Ela quebra tudo

Raimunda dos Cocos ganhou mundo defendendo as quebradeiras e cantarolando a vida na floresta

Flávia Tavares, O Estado de S.Paulo

07 de março de 2009 | 23h07

Raimunda Gomes da Silva tem 68 anos. Mora na comunidade Sete Barracas, em São Miguel do Tocantins, no Bico do Papagaio - divisa entre Pará, Tocantins e Maranhão. Mãe de sete filhos, um de criação, casada, descasada, casada novamente, aposentada, despachada. Filha de lavradores do sertão do Maranhão. Raimunda é síntese, espelho das caboclas descalças do interiorzão. É Gomes, é Silva, é qualquer sobrenome que caiba nos documentos de plástico frouxo do povo. Nas rugas que lhe acrescentam uns 20 anos ela carrega uma vida ordinária, à qual, à custa de muita batalha, acrescentou um "extra". Quebrando coco babaçu - e protocolos.   Dona Raimunda e o marido, seo Toim, em Sete Barras (TO)Além da militância, casal distribui conselhos amorosos e familiaresDona Raimunda dos Cocos, como ficou conhecida, faz tudo isso cantarolando. Sempre tem na ponta da língua uma cantiga das quebradeiras, do beira-rio das lavadeiras. E, se não tem, inventa. Em uma viagem à China, na IV Conferência Mundial da Mulher, organizada pela ONU em 1995, a líder das quebradeiras de babaçu da Amazônia foi se cansando daquela gente toda, da distância do mato. Descolou um chapeuzinho chinês e pôs-se a fazer repente nos corredores: "Vou-me embora dessa terra/ Que aqui não volto mais/ Que essa terra é longe demais". "Dona Raimunda é meio mística, faz poesias, músicas. Essa linguagem popular é que a leva a ser ouvida em tantos lugares", descreve Marcelo Silva, cineasta que produziu Raimunda, a Quebradeira, um premiado documentário de 2006 sobre a vida da personagem-título e das companheiras de babaçual. Sua voz começou a ecoar mais alto no início da década de 80, quando Raimunda chegou ao Tocantins (na época, ainda Goiás) com os rebentos ainda miúdos. Em depoimento no filme de Marcelo, ela conta que foi se encafifando com o porquê de Deus ter criado ricos e pobres. Levou a pergunta ao padre da região, que não quis saber desse tipo de dúvida. "As ovelha de Deus não são criada no ar, são na terra. Como é que eu vou falar de Deus sem falar da terra?", argumentou Raimunda. Venceu a peleja e se transformou em animadora e catequista da comunidade. Em 1983, um novo padre chegou a São Miguel para fermentar de vez a nascente militância de Raimunda. Era o padre Josimo Tavares, assassinado três anos depois por fazendeiros e autoridades do Bico do Papagaio.   Nessa altura, a quebradeira começou a ganhar mundo denunciando o crime contra o religioso e atuando na defesa das cerca de 400 mil mulheres que passou a representar. Ajudou a criar a Associação das Mulheres Trabalhadoras Rurais do Bico do Papagaio (Asmubip); a Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Tocantins (Fetaet) e a Secretaria da Mulher Extrativista do Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS), da qual foi titular por dez anos. Recebeu prêmios nacionais e internacionais, mas comentou com a amiga e jornalista Mara Régia di Perna dia desses: "Num guento mais tanto diproma. Se em vez de tudo isso, tivesse um dinheirinho, num precisava de mais nada". Os recursos que ganha em algumas dessas homenagens são todos doados à comunidade. Com isso e com a repercussão do filme sobre sua trajetória, Raimunda já conseguiu tirar muitas colegas da atividade de quebradeira. As mulheres montaram padarias comunitárias e minifábricas de sabão. Ajudada pelo cineasta Marcelo e pelo governador do Tocantins, Marcelo Miranda, Raimunda elaborou um projeto habitacional para as quebradeiras, que viviam em casas de palha, e levou ao presidente Lula, com uma cópia do documentário, em 2007. Os dois já se conheciam de longa data e o exemplo das quebradeiras foi recorrente nos discursos de Lula para falar de miséria. Essas casas seriam adaptadas às necessidades daquelas mulheres, com depósito para guardar os produtos do babaçu e ganchos de rede, por exemplo. Em julho daquele ano, o governo federal incluiu o projeto de dona Raimunda no Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), destinando R$ 19 milhões. As casinhas coloridas estão quase prontas e Lula prometeu ir à inauguração. "Ela tem uma relação de muito carinho com o presidente. Ele provoca, pergunta se estão fazendo tudo direitinho no Bico e ela já põe toda sua agenda de demandas na mesa. Responde ?lembra dos teu companheiro de luta? Tamo lá, esperando mais?", conta a senadora Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambiente. As duas se conheceram nos encontros do Conselho Nacional dos Seringueiros, criado por Chico Mendes. "Dona Raimunda é uma força da natureza. Aprendi muito nessa convivência. Ela é capaz de uma leveza, de diálogo humanitário até com o opositor", define.Outra conquista recente de dona Raimunda foi a aprovação, em 2008, de uma lei estadual, chamada de "Lei do Babaçu Livre", garantindo a não derrubada das palmeiras de babaçu - que os fazendeiros punham abaixo, queimavam ou envenenavam - e a permissão para as quebradeiras entrarem nas propriedades privadas para recolher os cocos babaçu que lhes rendem o sustento. O quilo do coco é vendido por aproximadamente R$ 0,70 e o litro do óleo do babaçu, por R$ 3,50. Cada quebradeira consegue quebrar, no máximo, 10 quilos por dia. Muitos proprietários correm as quebradeiras a tiros de suas terras. Há um projeto de lei federal como esse tramitando no Congresso desde 1995. Sem previsão de aprovação.   