Marcos de Paula/Estadão
Marcos de Paula/Estadão

Elif Batuman subverte referências literárias eruditas em 'A Idiota'

Autora abre mão da reverência ao usar obras de Dostoievski, Flaubert e Thomas Mann em seu novo romance

Irineu Franco Perpetuo*, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2021 | 15h00

O Wilhelm Meister de hoje é mulher, estuda russo em Harvard e não tem menor ideia do que fazer com a própria vida. Em A Idiota, Elif Batuman comete uma versão muito pessoal do romance de formação possível na pós-modernidade.

Nova-iorquina de ascendência turca, Batuman, 44, escreve para a New Yorker. Estreou com Os Possessos – Aventuras com os Livros Russos e seus Leitores (lançado no Brasil pela Leya), no qual aborda seus anos como estudante de literatura na Universidade de Stanford, na Califórnia. Com título igualmente inspirado em Dostoievski, A Idiota, de caráter semi-autobiográfico, está ambientado no mesmo universo acadêmico, e conta um ano da vida de Selin, estudante da Universidade de Harvard, na década de 1990.

E as marcas dessa época se fazem notar na narrativa. Se o discman em que Selin ouve rap húngaro nos parece tão anacrônico quanto o fonógrafo de Hans Castorp em seu sanatório suíço, os meios de comunicação influem decisivamente em todo o desenrolar de uma trama de latências e não-ditos. Em um romance que trata, sobretudo, da incapacidade de se comunicar, filas em cabines telefônicas e a estranheza ao se lidar com uma novidade tecnológica chamada e-mail pesam tanto quanto extravios de corresponência ou falta de cavalos em estações de posta em romances do século 19. Hoje em dia, talvez a dificuldade de se comunicar seja, existencialmente, a mesma, mas aplicativos como o Whatsapp incutiriam outra mecânica nas relações do livro.

Grudar no romance o rótulo de “Bildungsroman”, dizer que ele tem uma epígrafe de Proust e título de cartapácio de Dostoievski pode levar o leitor a uma desavisada impressão de pompa, quando a prosa de Batuman é exatamente o contrário disso tudo. Estamos bem longe da dogmática e sufocante filosofia dostoievskiana, a frase proustiana é desconstruída no final da obra, e as referências à alta cultura são despidas de solenidade.

Com uma prosa coloquial e laivos de humor, Batuman sabe que não está redigindo um doutorado acadêmico, e não faz aquele fastidioso tipo de encadeamento de citações que procuraria convencer o leitor de sua própria erudição. Descarta também o “name dropping” destinado a fazer o leitor se sentir culto, ou o estilo “verbete de Wikipedia” com que escritores por vezes procuram demonstrar que, como colegiais aplicados, realizaram zelosamente seus deveres de casa.

Pelo contrário: sua relação com a alta cultura é deliberadamente dessacralizada. Assim, ela afirma que encontrou “muita coisa com o que me identificar em A Montanha Mágica, particularmente o fato de que eles tinham dois cafés da manhã todos os dias”. Em Madame Bovary, destaca uma frase que pouco tem a ver com os dramas habitualmente discutidos da obra de Flaubert: “Com frequência, um animal noturno, doninha ou porco-espinho, se agitava na folhagem, e, esporadicamente, ouviam o som de um pêssego maduro tombando de uma das árvores ao longo do muro”. E a associação que faz não podia ser mais prosaica: “Lembrei do vídeo de Human Behavior em que a Björk era perseguida na floresta por uma doninha gigante”.

Violinista amadora, sua relação com a música de concerto é igualmente despida dos fetiches que costumam reger a aparição do gênero em obras literárias. Em uma récita da ópera O Elixir do Amor, de Donizetti, “os cantores olhavam para o público de um jeito suplicante, como se pudéssemos ajudá-los de alguma forma” – o que, de certa forma, remete ao estranhamento das descrições desse tipo de espetáculo em obras de Tolstoi, como Anna Karenina. E ela conclui: “Finalmente, as duas pessoas mais jovens presentes no palco se casaram, para que enfim pudéssemos ir pra casa”.

E, assim como suas descrições de Paris e Budapeste em nada se assemelham a cartões-postais literários ou páginas de guias de viagens, Batuman também se recusa a conferir caráter idílico ou wertheriano a suas paixões de primeira juventude. Nada há aqui do priapismo com que escritores de meia-idade do sexo masculino costumam idealizar sua iniciação sentimental. Muito pelo contrário: Batuman materializa todas as precariedades de uma alma em processo de formação e crescimento em lidar com os próprios sentimentos, decodificá-los, comunicá-los e agir de acordo com eles. E, ao fazê-lo sem indulgências sentimentalistas, torna seu relato ainda mais tocante.

Tudo o que sabemos sobre:
literaturaElif Batuman

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.