Bruno Nogueirão/Estadão
Bruno Nogueirão/Estadão

Editor conta como os EUA financiaram a publicação de livros no Brasil durante a guerra fria

Gumercindo Rocha Dórea publicou 47 livros subsidiados pelos americanos, foi o primeiro editor de ficção científica do Brasil e revelou Rubem Fonseca e Nélida Piñon

André Cáceres, O Estado de S.Paulo

09 Dezembro 2017 | 16h00

O caminhar hesitante e trôpego de Gumercindo Rocha Dórea ao adentrar a sala para receber a reportagem do Aliás não denuncia a importância que esse baiano de Ilhéus teve para a literatura nacional. O que denota sua contribuição como um dos primeiros editores brasileiros de ficção científica talvez seja a quantidade de livros que se espraiam pelos mais recônditos cantos de seu apartamento em São Paulo. Folhas de papel esvoaçavam sob a ação do vento proveniente da janela aberta, como que polinizando livros, fazendo-os germinarem na prateleira, brotando no sofá, se acumulando sobre a mesa de centro e se empilhando até no chão.

O primeiro livro que seus olhos, hoje amparados por um avantajado par de óculos, leram, ainda na infância, foi As Minas do Rei Salomão (publicado originalmente em 1885 e reeditado no Brasil em 2017 pelo selo Via Leitura da Edipro), de Sir Henry Rider Haggard, em uma tradução de Eça de Queirós. Uma das principais obras da fantasia britânica inspirada nos grandes exploradores do século 19, o livro praticamente fundou o subgênero do “mundo perdido” e cultivou em Gumercindo a avidez pela leitura. 

O ilheuense mudou-se para Salvador com a família aos dez anos, onde teve aulas com o filólogo Herbert Parentes Fortes, que o introduziu ao pensamento integralista. Aos 20 anos, estabeleceu-se no Rio de Janeiro e lá formou-se em direito. Na então capital federal, escreveu para o jornal A Marcha, vinculado ao Partido de Representação Popular, e entrou em contato com o mentor do integralismo, Plínio Salgado (1895-1975), que sedimentaria suas polêmicas convicções políticas conservadoras.

No campo literário, Gumercindo entrou em contato com a ficção científica pela primeira vez por meio do Suplemento Juvenil, que circulou no País entre 1934 e 1945, e o apresentou a personagens clássicos dos quadrinhos, como Flash Gordon, Buck Rogers e Brick Bradford. Além da leitura, a imensidão do espaço marcou o ainda jovem Gumercindo em uma espécie de revelação. Ele se recorda de quando tinha cerca de 20 anos e ia montado em um burro de Salvador para a usina de açúcar de seu pai, no Recôncavo Baiano: “Levantei a cabeça, tomei um bruto susto, a impressão que me deu foi que aquilo ia despencar repentinamente. Era o céu salpicado de estrelas, de uma beleza, nunca me saiu da memória”, relembra Gumercindo, para quem a experiência o fez abrir caminho para a ficção científica no Brasil.

De seus 93 anos, ele conta 61 como editor, sendo citado na Science Fiction Encyclopedia, a principal enciclopédia virtual do gênero na internet, como o mais relevante divulgador do gênero no País. “Já havia algumas antologias de ficção científica no Brasil com bons autores, selecionados por gente de pedigree”, admite Gumercindo, mas enfatiza ter sido o primeiro a criar uma coleção dedicada a publicar sistematicamente as obras do gênero de 1958 em diante, quando lançou Além do Planeta Silencioso, de C.S. Lewis. “Consegui marcar a literatura brasileira com esse capítulo novo”, sorri e se gaba o editor, que fundou a GRD em 1956.

“Mas ficção científica? Ninguém sabe, no Brasil, o que é ficção científica, Gumercindo”, diziam a ele, ao que o intrépido Dom Quixote das letras replicava: “Exatamente por isso que temos que aprender, e só se aprende lendo.” Desde então, sua editora revelou ao País autores do nicho como Ray Bradbury, H.P. Lovecraft, Dinah Silveira de Queiroz e Robert Heinlein; além de nomes como Nélida Piñon e Rubem Fonseca.

A despeito de sua importância como editor para a literatura nacional – mais acentuada ainda no nicho da ficção científica –, sua ideologia acabou por lhe render críticas em épocas mais polarizadas politicamente. “Eu não sou da esquerda e nem da direita, sou integralista. Um homem chamado Plínio Salgado, o que ele fez nesse país, ninguém fez igual. Ninguém construiu uma doutrina ou um movimento político como ele”, sentencia o editor.

Em 2015, a GRD foi tema do estudo Guerra Fria e Política Editorial, da professora Laura de Oliveira, do departamento de história da UFBA. O livro da pesquisadora relata o convênio entre a editora e a United States Information Agency (Usia), agência norte-americana responsável pelo Book Development Program, iniciativa que financiou a publicação de obras não necessariamente políticas, mas do interesse cultural dos EUA. A tese de Laura sugere que Gumercindo publicou ficção científica orientado por sua ideologia: “Os estados totalitários de Huxley, Orwell e Zamiátin emergiram do desejo de fundar uma sociedade ideal”, escreve, relacionando-os em seguida ao anticomunismo: “A utopia se firmou, durante a Guerra Fria (e, no leste europeu, depois dela), como um conceito negativo, vinculado às doutrinas que embasaram regimes totalitários, marcadamente o stalinismo.” O editor confirma o convênio com a Usia, ressaltando que o Book Development Program firmou parceria com boa parte do mercado editorial brasileiro. Gumercindo recusa, no entanto, a ideia de que a publicação de ficção científica por parte da GRD tenha tido algum fim político, afirmando que o interesse pelo gênero, para ele, sempre foi puramente literário. 

Acusado de ter recebido dinheiro da Usia para publicar obras, Gumercindo diz que essa era uma prática comum no meio editorial brasileiro durante a Guerra Fria. “Eles já tinham contato até com Ênio Silveira (1925-1996), da Civilização Brasileira, editora vinculada ao Partido Comunista. Todas as grandes, pequenas e médias editoras publicaram livros com a embaixada americana.” A Usia fomentou, entre 1953 e 1973, a publicação de mais de 3 mil livros no País, dos quais 47 foram pela GRD, entre obras de história, filosofia, ciência política e sociologia, sempre de cunho anticomunista, segundo o estudo de Laura. “Eu tirava mil exemplares e a embaixada comprava 500. Qual é o demérito que existe nisso? Eu fiz uma transação comercial”, justifica Gumercindo. O número total de exemplares publicados no estado de São Paulo foi de 6 milhões em 1956 para 23 milhões em 1964, ano em que 58% da literatura estrangeira publicada no Brasil era proveniente dos EUA, boa parte viabilizada pelo convênio das editoras com a Usia.

A literatura especulativa, porém, é destituída de ideologia. As obras do militante bolchevique Alexander Bogdanov, do político de esquerda inglês China Miéville e da autora distópica Margaret Atwood demonstram que a ficção científica não favorece o discurso conservador. A estudiosa do gênero Mary Elizabeth Ginway coloca autores como Chico Buarque e Ignacio de Loyola Brandão nesse escopo por conta de livros distópicos como Fazenda Modelo (1974) e Não Verás País Nenhum (1981). O próprio Gumercindo chegou a publicar obras de autores de esquerda: “Você vai encontrar em livros meus autores comunistas, inclusive na coleção de ficção científica”, afirma o editor. Nunca tive esse ódio ideológico, não é minha característica. Nunca olhei se você vestia a camisa vermelha, preta, branca ou amarela. Olhei sempre o seu trabalho”, conclui.

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