El futuro del país

El futuro del país

Juan Pablo Villalobos, O Estado de S. Paulo

27 Dezembro 2014 | 16h00

:::MUNDO REAL::: Esta ficção foi baseada nos seguintes fatos de 2014: O prefeito da cidade mexicana de Iguala foi acusado de mandar a polícia entregar a um cartel de drogas 43 estudantes que se manifestariam durante uma festa na cidade, no dia 26/9. Os jovens teriam sido mortos e incinerados e seus restos mortais, descartados num lixão. O caso provocou violenta onda de protestos no país. 

O edifício estava localizado num desses bairros extremamente sensíveis à gangorra da economia nacional. Uma zona urbanizada com vistas à classe média há mais de 60 anos, em pleno “milagre mexicano”, que desde então sofria uma alta rotatividade imobiliária. Compras, vendas, um contrato de aluguel atrás do outro, e despejos. Em cada crise econômica os vizinhos que se davam mal iam embora (para bairros como o meu, onde não dá para dissimular a pobreza), e os que pensavam que tinham ganhado na loteria chegavam. As coisas se mantinham assim até a crise seguinte, que novamente punha em movimento a roleta-russa. Um edifício feio, porém sólido, de seis, sete andares. Reformado recentemente. Uma pintura cinzenta que se confundia no alto com o céu nublado de dezembro. Havia dois cartazes de “Aluga-se” nos andares 3 e 4, e um aviso pregado ao lado do interfone no qual se advertia vendedores e missionários de seitas religiosas a não incomodar os moradores. Apertei o botão do 5B e esperei três, cinco, nove segundos.

- Fale - disse uma voz fanhosa, talvez distorcida pelo sistema de comunicação, que, ao contrário do resto do edifício, parecia não ter sido modernizado.

- Sou o repórter - falei.

- Suba - ordenou a voz fanha.

Ouviu-se um zumbido, empurrei a porta e atravessei o saguão, que cheirava a comida. A pamonhas. Ou gorditas. Com certeza algo à base de milho. Pressionei o botão do elevador e vi na telinha que ele descia do quinto andar. Esperei cinco, quatro, três, dois, um segundo. O elevador freou suavemente e, quando as portas se abriram, apareceu um meninote moreno, cabelo escovinha em estilo militar, carregando um cesto.

- Quer pamonha, tio?

Calculei que devia ter 13, no máximo 14 anos.

- Não, obrigado - respondi, enquanto dava a volta ao redor dele para entrar no elevador.

O menino depositou o cesto no chão e colocou a mão na porta do elevador para evitar que fechasse.

- Me dá um boas-festas, tio?

Fiz uma rápida avaliação, ele não estava esfarrapado; sem pudor, decidi que não poria a mão no bolso da calça para tirar uma moeda. Na verdade, seus sapatos estavam em melhor estado que os meus.

- Não, compadre, sou jornalista, acho que você está se saindo melhor com as pamonhas.

- Tudo bem, tio, qualquer coisa, cinco pesos.

- Olha, realmente, não tenho nada, ainda não me pagaram o décimo terceiro.

Ele olhou para baixo e descobriu o estado verdadeiramente lastimável de meus sapatos. Tirou a mão da porta e começou a se agachar para levantar o cesto. Então fui eu que pus a mão para evitar que a porta fechasse.

- De onde você é? -, perguntei.

- De Veracruz -, respondeu.

- Faz muito tempo que mora na capital?

- Desde o ano passado.

- E onde você mora?

- Em Milpa Alta.

- É bem longe daqui.

Fez que sim com a cabeça.

- Mas aqui as vendas são boas - completou.

- Mora com seus pais?

- Está me entrevistando?

- Não, só queria saber.

- Tio, só uma pergunta, um jornalista ganha bem?

- Não, o que a gente ganha só dá para arroz e feijão.

- E por que não faz outra coisa?

- Boa pergunta. Acontece que estudei jornalismo.

- E, quando estudava, já sabia que não ia fazer grana com isso?

- Suponho que não, ou sim; o que sabia era que não ficaria milionário.

- E então por que estudou isso?

- Essa sim é a pergunta que vale 1 milhão. Olha, preciso ir, estão me esperando.

