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Elsa Morante narra a conflituosa relação de pai e filho em livro

Grande dama da literatura italiana e influência de Elena Ferrante é redescoberta pelos leitores brasileiros com o romance 'A Ilha de Arturo'

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2019 | 16h00

Lançado há mais de 60 anos, o romance A Ilha de Arturo projetou o nome da escritora italiana Elsa Morante (1918-1985) como a primeira mulher a ganhar o prestigioso prêmio Strega (em 1957) por essa fábula existencial sobre o relacionamento entre um adolescente e seu misterioso pai, sempre ausente da ilha em que habitam, Prócida, comuna da região da Campania, província de Nápoles. Publicado em 2005 pela editora Berlendis e Vertecchia, a premiada obra ganha agora nova tradução por Roberta Barni (A Ilha de Arturo - Memórias de um Garoto) pela Editora Carambaia.

Leitores de Elena Ferrante certamente irão concluir, após a leitura de A Ilha de Arturo, que a afinidade da escritora com Elsa Morante não se limitou à escolha de um pseudônimo que ecoa a sonoridade do nome da autora romana, companheira de Alberto Moravia por duas décadas (de 1941 a 1961). Ferrante (ou a tradutora Anita Raja) tornou explícita sua admiração por Elsa Morante ao escolher fragmentos de seus textos como epígrafes dos best-sellers que escreveu ou explorar num registro similar a relação entre pais e filhos (como em A Filha Perdida).

A diferença entre as duas reside no fato de Elsa Morante acreditar que a literatura tem força suficiente para mudar a história – e seu polêmico A História (1974), motivo da briga que marcou o fim de sua amizade com Pasolini, foi a prova definitiva de que a literatura, ao menos, pode transformá-la. Nesse caso particular, Pasolini, do qual foi colaboradora, não gostou do romance, que aborda em A História o estupro de uma professora descendente de judeus por um soldado alemão durante a ocupação de Roma pelos nazistas.

A Ilha de Arturo é mais alegórico e menos político, digamos, embora seja ambientado às vésperas da 2ª. Guerra Mundial. A ilha como metáfora de um Éden arcaico não é exatamente um tema novo na literatura. Contudo, Prócida é efetivamente um paraíso em que um adolescente vive suas fantasias, abandonado num antigo casarão em ruínas, enquanto espera a volta do errático pai, Wilhelm Gerace, que idolatra. Formado pelos livros deixados pelo misógino Romeo, o Amalfitano, antigo proprietário do lugar, um velho convento que também foi quartel, Arturo se espelha nos romances de cavalaria, submetendo-se a um código de conduta moral em que honra e heroísmo são duas palavras que identificam o próprio pai.

Arturo é obcecado por ele, mas, a exemplo do pai, não tem maior apreço pelas mulheres, com a possível exceção da mãe, morta ao dar à luz o menino que, ainda criança, passa a seguir regras canônicas: a primeira delas diz respeito à autoridade suprema do pai. A segunda: não há afeto comparável ao da mãe. Quando a história real se distancia do modelo, ele a reinventa, imaginando seu pai como um herói. Certo dia, de regresso de uma viagem, o loiro Wilhelm, filho de uma alemã com um italiano, traz consigo uma garota napolitana apenas dois anos mais velha que Arturo.

Há um sentimento ambíguo que liga o protagonista à jovem Nunziata: embora seduzido por seu encanto, sente-se traído pelo pai e passa a ver a garota como rival. O pai, como de costume, logo se cansa da estável vida familiar. Figura que ignora a necessidade de afeto do filho, frequentemente recorre ao alemão para exprimir um ou outro pensamento, sabendo que Arturo desconhece o idioma. Além disso, sempre que surge a oportunidade, o teutônico Wilhelm não cansa de lembrar que o moreno Arturo se parece mais com a mãe, chamando-o constantemente de “Mouro”.

Elsa Morante, que sempre viveu rodeada de amigos gays (Pasolini, Visconti, Zeffirelli), adota os companheiros um pouco como modelos de construção do personagem, fazendo de Wilhelm um homem de vida dupla, que teria mantido mais que uma relação de amizade com o velho misógino Romeo, o Amalfitano, de quem herdou a Casa dos Guaglioni (garotos, em dialeto local). Mais tarde, a direção homossexual do pai de Arturo se torna explícita ao conhecer Tonino Stella, egresso da prisão no topo da ilha.

O crítico inglês Tim Parks observou que Elsa Morante produziu seus livros no crepúsculo do neorrealismo italiano, evocando nomes como Carlo Cassola (1917-1987) e Vasco Pratolini (1913-1991). Para Parks, persistia nela certo sentimento nostálgico da grandiloquência fin-de-siècle, citando particularmente D’Annunzio. A analogia da vida de Arturo na ilha de Prócida com o jardim do Éden justificaria essa desconfiança – e a expulsão desse paraíso é sugerida pela presença da prisão que domina a paisagem, um mundo de homens proscritos que escancara, segundo Parks, o status de paraíso e penitenciária fundidos num mesmo território.

