Editora Ubu
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Em 'A Trama da Vida', Merlin Sheldrake investiga mundo dos fungos

Botânico joga luz na vital importância dos cogumelos para a natureza e sociedade

Paulo Nogueira, Especial para o Estadão

19 de janeiro de 2022 | 22h16

Ao ouvir falar em “fungo”, o leitor pode supor que se trata de um daqueles políticos corruptos, dada a conotação repugnante e tóxica da palavra. Mas, como Merlin Sheldrake demonstra no apaixonante A Trama da Vida, seria uma baita ofensa aos fungos, que podem ser até inebriantes (como as trufas) ou terapêuticos (como os da penicilina). 

A politização da covid gerou dois lapsos nefastos: ou que os cientistas são súcubos que fazem gente boa virar jacaré, ou que são santos de auréola e tudo. Pinguemos os is: urdido por europeus entre 1550 e 1700, o “método científico” é um patrimônio da humanidade e um dos mais valiosos meios de aquisição de conhecimento (“scentia”, em latim medieval). Mas não o único: não abrange a sabedoria de um poeta, ou de um filósofo ou o de um teólogo (nem sequer de um matemático). Hoje em dia não vivemos sem ela, mas agora “ciência” é detida apenas por especialistas (pessoas que sabem cada vez mais sobre cada vez menos). Daí que os mortais comuns e literatos não entendem bulhufas da coisa, embora adorem fingir que sim (como atesta o livro Imposturas Intelectuais, de Sokal e Bricmont, que desmascara os trambiques “científicos” de Derrida, Deleuze e outros). 

Cientistas são indivíduos humanos, capazes do melhor e do pior, de Prometeus a Frankensteins. Cientistas trabalharam para nazistas e comunistas, trabalham para corporações que só visam o lucro e outro dia o jornal médico The Lancet chamou as mulheres de “pessoas com vagina”, renegando a biologia em favor de construtos ideológicos. Felizmente, a ciência tem a sua própria vacina: ela não é estática, mas hipotética, alicerçada em conjecturas, experiências, validações ou refutações. A ciência evolui, e se corrige: nenhuma picaretagem prevalece por muito tempo, pois as observações atualizadas derrubarão, em definitivo, as interpretações erradas. Daí que cada macaco no seu galho: Platão continua atualíssimo, mas nenhum cosmólogo contemporâneo partiria do heliocentrismo de Ptolomeu. E, claro, os imunizantes estão salvando milhões de vidas. 

Filho de peixe, peixinho é: Merlin é filho de Rupert Sheldrake, um proeminente bioquímico, autor de Ciência Sem Dogmas e criador de noções controversas como “morfogênese”. Em novembro passado, Rupert desafiou Steven Pinker, psicólogo e paladino do racionalismo, para um debate público sobre telepatia. Em A Trama da Vida, Merlin papeia com sumidades nobelizadas. O livro ganhou dois prêmios prestigiosos na área científica: o Wainwright e o da Royal Society. 

De certo modo, tudo é fungo. Os liquens estão incrustados em 10% da superfície do planeta, uma área maior do que a Amazônia. Em 1877, o botânico Albert Frank cunhou a palavra “simbiose” para descrever a vida conjunta de fungos e algas. Em 2019, os residentes da ilha de Páscoa lançaram uma campanha para remover liquens daquelas estátuas cabeçudas, descritos pelos habitantes locais como “lepra”. O maná — o alimento providencial que sustentou os judeus durante a fuga do Egito — era a trufa-do-deserto (fungo!).

Na França, berço do Iluminismo, os fungos mitam. Lá, santo Antônio é considerado o padroeiro das trufas, e celebram-se missas de trufas em homenagem a ele. As orações não impedem a trapaça: trufas baratas são tingidas. As premiadas florestas de trufas são alvo de caçadores ladrões. Cães treinados que valem milhares de euros são roubados. Espalha-se carne envenenada pela floresta para matar os cães de caçadores rivais. “As trufas revelam o lado sombrio das pessoas. É como dinheiro caído no chão, só que perecível e sazonal.” Merlin é audaz como o pai: “Gráficos de populações microbianas tem grandes seções com a indicação ‘desconhecido’. Ora, os físicos modernos retratam o universo e mais de 95% dele é descrito como “matéria escura” e “energia escura”. A matéria e a energia escuras têm esses nomes porque não sabemos nada sobre elas. O fungo é a matéria escura biológica, ou vida escura.” 

