PAULO LIEBERT | AE
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Em Abu Dhabi, a última volta: o adeus de Felipe Massa da F-1

Depois de 14 anos, 11 vitórias e 41 pódios, piloto brasileiro faz sua corrida 252 na Fórmula 1 e dá adeus à categoria que o motivou

Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

26 Novembro 2016 | 16h00

Esta manhã não é das mais felizes para a família Massa, acostumada há décadas a ter no domingo o principal dia de trabalho e diversão, muito antes até de Felipe arrumar um jeito de se aproximar dos pilotos e carros da Fórmula 1 nos GPs do Brasil, quando ainda era menino comum e entregador de marmitex para mecânicos e chefes da lendária Ferrari, escuderia que mais tarde o receberia, agora sustentado pelo sobrenome Massa, pela porta da frente de seu boxe, com lugar cobiçado no motor home da escuderia, aquele vermelhinho e com um cavalo arisco tatuado na lateral, agora não mais como carregador de ‘quentinhas’, mas como um de seus pilotos.

Neste 27 de novembro de 2016, Felipe Massa faz sua última prova na F-1, após 14 anos correndo ao lado dos pilotos mais rápidos e bem pagos do mundo – cumprindo o anunciado em Monza nesta mesma temporada, depois de amadurecer a ideia e ter, como sempre, o respaldo dos Massa. Era hora de parar. Felipe acelera pela última vez em Abu Dabi, na última prova do ano e da sua carreira, após ter largado em 252 GPs, com 41 pódios, mas sem chance de chegar entre os primeiros por causa do desempenho de sua Williams. A única chance de ele festejar com os vencedores é se for convidado pelos primeiros colocados como forma de homenagear e agradecer ao piloto mais boa praça da categoria. Felipe guardará para sempre as 11 vezes em que chegou em primeiro lugar e fez o mundo ouvir o hino nacional brasileiro.

O adeus de Massa, como todo adeus, nos remete ao começo. Felipe trilhou o caminho de todos os bons pilotos da história, começando no kart, categoria de boas manobras e de leitura importante da pista e da própria disputa, fundamental no que viria depois. Naquela época, antes da virada do século, até os 14 anos, acordava cedo aos domingos para ver outro brasileiro arrebentar na pista. Era Ayrton Senna, tricampeão de F-1 e uma das lendas do automobilismo mundial.

Os olhos de Massa brilhavam a cada vitória de Senna, como acontecia com os apaixonados pela categoria. Mas reza a história que Massinha perderia um pouco desse encanto após ter um pedido de autógrafo negado pelo piloto. A partir de então, Felipe começou a torcer mais por Piquet.

Quando Massa chegou à F-1, em 2002, na Sauber, Senna já havia morrido na maldita curva Tamburello, no GP de Ímola, de 1994. Ayrton corria pela Williams, na época a escuderia mais rica e dona dos carros mais velozes da categoria, como já foram as Ferrari e atualmente são as Mercedes dos concorrentes ao topo Nico Rosberg e Lewis Hamilton, os únicos que brigam pelo título em Abu Dabi. Coincidentemente, Felipe Massa chega ao fim de sua carreira na F-1 na mesma escuderia e a bordo da mesma Williams que desgraçou a vida de Ayrton. Aos mais próximos, Felipe Massa diz que a falta de competitividade da escuderia foi a grande motivadora da sua aposentadoria.

No discurso oficial, o bom moço só fez agradecer. “Estou orgulhoso de minha carreira, mesmo tendo perdido um campeonato (em 2008) por um ponto apenas”, disse, no dia em que anunciou sua decisão de parar. Comentou ainda que estava mais nervoso do que nunca diante daquela situação após 27 anos dos 35 de vida correndo e competindo, ganhando e perdendo, mas sem nunca ter deixado de fazer o que se propôs desde a primeira volta: a busca incessante pela vitória, pé no fundo e olho no próximo adversário a ser ultrapassado.

Na Sauber, Massa fez o suficiente para chamar a atenção dos gigantes da categoria. Veloz, foi anunciado pela Ferrari no lugar de outro compatriota, Rubens Barrichello, por quem sempre teve os mais fáceis e sinceros elogios. No time italiano, sonho de dez entre dez pilotos de F-1, o brasileiro guiou ao lado de ninguém menos do que Michael Schumacher. Era 2006. E naquela mesma temporada, chegou em primeiro na corrida do Brasil. Que alegria para os Massa! Felipe não se conteve ao cruzar a linha de chegada em Interlagos na frente de todo mundo. Sua casa, sua família, sua gente. Era a primeira vez que isso aconteceu desde Senna no distante GP de 1993. Era ainda a 90ª vitória da turma brasileira na categoria.

A carreira se desenhava bastante promissora, mais do que Rubinho conseguiu depois de os brasileiros ficarem sem Senna e com Piquet e Emerson Fittipaldi em outras batidas. Massa acelerava como Schumacher, e ninguém fazia frente ao alemão voador, prestes a também se aposentar.

Se 2006 foi importante para Felipe Massa, 2008 seria talvez seu ano na F-1. O piloto tinha reais condições de ser campeão. Após ganhar na França, assumia a liderança do Mundial de Pilotos. Massa era o corredor a ser superado, portanto, como foram um dia seus ídolos na F-1. Mas não era para ser campeão. Ele perdeu o campeonato dentro de casa por um mísero ponto para o inglês Lewis Hamilton, após vencer novamente o GP de Interlagos. Ganhou, mas não levou. O Brasil chorou por ele pela primeira vez. Não seria a única. Em 2009, na tomada de tempo para o GP da Hungria, Massa foi atingido nos treinos livres por uma mola desprendida do carro de Rubens Barrichello, seu amigo, compatriota e quase tutor na categoria. Ele andava à sua frente. A miniatura de aço chegou em sua testa como um míssil, rápido e potente, sem dar a Felipe qualquer chance de reação. Desmaiou. Bateu o carro. Nunca mais foi o mesmo. Sofreu fratura no crânio, com pequena lesão cerebral. Era impossível não lembrar de Ayrton Senna, apesar da distância entre os episódios e do cenário. O Brasil chorou pela segunda vez por Felipe Massa.

Felipe surpreendeu a todos ao anunciar que voltaria às pistas, como o fez em outubro de 2010, ainda pela Ferrari, primeiro em simuladores para depois ganhar o asfalto. Seu companheiro já era o espanhol Fernando Alonso, mais veloz do que ele e para quem teve de abrir caminho a pedido da escuderia. Massa não sofreria o que Rubinho sofreu nas mesmas condições ao lado de Schumacher. A decisão do time naquela corrida acelerou sua saída da Ferrari. Meses depois, em 2014, Massa vestia o macacão de sua última equipe na F-1, a Williams, para quem entrega o volante de seu carro nesta manhã após a prova de Abu Dabi, um dia diferente na história dos Massa.

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