Informação para você ler, ouvir, assistir, dialogar e compartilhar!
Tenha acesso ilimitado
por R$0,30/dia!
(no plano anual de R$ 99,90)
R$ 0,30/DIA ASSINAR
No plano anual de R$ 99,90

Ele chora, pula e, no fim, dá certo

Lula: uma mistura de Carlitos e Sancho Pança que faz o que quer e finge fazer o que não quer

Raimundo Carrero*,

27 de dezembro de 2009 | 00h10

Ele não traiu o destino, não mesmo. Quem traiu o destino foi Severino Cavalcanti, que devia ser relojoeiro, montou praça em São Paulo, se arrependeu, destratou a sorte, terminou presidente do Congresso Nacional, debaixo de chuvas e trovoadas. Quem mandou? Luiz Inácio Lula da Silva, ao contrário, não só aceitou o chamado do destino como fez pacto com a sorte. Dois atributos que todo líder político deve ter, senão, de conforme com expressão usada por ele mesmo em relação à economia no Brasil, "sifu". Às vezes exagera. Mas tudo se explica, num passe de mágico, pelo que consideram espontaneidade. Essa espontaneidade que o leva a pronunciar palavrões em público, palavras chulas, vulgares, violentas. Ou que entra numa casa, no Piauí, para carregar nos braços uma criança que chora com a invasão das águas. É intensamente contraditório.

Mesmo assim, qual seria a melhor imagem para defini-lo? A de um presidente da República chorando e pulando, feito menino alegre, diante das câmeras de televisão de todo o mundo, só porque o Rio de Janeiro seria a sede dos Jogos Olímpicos de 2016? Ou aquela outra, a de um homem bravo, enfrentando políticos, e até mesmo colocando em risco os votos, para dizer que vai tirar o povo brasileiro da m...? Não importando sequer os partidos políticos, o PSDB, confundindo o PFL com o DEM, faz tempo mudou de nome, num conflito de causar espanto a fantasmas na meia-noite?

Essa figura inquietante às vezes me parece um Carlitos - não pelo físico, mas pela ilusão e pela esperança -, aquele do filme O Garoto, que procura enganar a fome salgando uma sola de sapato, cheio de compaixão e solidariedade, semelhante ao homem que distribui dinheiro de plástico para enganar a miséria do povo brasileiro. Porque ele próprio, o Lula, teve que arrastar a fome por muitos anos, fugindo da miséria no agreste pernambucano, quase que no colo da mãe, para se erguer como líder sindical, enfrentando cassetetes e prisões. A cena do filme é densamente emblemática e não se distancia muito daquele homem chorando em Copenhague, diante do mundo. Mas há ainda muitas imagens em que procuro encontrar esse líder às vezes confuso e às vezes carismático. Quase sempre impressionante.

No emaranhado de emblemas, surge-me ainda a figura de Sancho Pança. Não só nas ações, também no porte físico, talvez num certo tipo de ingenuidade misturada a uma malícia cabocla. E, no entanto, fica no ar a pergunta mais instigante: Pode Sancho Pança ser maior do que Dom Quixote? Um ser humilde, redondo, baixo e buliçoso, ou, no dizer de Cervantes, "a barriga bojuda, a estatura baixa, e as ancas largas", andando em companhia daquele que via moinhos de ventos e enfrentava exércitos imaginários. Que diferença faz um personagem de ficção e um homem que impressiona o mundo, conforme o líder do governo espanhol José Luis Zapatero, para quem se trata de um "homem honesto, íntegro, voluntarioso e admirável"?

Deus me perdoe, pois todas as vezes que vejo Lula, o respeitável senhor presidente Luiz Inácio Lula da Silva, penso, não sem um sorriso escapulindo nos lábios, nessa figura meio sassafrás e meio duende, que toma a lança do magro para combater injustiças. Não há como ser diferente: havia um Lula que gritava e berrava, o "sapo barbudo", no dizer dos opositores, ao som de Lula-lá, e de repente surge esse outro Lula bom de bola, bom de uísque, bom de política, Lulinha paz e amor. Um que chora e outro que ri - lá vem o homem com todos os seus encantos e loucuras, meio matuto e, no entanto, caboclo esperto. Faz o que quer e finge fazer o que não quer.