Elsa Morante deixa claro que essa fronteira, de fato, inexiste. Se o regresso do pai significa a alegria paradisíaca, é também sinônimo de desprazer infernal, de profunda decepção – afinal, o pai não é o herói imaginado por Arturo. À medida que Arturo se aproxima da madrasta, que resiste a seus avanços, a erosão familiar começa. Quando a religiosa Nunziata tem um bebê – e este se parece mais com o loiro pai do que Arturo –, o adolescente sente que está na hora de se afastar.

Os únicos seres nos quais o garoto encontra resposta para sua carência emocional são Silvestro, o homem que o criou enquanto o pai estava fora, e sua cadela Immacolatella, que morre. A solidão cresce quando Arturo se decepciona com o pai e não encontra ressonância no mundo feminino. É interessante notar que Elsa Morante, ao dizer que Arturo era ela mesma, parafraseando Flaubert sobre sua madame Bovary, se identificava com o mundo masculino sem justificar, contudo, o chauvinismo tanto de Arturo como de seu pai. Antes, Morante condena a misoginia da cultura mediterrânea.

Ela faz isso de maneira discreta, não militante. A Ilha de Arturo não é um romance de tese, mas um Bildungsroman sobre a transformação de um adolescente em que o ritmo lento da ilha napolitana dita o da vida de seus habitantes, apontando o oceano como saída. O sentimento de perda é, portanto, o mais frequente – e ele é expresso de modo distinto quando o pai de Arturo se dá conta da falta de seu precioso relógio no mar, oportunidade que o garoto usa para resgatar a joia e conquistar a admiração de Wilhelm, que nem assim responde à altura do desejo de reconhecimento do filho.

Como outros escritores de sua geração – inclusive os citados Cassola e Pratolini –, Elsa Morante teve uma relação próxima com o cinema. Cassola teve seu A Garota de Bube filmado por Luigi Comencini em 1964. Pratolini foi filmado por Valerio Zurlini (Dois Destinos, 1962). Elsa trabalhou ao lado de diretores como Visconti, Lattuada, Pasolini e Zeffirelli (dela são os versos do tema principal de Romeu e Julieta, musicado por Nino Rota). Sua colaboração com Pasolini foi mais intensa (de Accattone, em 1961, a Medeia, em 1970), interpretando, inclusive, um papel (Alina, uma prostituta presa) em Accatone e servindo como assistente de direção em O Evangelho Segundo Mateus (1964).

Contudo, Elsa Morante não foi particularmente feliz com a adaptação de seus livros para o cinema, como observou o professor Marco Bardini, do Departamento de Filologia, Literatura e Linguística da Universidade de Pisa. Em sua tese sobre a relação da escritora com o cinema, Bardini não poupa nem mesmo a versão de A História (1986) por Comencini. Sobre A Ilha de Arturo, dirigido por Damiano Damiani em 1962, Morante definiu o filme como “belo, mas com personagens modificados”, citando como exemplo a figura do pai, visto como um “homem mau” pelo cineasta. “Eu, porém, não posso julgar meus personagens, preciso perdoá-los ao invés disso”, disse numa entrevista a Andrea Barbato.

A escritora não interferiu no roteiro (de Damiani, Ugo Liberatore, Enrico Ribulsi e Zavattini). Aprovou-o, mas sem entusiasmo. Não concordava com a escolha do elenco por Damiani, em especial a de uma atriz americana (Key Meersman) para interpretar a napolitana Nunziatta e do ator americano Reginald Kernan (1914-1983) para o papel do pai – na época quase um cinquentão, quando o personagem teria entre 30 e 35 anos. Damiani talvez não tivesse a intenção de ser infiel ao livro, observou Morante, “mas fatalmente o foi”. E concluiu: “Creio honestamente que entre eu e ele (Damiani) há uma enorme diferença no modo de ver o mundo e a vida”.

Ainda assim, a versão de Damiani para o cinema é delicada, trazendo a marca do ocaso do cinema neorrealista italiano. O lirismo do filme é acentuado pela trilha musical de Carlo Rustichelli, parceiro habitual de Pietro Germi (fizeram 18 filmes juntos). Lançada em edição limitada de 500 CDs pelo selo espanhol Quartet Records, a trilha utiliza basicamente variações de um mesmo tema composto para violão e trompete – os trechos sinfônicos são reservados para as cenas que envolvem Arturo e seu pai. A trilha é o mais próximo que Damiani chegou de Elsa Morante, que, aliás, serviu de conselheira musical de vários cineastas, principalmente de Pasolini. 

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