Greg Miller/The New York Times
Greg Miller/The New York Times

Em casa sozinha com o fantasma de Emily Dickinson

Como o ambiente em que a poeta viveu moldou sua obra

Sarah Lyall, The New York Times

06 Maio 2017 | 16h00

Amherst, Massachusetts – Que importância tem o lugar onde um escritor viveu? Será que criatividade e inspiração se insinuam por um espaço físico tornando-se, de algum modo, parte da atmosfera? Você acredita em fantasmas?

É impossível não pensar nessas coisas quando se visita o Museu Emily Dickinson, que inclui a casa onde Dickinson passou a maior parte de sua vida aparentemente rotineira, sua mente intensa trabalhando a todo vapor, produzindo serenamente uma poesia profunda e enigmática. Mais que a maioria dos escritores, talvez, Dickinson está estreitamente associada a um local. Não se pode realmente separar a poeta da casa.

Numa tarde recente, eu me encontrei sozinha no quarto de dormir de Dickinson, tendo pago US$ 100 pela oportunidade de passar uma hora ali. (O preço agora aumentou; as pessoas também podem pagar por duas horas ou entrar com um amigo). Era um daqueles dias. Cheguei de trem e táxi de Nova York, com os nervos à flor da pele, a cabeça zunindo, chateada por estar atrasada, checando compulsivamente meu telefone. E agora aqui estava eu num lugar impregnado de um passado muito antigo tentando organizar meus pensamentos, o lápis pousado sobre a página em branco de um caderno.

Como Dickinson passou tanto tempo e foi tão produtiva neste ambiente, o quarto tem uma ressonância particular para estudiosos e amantes de sua poesia. Várias dezenas de pessoas trabalharam (ou talvez, apenas se sentaram) sozinhas nele por uma ou duas horas desde julho passado, quando o museu começou a oferecer as visitas privadas, disse Brooke Steinhauser, a diretora do programa. Elas tendem a chegar com uma grande paixão pela poeta, e partir com uma nova compreensão do lugar que ela ocupa em suas vidas. “Eu queria ver como seria passar algum tempo nesse quarto”, disse Lanette Ward, 70 anos, uma professora de inglês aposentada de Atlanta que admira tanto Dickinson que batizou sua filha de Emily. Ela escreveu ali por duas horas no fim de uma tarde, quando o dia anoitecia e uma réplica de um dos famosos vestidos brancos de Dickinson, expostos no quarto, começou a adquirir um significado especial.

“Sim, é claro, eu me senti mais próxima dela”, disse Ward por telefone mais tarde. “Me pareceu mágico, como estar num lugar sagrado de Emily Dickinson.” Ela não havia planejado escrever nada em particular, mas o que surgiu, disse, era o começo de “uma história do realismo mágico, muito gótico sulista, algo sobre o vestido ganhando vida e começando a se mexer.”

Maria Arenas, uma estudante de 20 anos da Universidade de Massachusetts, em Amherst, visitou o quarto em 2 de dezembro como um presente de aniversário surpresa de sua família. Seu pai foi buscá-la de carro. “Ele se mostrou muito misterioso”, disse Arenas. “Não disse para onde estava me levando e depois me entregou um pequeno saco quando chegamos ao centro de Amherst com este caderno e um pacote de lápis.” Instalada em seu lugar, ela deixou sua mente viajar e percebeu Dickinson invadindo seus pensamentos. “Comecei a escrever o que me vinha à cabeça”, disse. “Acabei escrevendo um conto sobre um peixe. Foi muito interessante.”

Para me preparar para a experiência, eu errei pela casa, que está sendo restaurada aproximadamente tal como ela era quando Dicknson viveu aqui até sua morte em 1886. O quarto voltou ao seu velho estado, embora várias peças de mobiliário, como a escrivaninha e a mesinha de escrever, que foi tão importante para a obra de Dickinson, sejam reproduções. (As originais pertencem a Harvard). Por alguma razão, a cama de solteira de Dickinson, feita de uma adorável madeira escura, pareceu particularmente pungente e evocativa.

Fragmentos de poemas de Dickinson estão espalhados por toda a casa e eu li alguns – “A chilly Peace infests the Grass” e “I dwell in Possibility” – para entrar no clima.

Quase todos os demais já tinham saído da casa, e eu estava sozinha no segundo andar. O fru-fru de pessoas descendo a escada começou a enfraquecer junto com os ruídos de fora, no que passa por hora do rush em Amherst. A luz estava mudando, e eu já estava me sentindo diferente.

Mesmo se você tiver a sorte de ter um quarto só para si, como Virginia Woolf colocou em seu manifesto elegante, e isto se aplica tanto para escritores masculinos como femininos, não há nenhuma garantia de que conseguirá suprimir a cacofonia em sua cabeça. É difícil encontrar um lugar calmo para um pensamento claro. Eu cheguei com a mente inquieta – havia um projeto espinhoso no trabalho, e uma situação pessoal ainda mais espinhosa. Tendo deixado minhas bolsas com seus confortadores dispositivos eletrônicos em outra sala, tudo que tinha a meu dispor eram alguns lápis que tomara emprestado do escritório do museu, um par de poemas de Dickinson, e meu caderno.

Barbara Dana, uma atriz e estudiosa de Emily Dickinson que excursionou pelo país durante quatro anos e meio com o monólogo feminino “The Belle of Amherst”, passou duas horas no quarto em setembro, trabalhando num texto de memórias sobre um período difícil de sua vida. Ela disse que isto a ajudou a consolidar a proximidade que ela sentia desde há muito com a poeta. Ela não estava preparada, contudo para a comoção que sentiu.

“Isto vai soar meio estranho”, disse Dana, que tem 76 anos. “Eu a senti com muita força ali. Comecei a trabalhar. Disse a ela, estou com muita dificuldade de escrever estas memórias. Eu o disse em voz alta, muito serenamente, 'Preciso de sua ajuda'. E quando estava escrevendo senti seu apoio, e pensei, somos ambas escritoras. Eu nunca me permitira pensar assim antes.”

Eu cheguei conhecendo muito menos sobre Dickinson do que Dana. Pretendia absorver a atmosfera e, quem sabe, meditar um pouco, tentar imaginar o quarto no século 19. Meu caderno serviria apenas para registrar minhas observações.

Li um poema de Dickinson em voz alta, num murmúrio, tentando entrar em suas cadências e absorver seu significado. Fechei os olhos. Estava tão cansada.

O que houve em seguida também vai soar estranho.

Uma calma desceu sobre mim, e eu fui tomada por um estado de concentração que se expressou, bizarramente, numa compulsão para escrever. E fiz algo que não fazia desde a escola elementar, e nunca por iniciativa própria: comecei a compor um poema. O que saiu não era muito bom, mas não era terrível, e esta não era absolutamente a questão. A questão era que ele simplesmente extravasou de mim, este jorro de emoção e linguagem. Eu estava me expressando de uma maneira inteiramente nova.

Os pensamentos saíram em ordem e não se atropelaram. Eu não parei para pensar. Não parei de escrever até a sra. Steinhauser entrar, uma hora depois, e me dizer que estava na hora de sair. Eu me sentia excitada. Sentia-me excepcional. Sentia como se o tempo não houvesse passado./Tradução de Celso Paciornik

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