El pibe de Cristina

Guitarrista, motoqueiro e enrolado, Amado Boudou, o 'estupendo' vice argentino, dedica à presidente uma lealdade que ela adora

Ariel Palacios, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2012 | 03h09

Este é um governo muito rock-and-roll, pois tem esse espírito de atrever-se a mudar as coisas de que não gosta". Assim Amado Boudou analisava a essência da administração Cristina Kirchner em uma entrevista à edição argentina da revista Rolling Stone, no ano passado. Desde aquela época um dedicado DJ e guitarrista elétrico, o bonitão portenho de infalíveis mullets, então, quebrava o galho como ministro da Economia. Poucos meses depois, tornou-se o novo vice-presidente da república.

Apreciador de ternos bem cortados e cultivador da cabeleira ao estilo décontracté, Boudou coleciona canetas-tinteiro e motos Harley Davidson. Sobre elas (as motocas, não as canetas) pode ser visto garbosamente montado, em passeios pelo elitista e modernoso bairro de Puerto Madero. O outfit que nunca lhe falta nessas horas é uma jaqueta curtinha de couro preto, ad hoc com o tipo desse veículo vintage da outrora juventude transviada.

Chamado de "Aimé" (Amado em francês) pela família e amigos, Boudou estudou no balneário de Mar del Plata, onde se formou em Economia. "Já era um playboy", disse ao Estado uma ex-colega de faculdade. Ela se formou rápido. Ele levou vários anos a mais. "Estava ocupado com a militância política na centro-direita e na organização de festas no curso", entrega.

Boudou ganhou espaço no governo Kirchner quando, em 2008, comandando o sistema previdenciário, propôs ao casal presidencial a ousada jogada da reestatização das aposentadorias. Um ano depois, Cristina colocava "aquele jovem estupendo" - descrição da própria - no comando da economia. Enquanto Néstor Kirchner estava vivo, porém, Boudou teve pouco peso, já que o ministro de facto era o próprio ex-presidente. Depois de sua morte, a influência de Boudou cresceu.

Isso irritou a ala tradicional do estatizante peronismo, já que o bem-apessoado ministro foi na maior parte da vida um militante da União de Centro Democrático, principal reduto do neoliberalismo local. Mas Aimé que se preza está aí para o que der e vier: na década passada, converteu-se ao nacionalismo popular e hoje usa um iPhone made in China para tuitar com unhas e dentes sobre a defesa da indústria nacional. Dizem os analistas que a incondicional lealdade de Aimé a Cristina é seu maior trunfo. Boudou não perde a chance de elogiar a chefe. Cristina adora, por supuesto.

"Um ser desprezível, um miserável", na definição de um outrora poderoso ex-ministro dos Kirchners que conversou reservadamente com o Estado sobre Boudou. O homem faz uma pausa, dá um gole no expresso e acrescenta outra característica do vice, de modo direto, rápido e, hum, rasteiro: "Ele é um capacho". Mas maledicência tem limite. O político descarta os rumores que circularam tempos atrás dando conta de um affaire Cristina-Boudou. Segundo ele, a troca de tantos elogios públicos entre ambos que havia alimentado a boataria "eram meros galanteios, nada além disso". Cristina, porém, dá pano para manga, para ciúme de outros integrantes do governo. "Tem 48 anos, mas parece bem menos", disse Cristina durante um discurso, sorrindo para o vice baby face.

Atualmente com 49 anos, esse economista com physique du rôle de galã namora a jornalista Agustina Kämpfer. Um belo casal, sem dúvida, mais famoso pelos cinematográficos beijos em público do que por qualquer comentário jornalístico ou econômico. Depois da posse do namorado, Agustina foi batizada pela mídia de "vice-primeira-dama". Coincidentemente, atacam as más línguas, passou de uma simples repórter de rua a apresentadora de um telejornal depois que se enamorou de Boudou. Ela usa o Twitter para relatar o que nem todos querem saber: "Amado me liga mil vezes por dia".

Em dezembro, Boudou foi apontado como virtual sucessor de Cristina. No entanto, em fevereiro o governo rock-and-roll tomou ares de tango: a estrela do vice começou a se apagar com as denúncias de suposto tráfico de influência na licitação da Casa da Moeda que favoreceu a empresa Companhia de Valores Sul-Americana, cujo dono, Alejandro Vanderbroele, é suspeito de ser testa de ferro de... Boudou. O vice diz que nunca viu Vanderbroele na vida. Enquanto o afiado humor portenho batizava o escândalo de "Boudougate", a imagem do amado Aimé despencava, levando consigo a aprovação popular de Cristina.

Vai ver por isso Boudou tenha se transformado no primeiro político argentino homenageado com um brinquedo. Em dezembro, chegou às lojas o boneco de pano Amado Vudu, que vem com pente, guitarra, motoca e uma improvável faixa vice-presidencial. Nem bem o boneco foi lançado, Agustina deu um de presente para o seu amado Boudou de carne e osso. Famoso pela vaidade, o vice adorou a ideia de ter um brinquedo inspirado nele. Ao Estado, os criadores negaram qualquer intenção política e afirmaram que não passa de um jogo. O kit é acompanhado de uma porção de alfinetes, para quem quiser espetar desejos em Boudou-Vudu. Por exemplo: você pode cravar no corpinho dele um pedido como "Boudou, quero o fim da corrupção", ou "Boudou, desejo o fim da inflação". O que a Argentina se pergunta agora é: o que Cristina andará pedindo?

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