Paradoxo ou não, o mais eficaz nesta obra é o talento literário do autor: “Um amontoado de trufas brancas do Piemonte descansava na balança sobre um pano xadrez. Estavam encardidas, como pedras sujas; eram irregulares, como batatas; tinham cavidades redondas, como crânios. Dois quilos: 12 mil euros. Seu fedor adocicado encheu a sala, e nesse aroma estava seu valor. Eram sem vergonha e totalmente diferentes de qualquer outra coisa: sedutoras que enfeitiçavam”. E assim ele vai ensinando ao leigo tintim por tintim. Afinal, como disse o físico Ernest Rutherford, "uma teoria que não se pode explicar a um barman provavelmente não é nada boa".

Eis Merlin (o irmão dele chama-se Cosmo) dando um bico no balde: “Será que somos capazes de expandir alguns de nossos conceitos, como a ideia de que para falar nem sempre é necessária uma boca, para ouvir nem sempre são necessários ouvidos e para interpretar nem sempre é necessário um sistema nervoso?”

Muitos dos eventos mais mirabolantes da Terra são resultado da atividade dos fungos. As plantas saíram da água há 500 milhões de anos graças à colaboração com os fungos, que serviram como um sistema de absorção por dezenas de milhares de anos, até que elas desenvolvessem raízes. Hoje, mais de 90% dependem de fungos, que ligam árvores em redes compartilhadas, chamadas de “internet das árvores”. Fleming descobriu no bolor (fungo!) o primeiro antibiótico. O oudh, um fungo, é usado em perfumes e vale mais por grama do que ouro ou platina. Leitor, disfarce, mas “os fungos estão dentro de você. Respiramos fungos sem parar, graças à capacidade de seus esporomas de dispersarem esporos. Os fungos produzem cerca de 50 megatoneladas de esporos por ano — o peso de 500 mil baleias-azuis —, o que faz deles a maior fonte de partículas vivas no ar. Sustentam você e tudo de que você depende. Os fungos ralam como hoje há um bilhão de anos. Decompondo rocha, fazendo solo, minando poluentes, sobrevivendo no espaço, induzindo visões, produzindo alimentos, manipulando o comportamento animal e influenciando a composição da atmosfera. Em grande parte, vivem longe dos nossos olhos, e mais de 90% das espécies ainda não foram descritas. “Quanto mais aprendemos sobre os fungos, mais as coisas deixam de fazer sentido sem eles”. Sim, o fungo é o sentido da vida.

A teia da vida é a ideia de que todas as coisas estão interligadas (Haeckel cunhou em 1866 a palavra ecologia). E tome fungos nessa rede – seja em Brasília, seja em Sampa: “Em 1995, o artista plástico Francis Alÿs circulou por São Paulo com uma lata de tinta azul com um furo no fundo. Conforme se movia pela cidade, um fluxo de tinta pingava no chão, formando uma trilha atrás dele. A linha azul fez um mapa de sua trajetória, um retrato do tempo. A performance ilustra o crescimento fúngico. O próprio Alÿs é a ponta em crescimento. A trilha sinuosa que ele deixa para trás é o corpo da hifa. O crescimento acontece na ponta; se alguém detivesse Alÿs enquanto andava com a lata de tinta, a linha deixaria de crescer. Você pode pensar sobre sua vida assim. A ponta em crescimento é o presente — sua experiência do momento — que abocanha o futuro à medida que avança. A história de sua vida é o resto da hifa, as linhas azuis que você deixou em uma trilha emaranhada atrás de você. Um lembrete útil de que todas as formas de vida são processos, não coisas. O “você” de cinco anos atrás era feito de um material diferente do “você” de hoje. A natureza é um evento que nunca para. Como Bateson, que criou a palavra “genética”, observou: “Pensamos em animais e plantas como matéria, mas na verdade eles são sistemas pelos quais a matéria passa continuamente.

Serviço 

A Trama da Vida

Merlin Sheldrake 

Editora Fósforo e Ubu (coedição) 

368 páginas

R$ 89,90

 

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