Todavia
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Edgard Telles Ribeiro joga com a memória fragmentada em novo livro

Em 'O Impostor', o protagonista perde as amarras da realidade ao viajar para Nápoles, onde seu tio-avô havia caído no vulcão Vesúvio

José Castello*, Especial para o Estado

09 de maio de 2020 | 16h00

No ano de 1891, aos 30 anos, o escritor fluminense Antonio da Silva Jardim, um defensor das causas republicanas, fez uma visita à Itália. Na companhia de um amigo, subiu a encosta do Vesúvio. No topo, uma fenda se abriu e o vulcão o tragou. Defensor acalorado da ideia de que era necessário matar Pedro II na guilhotina, sua morte trágica, que pode ter sido um suicídio, inspirou a um jornal mineiro o comentário: “Morreu como viveu, cercado por lavas e chamas”.

O protagonista de O Impostor, novo romance de Edgar Telles Ribeiro (Todavia), teve um tio-avô que, uma década depois da morte de Silva Jardim, experimentou o mesmo destino. Engolido pelo Vesúvio, seu antepassado despareceu também na memória da família. “Meu pobre parente fora tragado, não tanto pelo Vesúvio, mas pelo esquecimento.” Carregando consigo a imagem fluida do falecido, também ele decide visitar Nápoles, na Itália. Nada sabe a respeito do tio morto. Até seu nome se perdeu. “Do episódio, além da fotografia de meu tio-avô, que enfiei no bolso (e anos depois perdi), conservei uma impressão difusa.” Um sentimento igualmente impreciso o atormenta: tem medo de cair no vulcão também.

A imprecisão não é só uma qualidade do passado: ela se derrama sobre todo o presente. Meses antes da viagem, o narrador de O Impostor teve um AVC. Durante longos dias, esteve fora de si e quando, por fim, voltou à tona da realidade, ela já não tinha a mesma consistência. Mesmo com a mulher, Marisa, que o acompanha à Itália, já não sente a mesma sintonia. A realidade se torna mais vaga. Nem a si ele reconhece: quando se observa no espelho, encontra apenas uma superposição de máscaras – e por isso se julga um eterno impostor.

Nos dias do coma, o mundo se revirou. “Você desapareceu por 20 dias. Achei que não voltaria mais”, lhe disse Marisa depois. Quando volta, ainda é o mesmo homem, mas, em um certo sentido, é outro também. Mesmo antes de chegar ao Vesúvio, já se sente prisioneiro de um vulcão. Detido em “um espaço desolado em memórias extintas como o vulcão à minha frente”. Após a doença, sente-se prisioneiro de uma eterna transição. Uma rachadura no tempo o tragou. Por isso, se identifica tanto com o neto Felipe, de 16 anos, seu maior amigo. Nem Marisa o compreende mais. No hotel em Nápoles, reclama com a mulher do cansaço. Ela argumenta que passaram um longo tempo sentados. Ele a corrige: não fala disso, mas de “um cansaço pré-histórico, de minha história”. De um cansaço de ser.

Todo o romance de Edgar Telles Ribeiro se contamina pela fragmentação que despedaça a mente do narrador. Também o leitor não sabe muito bem onde pisa. O tempo avança e recua aos solavancos. Os espaços se misturam. E há ainda a interferência aflitiva dos sonhos, que o narrador rememora só aos fragmentos. Será que seu tio-avô existiu mesmo? Terá ele caído no Vesúvio? E terá ele mesmo, seu sobrinho neto, feito uma viagem à Itália? Em uma conversa difícil com o neto, reflete: “Se estou aqui, é porque nem saí do Brasil. E viajei, apenas, por cortesia de algum delírio”. Logo, porém, ainda em busca de terra firme, tenta pensar ao contrário: “Mas se estou na Itália, tudo que ocorre aqui, nossa conversa inclusive, é mera recordação.

Já não pode confiar no tempo. Também o espaço se tornou traiçoeiro e já não tem muito certeza a respeito de onde está. Em muitos momentos, está no consultório de seu psiquiatra, deitado em seu divã e observando o teto. Fala de si, esforça-se – mas a verdade é que confia mais no neto do que no médico. “É difícil falar sobre isso com o médico. Com meu neto é mais fácil, Felipe é meu cúmplice. Não interfere e nem me intimida. E nada espera de mim”. Só Felipe o conduz de volta à terra firme. No mais, vive em um mundo cheio de fendas que, a qualquer momento, podem tragá-lo.

Durante a terapia, costuma ter visões. “Só que elas nada têm de recriadas. São reais. Tão reais como você, sentado em sua poltrona”, diz ao terapeuta. Em uma conversa com o neto, lhe explica que não existe diferença entre a ficção e a realidade. Ambas são “partes de uma única tela, ela própria herdeira de antigos pergaminhos, nos quais todas as narrativas se encadeavam com a mesma regularidade, fundindo os fatos às lendas”. Não é o único impostor: também a realidade não passa de uma impostura. Estará enlouquecendo? Recorda então que, já na Renascença, se atribuíam aos loucos certos poderes, entre os quais a capacidade de revelar verdades secretas. Os loucos eram tidos como adivinhos. Talvez só eles possam decifrar uma realidade que se desfigura. Uma realidade que ferve e que, como um vulcão, ameaça nos engolir também.

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