Tirei a mão da porta, pressionei o botão do quinto andar e, enquanto o elevador começava a se movimentar, ainda ouvi o menino perguntar:

- Não vai me dar nada mesmo?

Esperei um, dois, três, quatro, cinco segundos. O elevador parou suavemente e, quando a porta abriu, vi imediatamente o indivíduo que me esperava no corredor. Vestia uma túnica lilás que chegava aos tornozelos, aparentemente de seda, com desenhos dourados egípcios ou mesopotâmicos. 

- Por que demorou tanto? -, perguntou com a mesma voz fanha, demonstrando que o sistema de comunicação não estava distorcendo o som. - Já ia descer para ver se tinha se perdido.

- Desculpe -, respondi, e ia me estender na explicação sobre o menino das pamonhas, mas ele me interrompeu:

- Então ande depressa, temos somente dez minutos. Tenho um cliente que chega às 5.

Virou-se e foi andando a passos rápidos, como o personagem de um desenho animado, até entrar no apartamento do fundo. Eu o segui, obediente.

A penumbra do apartamento era alaranjada. Reparei que várias lâmpadas, colocadas de maneira calculada, estavam cobertas por véus vaporosos cor de laranja. Podia ouvir, num volume baixo, uma musiquinha instrumental de sons da natureza. Cantos de pássaros. Águas de um rio. O vento entre as copas das árvores. Cheirava incenso. E pamonha. O sujeito sentou numa poltrona que parecia um trono e me indicou uma cadeira que estava em frente, do outro lado da mesa onde descansava, bem no centro, uma bola de cristal.

- Bom, vamos ao que interessa -, disse. - Pegue seu bloco e preste atenção.

Estendeu a mão sobre a bola de cristal, apertou o maxilar e fechou os olhos com um gesto teatral. Me dei conta de que não tinha sobrancelhas, e seu rosto tinha passado por várias cirurgias plásticas. Cirurgias, para ser exato, de péssima qualidade. Calculei que devia ter 60, 65 anos. Tinha uma cabeleira alaranjada, talvez uma peruca. Ou talvez fosse efeito da luz laranja. Reparei nas mãos: alaranjadas, cor de bronzeado de shopping center. As mãos tremeram sobre a bola de cristal. Respirou fundo, expirou, começou a abrir e fechar as mãos como se fosse um super-herói e estivesse lançando raios. Definitivamente, uma boa decisão de ano-novo seria procurar outro trabalho.

Peguei o bloco e o coloquei sobre a mesa. Peguei a caneta do bolso do casaco. O sujeito abriu um olho.

- Tire o bloco de cima da mesa, dá interferência.

Tirei o bloco, puxei um pouco para trás a cadeira, folheei as páginas até encontrar uma em branco e me preparei para escrever apoiando o bloco sobre o joelho. O sujeito voltou a fechar os olhos. Passaram-se um, dois, cinco, catorze, vinte segundos... As lembranças das reportagens dos últimos meses, despertadas ao folhear as páginas do bloco, foram se sucedendo: a mulher sem cabeça que apareceu debaixo de uma ponte; o cantor sertanejo executado num boteco do centro (94 balaços); os restos humanos que os cachorros descobriram num lixão de Cuautitlán; a rede de prostituição a serviço do líder do partido; os óvnis do Ajusco; a fugaz reaparição do chupa-cabras. Outro ano de puro luxo.

- Vejo mortos -, disse por fim o sujeito, com sua voz fanha, agora grave, como a desses vídeos em que as vozes são distorcidas para que não seja possível identificá-las.

Fiz os rabiscos pertinentes no bloco: “mortos”.

- Vejo sofrimento -, acrescentou.

E eu escrevi: “sofrimento”. A voz do sujeito se elevou e começou uma ladainha que me lembrou os sermões que a gente vê nos filmes americanos, as missas dos negros em que cantam gospel.

- Vejo pais que não encontram os filhos, vejo filhos que não encontram os pais, vejo irmãos procurando irmãos, vejo aquele que procura e não acha, vejo o vazio dos que desaparecem, dos que vão e não voltam, dos que morrem e não são enterrados.

Rabisquei algumas palavras que, mais tarde, me ajudariam a reconstituir o discurso na redação do jornal. O sujeito se calou de novo. Passaram-se três, quatro, quinze, vinte e dois segundos. Resolvi falar.

