Em busca do ego perdido

A face é a identificação do ser com o mundo. Através dela expressamos nossas emoções. Por outro lado, muitos interpretam as características estruturais da face como indício da personalidade ou do caráter, como fizeram Lombroso, Pende e outros, interpretando o comportamento do indivíduo através das expressões faciais, o que nem sempre condiz com a realidade.

IVO PITANGUY, O Estado de S.Paulo

09 de maio de 2010 | 02h18

Desde os tempos mais remotos o homem procurou a identidade com seu par, com sua tribo, com seu grupo social. Sua conceituação de beleza esteve mais ligada à semelhança com os pares; nas características pertinentes ao seu núcleo encontrou maior harmonia. Essa identificação define, de uma maneira importante, o padrão estético e o comportamento do ser humano.

O ser humano é essencialmente estético. A percepção do "belo" é mítica e milenar; o Homo sapiens ao conseguir a oposição do polegar, partiu da apreensão pura para a delicadeza do gesto, para a busca da beleza. Essa procura da beleza é tão antiga como o ser humano. As esculturas, as pinturas e toda forma de representação da perfeição e da forma nos recordam os módulos que em cada época participaram da criação do cânone dominante.

O que há de mais extraordinário e belo no ser humano é sua diversidade e pluralidade estética. Cada raça tem seu conceito de beleza. E dentro de uma mesma raça, cada ser humano tem uma forma particular de perceber, raciocinar e julgar sua imagem. Mas que sentido de imagem seria esse? Imagem por nós percebida ou a que nossa empatia percebeu como o outro nos vê?

Certamente a autopercepção do corpo é mais importante do que a percepção dos outros.

Hoje, com a difusão intensa da informação, a imagem corporal sofreu intervenções variadas, expondo grupos remotos ao sentido de belo mais ligado ao marketing do que à própria estrutura étnica de cada grupo. Independentemente da etnia ou do grupo social, a beleza se universaliza na procura do bem estar íntimo em harmonia com sua própria imagem.

Nós cirurgiões temos um grande interesse em compreender a beleza; entretanto, nos deparamos com limitações quando comparados com pintores, poetas e artistas que, com a tinta, a pedra e o vocábulo, não encontram limitações para suas mentes criativas.

O corpo lúcido é aquele que compreende nossas possibilidades e limitações, participando ativamente de nossas decisões.

A tentativa de recuperar o equilíbrio entre o ego e o mundo exterior é uma constante na vida do homem. Esse equilíbrio muitas vezes se torna difícil de ser alcançado, pois o acrescentar e o retirar estão mais sujeitos às leis do próprio corpo do que à criatividade do cirurgião. Nossa percepção não poderia jamais ser verdadeira se não procurássemos sentir o outro, compreendê-lo, pois sem essa interação o fenômeno criativo tornar-se-ia impossível.

Para o cirurgião, a beleza tem um sentido amplo, ligado ao bem-estar do indivíduo, objetivando tornar normal aquilo que não é. Normal é o que não se nota.

No caso de indivíduos que realizaram transplante de face, a maior barreira é a imunológica. O conhecimento total do código genético trará uma infinidade de novos benefícios à humanidade

A cirurgia plástica lida com os anseios mais íntimos do ser humano na incessante busca de harmonia, como forma de bem-estar e identificação com a própria imagem. Tem como fundamental objetivo restituir ao corpo em sofrimento sua função e dignidade.

IVO PITANGUY É CIRURGIÃO PLÁSTICO, MEMBRO TITULAR DA ACADEMIA NACIONAL DE MEDICINA, MEMBRO DA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS E PATRONO DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE CIRURGIA PLÁSTICA

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