recuperado a vantagem graças ao novo livro de Ed Yong, An Immense World: How Animal Senses Reveal The Hidden World Around Us.

A premissa do livro é que cada espécie tem acesso a uma fatia diferente da realidade, e nós, humanos, podemos ganhar novas perspectivas explorando essas visões de mundo. Essa ideia poderosa, proposta pela primeira vez pelo biólogo estoniano Jakob von Uexküll em 1909, marinou por quase um século antes de pegar entre os cientistas modernos. Na última década, explodiram as pesquisas sobre as formas como outros animais percebem e dão sentido ao mundo – também conhecidas como umwelt. Com An Immense World, Yong, jornalista científico da Atlantic, reúne essas descobertas com a promessa de dar aos leitores um vislumbre baseado em evidências científicas de como seria viver como outro animal.

“Por meio da observação paciente, das tecnologias à nossa disposição, do método científico e, acima de tudo, da nossa curiosidade e imaginação, podemos tentar entrar nos mundos [dos outros animais]”, escreve Yong.

Yong procede sentido a sentido, do familiar (visão, olfato, paladar), ao exótico (ecolocalização, eletrorrecepção, magnetorecepção). Ele revela um mundo fervilhante de informações às quais os humanos são (talvez felizmente) insensíveis: morcegos gritando com decibéis ensurdecedores a noite toda, insetos tocando hastes de plantas como se fossem cordas de violino, flores brilhando com alvos ultravioleta. Yong explica como esses sentidos funcionam – às vezes até o nível bioquímico – e nos leva a viagens de campo para conhecer os cientistas por trás das descobertas, ao mesmo tempo em que tece magistralmente esses fios díspares em um mesmo tecido narrativo. Mas, ao terminar os sucessivos capítulos, não consegui afastar a sensação de que continuávamos aquém do nosso destino prometido: entender como é ser outro animal.

Isso pode ser impossível. Talvez você conheça o ensaio “Como é ser um morcego?”, escrito em 1974 pelo filósofo Thomas Nagel. Nagel argumenta que mesmo o cientista que aprende tudo o que há para se saber sobre ecolocalização jamais poderá imaginar a experiência de um morcego, seu umwelt. Isso porque o morcego tem uma vida inteira de experiências de morcego que moldam sua visão de mundo, sem mencionar um cérebro e um corpo totalmente diferentes dos nossos. O melhor que você pode esperar, argumenta ele, é entender como seria para você, um humano, ser um morcego.

Na minha opinião, não é uma limitação real. Mesmo se você pudesse fazer um morcego falar, ele provavelmente teria dificuldade em descrever suas experiências vividas, momento a momento, assim como você ficaria perplexo se alguém lhe pedisse para descrever suas experiências sensoriais e de consciência (quer dizer, a menos que você seja James Joyce). Isso ocorre porque seu umwelt é o único que você já conheceu. Na medida do possível, a única maneira de entender o umwelt de outro animal é por meio da comparação e da imaginação – duas áreas em que Yong falha.

Repetidas vezes, Yong vai na ponta dos pés até o precipício da experiência de outro animal, mas nunca dá aquele último salto imaginativo. Por exemplo: quando ele se encontra com a cientista cognitiva Alexandra Horowitz e seu cachorro Finn, Yong contempla os insights de Horowitz sobre a experiência olfativa de seu cachorro: “Os cheiros duram de uma forma que a luz não dura, revelando uma história. Os antigos ocupantes do quarto de Horowitz não deixaram vestígios visuais fantasmagóricos, mas sua impressão química está lá e Finn consegue detectá-la”.

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Como nós, humanos, somos criaturas visuais, uma metáfora visual pode ajudar: os cheiros permanecem, então talvez a “visão” de mundo de um cachorro seja como uma fotografia de longa exposição
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Todas essas informações são cruciais, mas não respondem à pergunta subjacente: como é ser um cachorro? Como nós, humanos, somos criaturas visuais, uma metáfora visual pode ajudar: os cheiros permanecem, então talvez a “visão” de mundo de um cachorro seja como uma fotografia de longa exposição. Finn “vê” a imagem fantasmagórica e desbotada do cachorro que esteve aqui ontem. Ele também tem uma certa visão de raio-X (cheiros passando pelas superfícies), mas é um pouco míope, porque os cheiros não viajam tão longe quanto a luz.

No geral, Yong evita usar metáforas para outros sentidos, mas quando se entrega a elas (ou, mais frequentemente, quando cita algum cientista dando esse salto imaginativo), essas são as partes do livro nas quais fico pensando. Sobre a questão de como é ecolocalizar como um morcego ou um golfinho, Yong postula que pode ser como “tocar o som”: “é como se o golfinho estivesse estendendo a mão e apertando seus arredores com mãos fantasmagóricas”, escreve ele.

O que Yong nunca alcança, porém, é a vida interior dos animais. Na esteira da revolução umwelt, os cientistas estão explorando as maneiras pelas quais outros animais unem informações sensoriais em uma experiência coerente do mundo. Este, o reino frágil e contencioso da psicologia comparativa e da etologia cognitiva, faz perguntas como: os cães sentem ciúmes? (Sim!) Os gatos entendem causa e efeito? (Talvez não!) Os golfinhos têm algum senso de identidade? (Provavelmente).

Essas descobertas ampliam a imaginação e nos obrigam a contemplar novas formas de experimentar o mundo. Como seria não sentir nenhuma separação entre você e seu ambiente? Como você experimentaria o tempo se ele desacelerasse ou acelerasse dependendo da temperatura do seu corpo? Os gatos estão sempre tirando as coisas das prateleiras porque o resultado nunca deixa de ser surpreendente?

Embora An Immense World não mergulhe os leitores nos mundos dos outros animais, o livro mostra o quanto nós, humanos, perdemos quando deixamos de considerar as visões de mundo dos outros animais. Isso, por si só, é uma grande conquista. Ou, como escreve Yong: “A tarefa será difícil, como Nagel previu. Mas há valor e glória no esforço”.

An Immense World: How Animal Senses Reveal the Hidden Realms Around Us

Ed Yong

Random House - 464 páginas - US $30

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Sadie Dingfelder é escritora e mora em Washington.

/ TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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