- Desculpe, os mortos, quem são os mortos, poderia falar mais dos mortos, alguém em particular?

- Silêncio! -, gritou ele -, isto não é uma entrevista, não se engane.

Fechei o bico e me dediquei a inspecionar com maior atenção o que havia em volta. Na parede da direita, um quadro alaranjado com a palavra “Abraxas” em letras negras. No fundo, uma janela coberta por uma cortina de seda alaranjada. Por trás da mesa havia um sofá-cama. Sobre o sofá-cama, uma bandeja. Sobre a bandeja, um copo com Coca-Cola e um prato com restos de pamonha. O sujeito voltou ao ataque.

- Vejo crise de confiança, os pais não acreditam nos filhos, os filhos não acreditam nos pais, vejo irmãos mentindo aos próprios irmãos, vejo a corrupção e a ambição dos poderosos, vejo os governantes que roubam tudo, e vejo os cidadãos pecar por indolência, indiferença, vejo os filhos do México deixando o país esvair-se em sangue.

Quando terminei meus rabiscos, tirei o celular do bolso da calça e olhei a hora. Tinha só quatro minutos. Abri a boca de novo, do contrário não ia ter material para a reportagem.

- Desculpe interrompê-lo, mas é uma matéria sobre as previsões para 2015, e o que interessa aos nossos leitores são coisas concretas, quem morrerá, quem vai triunfar ou fracassar, quais serão os eventos mais importantes, esse tipo de coisa, principalmente sobre políticos, artistas, gente famosa.

O sujeito, que na metade de minha fala havia aberto os olhos e movido as mãos para apoiá-las nas coxas, me olhou exasperado.

- E do que acha que estou falando? - gritou, com voz fanhosa de trompete.

Fiquei em silêncio, esperando que respondesse à própria pergunta; e finalmente, depois de fungar num gesto de despeito, acrescentou:

- O que estou dizendo é que haverá mortos no país, mortos pela violência, e desaparecidos. Que haverá corrupção no governo. E as pessoas não farão nada para corrigir isso.

Continuei em silêncio para ver se ele prosseguia, mas tive a impressão de que se preparava para dar a entrevista por encerrada.

- Desculpe -, eu disse de novo, quantas vezes me desculpara! - , não leve a mal, mas isso acontece continuamente no México, e especialmente nos últimos anos.

- Eu previ Ayotzinapa! - berrou furioso.

- Verdade?, como?, quando, para quem disse isso?

- Disse a um imbecil como você, no ano passado, mas ele não soube interpretar. Disse que via gente desaparecer, como se virasse fumaça, da face da terra, e disse que os números de 2014 eram 3 e 4.

- Quer dizer 4 e 3, ou 43.

- Está vendo, você não entende nada.

- E este ano tem alguma previsão parecida? Vamos saber o que aconteceu com os estudantes de Ayotzinapa? O presidente vai aguentar os escândalos de corrupção? O presidente vai renunciar?

Resfolegou como uma vaca coberta de moscas que a incomodam enquanto pasta. Em seguida, ouviu-se o barulho do interfone. O sujeito se levantou, foi até o aparelho, atendeu e voltou para a mesa.

- Precisa ir, é um cliente muito importante, ele não gosta que o vejam.

- Olhe, preciso que me diga algo mais, com o que me disse não consigo escrever uma nota.

- Ponha o que você quiser, não tem imaginação?

- E se não se cumprir?

- Não importa, as pessoas não lembram.

Fiz o trajeto até a porta acompanhado de perto por ele. Estendi a mão para me despedir e ele me respondeu dando-me um cartão de visita.

- Não esqueça de colocar meus dados na reportagem, ponha telefone e e-mail, e que não atendo aos domingos.

Fui até o elevador e apertei o botão para chamá-lo. Esperei um, dois, três, quatro, cinco segundos e, ao abrir a porta, vi a cara alaranjada, o bronzeado de shopping center, do ministro da Justiça. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

ESCRITOR MEXICANO, NASCEU EM GUADALAJARA E ATUALMENTE VIVE EM BARCELONA. AUTOR DE FESTA NO COVIL E SE VIVÊSSEMOS EM UM LUGAR NORMAL (COMPANHIA DAS LETRAS)

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