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Elena Ferrante soa pedante em novo livro de ensaios

Escritora que se popularizou com a saga napolitana teve sua obra vertida em produção controversa na Netflix

Maureen Corrigan, Washington Post

01 de abril de 2022 | 10h00

Elena Ferrante é, como todo o mundo já sabe, o pseudônimo da fugidia autora de, entre outros livros, A Filha Perdida, recentemente transformado em filme por Maggie Gyllenhaal, e os quatro extraordinários “romances napolitanos”, o primeiro dos quais – A amiga genial – agora é uma série da HBO. Ferrante defende a visão de que, como ela disse numa entrevista à Paris Review em 2015, o “autor” é apenas a “imagem fabricada” de um “escritor-herói”:

“Não há obra de literatura que não seja fruto da tradição, de muitos talentos, de uma espécie de inteligência coletiva. Reduzimos injustamente essa inteligência coletiva quando insistimos que existe um único protagonista por trás de cada obra de arte”.

Seu novo livro, In the Margins, é uma pequena coleção de quatro palestras públicas sobre escrita e literatura que foram apresentadas na Itália no ano passado – três na Universidade de Bolonha e a quarta em uma conferência de pesquisadores de Dante. Observe meu uso da voz passiva: “foram apresentadas”.

Ferrante não proferiu as palestras pessoalmente – claro. Em vez disso, elas receberam a voz de uma atriz interpretando Ferrante e de um estudioso de Dante. Esse artifício certamente serviu apenas para destacar a ausência da própria Ferrante, mantendo assim a atenção do público fixa na figura do “escritor-herói” que ela tanto despreza. (Em In the Margins, em vez da foto da autora vemos uma imagem de cartão postal de Nápoles).

É difícil evitar que convicções estéticas tão extremas – por mais sinceras que sejam – se transformem em truques baratos. Na segunda palestra, chamada “Histories I”, Ferrante reflete sobre Gertrude Stein, escritora alma gêmea cuja resistência ao status quo literário também a sujeitou a acusações de artifício. Em seu astuto livro de memórias de 1934, A Autobiografia de Alice B. Toklas, Stein – A Grande Mãe do Modernismo – apropriou-se da voz e da história de vida de Toklas, sua companheira de vida, como forma de escrever sua própria autobiografia desde o lado de fora, por assim dizer. Seguindo o exemplo de Stein, Ferrante fala em derrubar não apenas a “imagem fabricada” do autor, mas também as construções pré-fabricadas de linguagem e gênero – o que ela chama de “os grandes recipientes da escrita literária, [que] são uma armadilha mortal para nossa intenção de escrever ‘verdadeiramente’”.

Está anotando? O livro vem com um cheirinho de seminários da pós-graduação, especialmente as três primeiras palestras. (A parte final é uma apreciação mais direta de Dante, ou melhor, de Beatriz, a personagem que Ferrante considera a “criação mais ousada” de Dante). É verdade que essas palestras foram escritas para acadêmicos e outros tipos de intelectuais, mas parecem datadas, como se tivessem sido escritas no final dos anos 1970 ou início dos anos 80, quando teóricos literários ainda analisavam as epifanias do famoso ensaio de Roland Barthes, A Morte do Autor, de 1967, expondo as contradições internas da forma literária. De fato, embora Ferrante apresente seus pontos de vista como coisas revolucionárias, esta passagem de “Histórias I” soa como um retrocesso às teorias críticas predominantes da época:

“Temos de abandonar a ideia de que a escrita libera milagrosamente uma voz própria, uma tonalidade própria: a meu ver, esta é uma maneira preguiçosa de falar da escrita. Escrever é, acima de tudo, entrar em um imenso cemitério onde cada túmulo está esperando para ser profanado (...). Assim, quando falo do meu ‘eu’ que escreve, devo acrescentar imediatamente que estou falando do meu ‘eu’ que lê (...). E preciso enfatizar que todo livro lido traz em si uma série de outros escritores dos quais me alimento, consciente ou inadvertidamente”.

Talvez fosse mais revelador ouvir as respostas de Ferrante às visões críticas contemporâneas que ressaltam a conexão entre arte e identidade pessoal. Gostaria de saber, por exemplo, o que ela pensa sobre o cancelamento de livros por causa dos delitos de seus autores. Estou curioso para saber como Ferrante concilia a ficção do “escritor-herói” com a política de identidade e as crescentes demandas por mais diversidade de representação na literatura.

Para aqueles que não se cansam de Ferrante, nem mesmo da Ferrante meio pedante que prevalece aqui, a primeira palestra, chamada “Pain and Pen” é a melhor de todas porque parece (por favor, não ria da minha ingenuidade) a mais pessoal. Aqui, Ferrante evoca a imagem daqueles cadernos que eram dados às crianças para praticar a escrita do alfabeto. Sempre escorregadia, Ferrante se concentra nos esforços de caligrafia de uma jovem de quem ela diz que “gosta” e a quem chama de “Cecilia”. Descrever as tentativas de Cecilia de manter as letras dentro das linhas faz com que Ferrante se lembre de seus próprios esforços iniciais. (Ou talvez Cecilia seja uma encarnação mais jovem de Ferrante – a identidade é maleável, certo?). No final dessa palestra, Ferrante faz uma confissão inesperada:

“Em meu anseio de escrever, desde o início da adolescência, provavelmente estão em jogo tanto a ameaça daquelas linhas vermelhas (...) quanto o desejo e o medo de violá-las. De modo mais geral, acredito que meu sentido de escrita (...) tem a ver com a satisfação de ficar lindamente dentro das margens e, ao mesmo tempo, com a impressão de perda, de desperdício, por causa desse sucesso”.

A ideia de que aderir à forma – tão belamente quanto Ferrante faz em seus célebres romances – sinaliza ao mesmo tempo o abandono de tudo o que fica de fora dessa forma é uma verdade conhecida por quem já teve o impulso de escrever. Mas é a singular elaboração de Ferrante sobre essa perda – a voz e o tom cuja singularidade ela mina nas outras palestras – que deixa a experiência mais melancólica. As outras três palestras In the Margins só devem prender a atenção daqueles fãs que vão ler toda e qualquer coisa por causa daquela construção fabricada conhecida como “Elena Ferrante, autora”. Mas “Pain and Pen” tem aquela pungência que o grande jornalista esportivo Red Smith lapidou numa observação imortal: “Escrever é fácil. Tudo o que você precisa fazer é se sentar à máquina de escrever, abrir uma veia e sangrar”.

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Maureen Corrigan, que é a crítica literária do programa “Fresh Air” da NPR, leciona literatura na Universidade de Georgetown.

/ TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

SERVIÇO

In the Margins: On the Pleasures of Reading and Writing

Elena Ferrante.

Traduzido do italiano por Ann Goldstein

Europa Editions - 112 páginas - US $21,95

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