Cai, embola, levanta, dá a volta por cima e, no fim, tira coelhos da cartola. E ainda por cima é mágico. Ou não era também Sancho Pança uma espécie de mágico desajeitado, com aquele corpo e aquela cara de duende protetor e humilde, aceitando e temendo as bravatas de Dom Quixote? Como é possível um homem ter 83% de aprovação popular esganando os aposentados, vendo a violência correr frouxa e, ainda mais, sustentar na ponta dos dedos um sistema econômico inteiramente injusto, que espalha impostos - num tal plano esquisito que é preciso tirar empréstimo para pagá-los, uma distorção escandalosa - e suporta uma inflação extremamente alta, que os cálculos governamentais indicam como baixa, ou baixíssima, só para efeito de reajuste salarial? Mágico, sem dúvida, mágico, e ao mesmo tempo lembrando aquela figura inicial de Carlitos e a sola salgada do sapato transformada em ilusório filé suculento, ou de Sancho Pança, tão esquisito nos seus afazeres e costumes, ao tempo em que servia a Dom Quixote. Porque, aí está o segredo, Lula parece sonhar, atropelar, atrapalhar, numa corrida de erros sem fim, e, no entanto, aquilo que parecia desabar em trapalhadas, ressurge transformado em edificação e justiça social. Um homem que é o "cara" para o presidente do maior país do Ocidente, Barack Obama, dos Estados Unidos, que impressiona Zapatero, e que é a personalidade do ano para o jornal El País, da Espanha. Que tipo de Sancho Pança é este?

Num domingo em Olinda, num domingo belo e ensolarado, em que os trópicos queimam e ardem, com vontade de cerveja e agulhinha assada em fogão de pedras, estive bem próximo dele, numa reunião que convocara para setores da sociedade pernambucana - políticos e intelectuais. Inquieto, se mostrava inquieto e desconcentrado. Às vezes acenava para alguém na plateia ou ficava de cabeça baixa. Perguntei-me várias vezes: o que é que estou fazendo aqui, meu Deus? Vestia uma camisa branca meio que oficial, porque tinha a marca do governo no bolso direito, por fora da calça. Ora distraía-se brincando com os dedos, que tamborilavam na mesa, enquanto um líder empresarial falava; ora conversava com um assessor mais próximo. De repente, retirou-se. Disseram-me que fora repousar um pouco. Também fiquei preocupado, temendo que estivesse com problemas de saúde. Lá de fora, embora distante, vinham os sons de bandas de frevo e o inevitável cheiro de maresia, com a natural lembrança das mulheres bonitas. Um domingo para não esquecer. Nunca mais.

Impossível vê-lo e não questionar: nenhuma marca de líder, sem nada no físico que o engrandeça nem o desmereça, nenhum sinal de um vulto heroico e épico, para lembrar a expressão de Caetano Veloso, depois do preconceito de chamá-lo de analfabeto. Os analfabetos sabem de coisas, Caetano, que até a alma da gente duvida. Nada mais inquietante do que imaginar Caetano um preconceituoso, aquele senhor de cabelos brancos e óculos de grau, que na juventude nos ajudou a quebrar todos os preconceitos. Sem dúvida, dizer que um país africano é "pobre, mas limpinho", é de enternecer qualquer coração desprevenido. Palavras ingênuas e frases mal elaboradas para uma incrível capacidade de governante, que tem explicação para tudo e fala como quem carrega no bolso um carretel cheio de discursos. Mas não pensem em vão, não reflitam, não analisem, o homem da língua presa não sabe parar. Imagina se a língua fosse solta. Deus sabe o que faz, considere.

*Raimundo Carrero, Escritor, vencedor do Prêmio Machado de Assis 2009, da Biblioteca Nacional, com o romance A Minha Alma é Irmã de Deus (Record). Também conquistou, em 2000, o PrêmioJabuti, da Câmara Brasileira do Livro, com Somos Pedras que se Consomem (Iluminuras)

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.