Início: nos anos 80, Raimunda (no centro) educava as colegas Mas teve um resultado que o barulho causado pelo filme biográfico não trouxe a dona Raimunda. Um de seus filhos, Antônio Gomes da Silva, está desaparecido há mais de 20 anos e ela tinha muita esperança de que ele aparecesse, ao vê-la nas telonas e na telinha - o documentário foi exibido diversas vezes na TV Cultura. "Esse filho sumido é a maior tristeza de sua vida", lamenta Cristina da Silva, assessora técnica do CNS e amiga da quebradeira. Enquanto isso, ela vai se ocupando de Moisés, o filho adotivo, hoje com 20 anos, que tem uma deficiência que o deixa com comportamento de 14. O garoto foi parar sob os cuidados de Raimunda quando o pai, o sindicalista Chicão, foi assassinado por fazendeiros, em 1990. Também cuida, junto do marido Antônio Cipriano, conhecido como seo Toim e presidente do diretório do PT na cidade, da plantação de arroz, feijão, mandioca e milho na terra de 5,5 hectares onde vivem, no assentamento do Incra. Seo Toim diz não se sentir intimidado por uma mulher tão conhecida e reconhecida. "Fico é muito emprazeirado." Sua casa, conta ele, virou referência não só na luta pelo babaçual livre, mas também na busca de conselhos amorosos e familiares. "Quem trabalha com o povo mostra prova de amor. Muitos vêm procurar orientação com a gente." Falar das ameaças que o casal já sofreu dos poderosos do pedaço não é fácil para ele. "Xii, minha filha, nisso a gente é melhor nem triscar. Por muito tempo, tivemos hora para sair e voltar pra casa. Agora melhorou."   Ecos: quebradeiras de coco durante as gravações do documentárioMesmo com tanto perrengue, o já folclórico bom humor de dona Raimunda não se abalou. Muitas amigas e conhecidas se divertem contando os causos da quebradeira nos sete países que ela já visitou. Mara Régia, que produz e apresenta o programa Natureza Viva, nos nove Estados da Amazônia Legal, e o Viva Maria, pioneiro na mobilização das mulheres, ambos na Rádio Nacional da Amazônia, esteve naquela conferência da ONU em que Raimunda se fez repentista. Ela lembra outra história que ficou marcada entre as brasileiras lá presentes. O meio de transporte na cidade de Huairou, onde foi realizado o fórum paralelo de ONGs, era a bicicleta. Militantes americanas e europeias compraram as suas por US$ 35 e, na hora de ir embora, iam deixando as magrelas para trás. Dona Raimunda não se conformava. Nunca tinha visto uma bicicleta tão forte. "Mararrégi, óiqui que que eu ganhei", contou para a amiga, toda sorridente, do presente das gringas, apontando para a bike seminova. "Ela fez que fez e deu um jeito de trazer a bicicleta da China para o Brasil, enfrentando fiscais de alfândega e tudo mais. Tempos depois, fiquei sabendo que a tal bicicleta ficou até exposta na rodoviária da cidade", esbalda-se Mara Régia. De uns tempos para cá, continua a jornalista, Raimunda deu para definir sua luta como "uma luta por genre e liderança". "Ela fala a palavra ?gênero? quase como no inglês, que é gender. Mas acho que é sem querer."Dona Raimunda vai ter que desacelerar agora. Esteve internada na UTI do Hospital Santa Mônica, em Imperatriz (MA), por dez dias, por complicações de uma pneumonia, da diabete e da pressão alta. Já está em casa, recuperando-se, mas ainda fraca. "Ela tem muito medo de hospital e só dizia que queria viver", conta Cristina da Silva. Largou o cigarro e ameaçou largar o marido se ele não deixar de fumar também. A conta do hospital foi paga, em parte, com doações recebidas de todo o Brasil. Mensagens de solidariedade vieram da França, Áustria, Finlândia, Alemanha e dos Estados Unidos. Mas ela não se dá por vencida. Hoje, Dia Internacional da Mulher, fez questão de participar das comemorações de São Miguel. O prefeito Jesus Benevides vai buscá-la em Sete Barracas, que fica a sete quilômetros da cidade, porque os moradores exigem sua presença. O assentamento só tem um orelhão, que mal funciona, e o celular que dona Raimunda ganhou na sexta-feira para se comunicar com o mundo só pega do alto da igreja. Mas ela dá um jeito de espalhar sua cantoria como pode. Até para um CD em homenagem a Chico Mendes já emprestou sua voz. A faixa? O Xote das Quebradeiras. Uma palinha: "Mulher parada deixa de ser tão medrosa/ Seja um pouco corajosa, segure na minha mão/ Lutemos juntos com coragem e com amor/ Pra governo dá valor a esta nossa profissão".

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