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Éden fabricado

O Jardim Zoológico de Paris reabriu suas portas no último fim de semana, após quase seis anos fechado e cerca de € 160 milhões investidos. Fundado em 1934, o parque conta com mil animais de 180 espécies, em 100 mil m2 segmentados em cinco ecossistemas.

GILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2014 | 02h11

Após cinco anos fechado, o Zoológico de Vincennes reabriu as portas. Chama-se agora Parque Zoológico de Paris, para assinalar que os 167 milhões consagrados a sua renovação marcam uma data na história dos zoos, ou, mais exatamente, das relações do homem com a natureza e com a selvageria.

Em 1934, quando o Zoológico de Vincennes foi inaugurado, sua finalidade exclusiva era oferecer um espetáculo às famílias. O zoológico, explicavam, entreabria uma janela que permitia ver o que escapava ao primeiro olhar: a vida livre e misteriosa que os animais levam à sombra das florestas ou nas savanas. O projeto era mentiroso: na verdade, os animais eram exibidos para se ganhar dinheiro e distrair as pessoas.

Da mesma forma que Paris no início do século 20 apresentava aos curiosos as "Vênus Hotentotes", o Zoológico de Vincennes oferecia aos homens a altivez dos animais nas planícies. Pouco importava se leões, girafas ou gazelas morriam de tédio, imundície, cativeiro, contanto que as crianças se divertissem.

Temos agora um zoológico do século 21. As coisas foram bem feitas: 179 espécies; um aviário de 1.100 m² e 11 m de altura; uma estufa tropical de 100 m de comprimento. Mas nada de ursos nem de elefantes porque são animais que demandam vastos espaços (um urso requer um hectare para ser feliz). Todas as espécies foram instaladas em paisagens as mais naturais possíveis, com ambientes e microclimas calculados sob medida. Não teremos mais leopardos ou macacos enregelando nas geadas parisienses.

Outra novidade: não há mais jaulas nem barreiras. Os ambientes foram planejados para que os animais fiquem isolados do público por fossos ou paredes de vidro. Esse esforço para respeitar a liberdade animal pode causar alguma frustração nos visitantes, mas ninguém se queixa porque o "novo zoológico" proclama se preocupar mais com animais que com espectadores. Se um animal se cansar de ouvir a gritaria das crianças, pode se recolher a suas florestas profundas e ficar em paz. Foram-se as capturas nos países longínquos e os transportes com gigantesca mortalidade. Foram-se os cativeiros ignóbeis, degradantes, mortíferos, os fedores, as podridões. Foram-se os pássaros em gaiolas tão pequenas que mal podiam abrir as asas. Mas às vezes é preciso esperar horas para ver o focinho de um lobo.

Melhor ainda, dizem: num momento em que a proliferação dos homens, o apetite das cidades e das indústrias ameaçam a sobrevivência de espécies, o zoo é a solução milagrosa para se contrapor à extinção de animais selvagens, 65 milhões de anos depois do desaparecimento dos dinossauros.

Revertendo o discurso compassivo sobre os animais subjugados pelos homens, os zoologistas vão mais longe: o zoo do futuro, longe de humilhar o animal, oferece-lhe uma ressurreição. Não é mais a maldição do bicho, mas sua sobrevivência. Espécies ameaçadas, como grandes felinos, não têm chance além dos zoos, que, administrados com inteligência, permitirão reintroduzir esses animais em seu hábitat.

Ao ouvir argumentos como esses, os aiatolás da vida selvagem se ouriçam, rugem, riem, ladram, grunhem, miam e estufam as penas. Negam qualquer necessidade, qualquer vantagem no cativeiro de animais. Atacam a ideia "de uns 30 anos" posta em prática em zoos de vanguarda, de que é saudável retirar os animais dos perigos da liberdade para mais tarde devolver seus descendentes a sua geografia de origem.

Diante de programas assim, o presidente do "código animal" é categórico: "Uma espécie fora do seu espaço é uma sombra. Toda morfologia e comportamento de um animal são regrados por seu meio e sua sensualidade. Um leão que num zoo recebe quilos de carne de supermercado não tem nada a ver com o leão à espreita na savana".

Pretender que zoológicos ajudem a preservar a natureza e a reforçar a biodiversidade é uma bobagem, dizem os inimigos dos zoos. Eles denunciam o "linguajar hipócrita" desenvolvido para transformar o cativeiro vergonhoso do animal em "salvaguarda da vida primitiva". E fustigam o novo vocabulário nos zoos: "Não se fala mais de animais cativos, mas de 'pensionistas embaixadores do mundo animal'". Não se fala mais em "cercas", mas em "biozonas", e assim por diante. Será então o caso de se resignar a ver os animais desaparecerem do planeta ao sabor da demografia humana?

É preciso reconhecer que os inimigos dos zoológicos não têm muitas soluções para propor, além da articulada pelo zoólogo Jean-Claude Nouêt: "A prioridade não é pôr muito dinheiro em hipotéticos programas de reintrodução. Ou num cativeiro, mesmo dourado, como o de Vincennes. A prioridade é que os países se entendam para cuidar de que grandes zonas africanas, sul-americanas ou asiáticas sejam preservadas da intrusão humana e da caça ilegal."

Boa ideia. Como não se pensou nisso antes? Nada mais simples que criar aqui e ali alguns paraísos terrestres... E por que não acrescentar evas e adãos para deixar a coisa ainda mais natural? Poder-se-ia até, para completar esses edens fabricados pelo homem, equipá-los com arcas de Noé...

Podemos, entretanto, encerrar com uma nota de esperança? Apesar de ser verdade que o aprisionamento de animais para sua reinserção em espaços virgens tenha experimentado fracassos, não seria o caso de apontar alguns grandes sucessos? Na França, as solturas de abutres selvagens permitiram, depois de 30 anos, reintroduzir essas esplêndidas aves de rapina nas montanhas. O bisão da América está salvo. E o cavalo primitivo, cujos últimos representantes foram achados na Polônia, o cavalo de Przewalski,está em franco progresso. Assim, o primeiro cavalo não da criação, mas da história, foi resgatado da beira do abismo pela engenhosidade dos homens. Ele recomeça a galopar nas planícies europeias primitivas. Preservemos essa imagem como presságio, como esperança. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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