NINA SUBIN
NINA SUBIN

Eliot Weinberger descreve as estrelas em mescla de poema e ensaio

Obra utiliza referências da ciência, história, literatura e mitologia, dissipando fronteiras entre mundo físico e imaginado

Ronaldo Bressane*, Especial para o Estado

08 de junho de 2019 | 16h00

Ora direis, ouvir estrelas! Certo, perdeste o senso, amiga/o, em época de desastres ambientais, desemprego em massa, guerras culturais, ataque às universidades, louvação ao obscurantismo, à violência e à burrice em estado cru. Para que elevar os olhos ao céu e perceber nossa sombria e vasta mediocridade, caro Carl Sagan? “Somos feitos de poeira de estrelas. Somos um caminho para o cosmos conhecer-se.” Vários cientistas encontraram na pesquisa o deslumbre puro com a beleza. “Às vezes me pergunto se a gente estudaria as galáxias se elas fossem feias”, ecoou Vera Rubin, a física que confirmou a existência da matéria escura. Ao que a perfomer Marina Abramovic asseveraria: “Todo artista deve permanecer por longos períodos olhando as estrelas no céu noturno.”

Bem, parece que foi exatamente isso o que fez o poeta e ensaísta Eliot Weinberger em seu As Estrelas (Editora 34, trad. Samuel Titan). O poema de 13 páginas tenta responder ao mote: “The stars: what are they?” Digo tenta pois o poema se inscreve na linhagem do poema-enquanto-ensaio, ou seja, um contínuo tatear de possibilidades, investigações e manifestações de tais objetos concretos, que galvanizam nossa curiosidade desde que descemos das árvores. Um telescópio; um poema-devir. “Tudo o que escrevo é ensaio: nada é criado por mim, toda informação é verificável por via independente”, explica Weinberger na entrevista que posfacia o pequeno volume bilíngue. Weinberger imaginou um bloco massivo de texto, como no imenso poema experimental Galáxias, de Haroldo de Campos. Porém, à Jackson Pollock, pensou em dispersar pela página os versos, como constelações “parcialmente ocultadas por nuvens dispersas” (ou como o poema Um Lance de Dados, de Mallarmé, aliás traduzido por Haroldo de Campos). O poema originalmente foi contratado pelo MoMA de Nova York para uma edição em conjunto com a artista lituana Vija Celmins e a designer Leslie Miller.

Daí que o poema recita uma longa enumeração de descrições da ciência, história, literatura e mitologia – dissipando fronteiras entre mundo físico e imaginado, ciência e arte. A princípio, parece aqueles poemas enumerativos em que cabe tudo (como Águas de Março, de Tom Jobim, ou Isso é Aquilo, de Drummond). Entanto, são os embates entre designações apropriadas de universos simbólicos distantes que fazem desse poema tão singular:

“São lascas de gelo refletindo o Sol;/são luzes à deriva nas águas além do domo transparente;/são pregos cravados no céu;/são buracos na grande cortina entre nós e o mar de luz;/    são buracos na concha dura que nos protege do inferno mais além;/ são as filhas do Sol;/são as mensageiras dos deuses;/têm forma de roda e são condensações de ar com chamas que rugem no espaço entre os aros;/estão sentadas em cadeirinhas;/estão espalhadas pelo céu;/levam recados para os amantes;/são compostas de átomos em queda no vácuo e se entrelaçam/umas às outras;/são as almas dos bebês mortos transformadas em flores celestes”.

Apesar da aparente aleatoriedade, Weinberger propicia acordes clusters ao usar significações paradoxais. Supernovas cognitivas: “São fixas e nós nos movemos;/ somos fixos e elas se movem (...) São de tamanhos diferentes;/são todas do mesmo tamanho, mas algumas estão mais perto de nós (...) Elas não têm nenhum elemento casual ou aleatório, não fazem nenhum movimento errático ou acidental;/ o mal e o infortúnio nos vêm delas (...) Sua espantosa regularidade desafia a crença/ e é prova da divina inteligência que reside nelas.” A sensação é de ouvir uma composição modal. Como em uma raga de Ravi Shankar, dentro deste modo estelar toda melodia cabe, todo ritmo inumerável encontra seu corpo: pois, ao fim e ao cabo, a melodia retorna ao tema essencial: as estrelas – o que são? Trata-se de uma composição serial, como o que Miles Davis fez em Kind of Blue, ou composições minimalistas ao estilo de In C, de Terry Riley. 

Weinberger diz partir da tradição americana do “poema serial”, como The Cantos, de Ezra Pound. Ou como as89 Clouds de Mark Strand, poeta estranhamente nunca editado por aqui (“Uma nuvem nunca é um espelho/ Poemas sobre nuvens também são nuvens/ Se neva dentro de uma nuvem só a nuvem vai saber/ Nuvens são pensamentos sem palavras/ Se um papagaio se perder em uma nuvem ele se transforma em arco-íris”). “É uma forma que não parece existir em outras línguas; uma série aberta em que os temas mudam o tempo todo, ao mesmo tempo que certas imagens ou motivos ou frases se repetem”, ilumina o posfácio.

Por esse dom encantatório próprio à enumeração exaustiva, uma experiência interessante é ler o poema em voz alta, no escuro, dizendo lentamente cada palavra. Weinberger já sintetizou seu poema como “devaneios extensos, sustentados pela repetição”. Assim, o mantra “as estrelas são...” funciona como um indutor ao estado de transe. Enquanto você lê, as imagens vão aparecendo e desaparecendo no negror. Você nem precisa tomar nenhuma substância para ver este caleidoscópio se materializar... E para compreender que, ao ocultar o seu eu-poético numa (quase) infinita apropriação de definições alheias, Weinberger parece escrever com a própria luz. E para sentir que o mero levantar dos olhos ao céu – ou abaixá-los na direção do papel – é uma experiência tão prosaica quanto espiritual; uma mudança de perspectiva que impõe a nós, humanos, o sentido do que de fato importa.

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É JORNALISTA, FICCIONISTA E POETA, AUTOR DE 

‘METAFÍSICA PRÁTICA    (OITO E MEIO), ENTRE OUTROS

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