Em caso de resistência, Asterix!

Livro-homenagem ao desenhista Albert Uderzo relembra o irredutível gaulês, símbolo do orgulho da velha França

Fred Melo Paiva, de O Estado de S.Paulo,

28 de abril de 2008 | 00h24

Leonardo da Vinci está diante de Asterix, seu modelo vivo, fazendo uma longa explanação sobre a sua constituição óssea. Enquanto fala, rabisca numa folha de papel os traços do irredutível gaulês: - Para começar, revelemos suas proporções: se tomarmos a cabeça como referência, a altura do nosso personagem equivale a duas cabeças e meia - o que, sem dúvida, lhe confere esse delicioso ar de duende brincalhão. Agora, o esqueleto: a caixa craniana tem as medidas de um frasco de astúcia, o queixo é prognata e voluntarioso, e as órbitas dos olhos são pequenas. É interessante comparar a estrutura esquelética de Asterix com a do seu amigo Obelix, para descobrir diferenças que beiram a aberração anatômica. Mas, como se vê, essas extravagâncias estão longe de prejudicar a convivência dos nossos heróis.Asterix se aproxima:- Oh, sou eu mesmo. Mestre Leonardo, você é um gênio!- Ora, ora, não exagere, eu apenas estudei o trabalho do senhor Albert Uderzo. Foi ele que definiu sua perfeição gráfica!Uderzo está em silêncio num canto da sala. Usa calça e gravata com estampas idênticas, em amarelo e preto. Está de camisa branca. É ligeiramente calvo na tampa da cabeça. Mas uns fios vindos das laterais auxiliam no reflorestamento de seu couro cabeludo. Uderzo é um senhor: tem 81 anos. Quando completou 80, sua filha Sylvie decidiu presenteá-lo com a organização de um livro-homenagem, Asterix e seus Amigos. Lançado agora no Brasil pela Editora Record, a obra reúne 34 importantes cartunistas, todos a serviço das aventuras do mais famoso bigodudo do Gália (só havia bigodudos na Gália) e do gordaço Obelix, não por acaso seu Sancho Pança. O resultado é tipo uma edição da Caras em que as pessoas de verdade (quer dizer, mais ou menos) fossem substituídas por personagens de histórias em quadrinhos. Assim, Asterix visita Patópolis e encanta-se com inventos do professor Pardal. Obelix de quatro: gostosona de Milo Manara fez barba, trança e bigode. Lucky Luke, a Rebeca Gusmão do Velho Oeste, abre o jogo e conta tudo: "Sou mais rápido que a própria sombra porque tomei a poção mágica". E como um Cid Moreira mergulhado na Jacuzzi, eis que emerge o improvável Leonardo da Vinci, sempre lembrado na Marcha da Maconha ("Se ele pode dar vinte, por que não posso dar um dois?"). Mas o papo é outro, bicho: o Leonardo está tentando convencer o Asterix da importância do Uderzo. Asterix reluta. Ele acha que o Leonardo é muito mais importante que o Uderzo. Uderzo está em silêncio, mas é o caso de se perguntar: quem esse Asterix pensa que é, por Tutatis? Asterix - Astérix no original - é filho de Astronomix e Pralina. Entre seu povo, os homens têm sempre um "ix" no final; e as mulheres terminam em "ina". A consorte de Abracurcix, o chefe da aldeia, chama-se Naftalina. A esposa de Ordenalfabetix, o peixeiro, Ielossubmarina. E desse jeito vai se dando nome para todo o mundo: Chatotorix, o bardo; Panoramix, o druida; Idéiafix, o cão; Veteranix, o velhinho casado com uma mulher muito mais jovem que ele, cujo nome não se sabe. Na verdade, a mulher de Veteranix é apenas uma bunda - bundolina."Estamos no ano 50 antes de Cristo", avisa o autor René Goscinny na legenda do grande mapa publicado na página de guarda dos 39 livros dedicados às aventuras de Asterix. "Toda a Gália foi ocupada pelos romanos... Toda? Não! Uma aldeia povoada por irredutíveis gauleses ainda resiste ao invasor. E a vida não é nada fácil para as guarnições de legionários romanos nos campos fortificados de Babaorum, Aquarium, Laudanum e Petibonum..." De fato, depois de um longo período de lutas, grandes chefes, como Vercingetorix (este um personagem histórico de verdade, chefe dos galos arvernos), tiveram de depor as armas aos pés de César.- Aai! - teria dito o líder romano, atingido no dedão por espadas, machadinhas, escudos e chapéus com chifre. De qualquer forma, a paz se reestabeleceu, sendo perturbada apenas por pequenas incursões dos germanos, prontamente repelidas.- Está bem, famos darr o forra! Mass feja pem: foltarremos!Vercingetorix morreu pouco tempo depois, em 46 a.C., estrangulado numa cadeia de Roma (um fato histórico sobre o qual paira alguma dúvida). Enquanto isso, na antiga Armórica, região que corresponde hoje à Bretanha, oeste da França, a aldeia chefiada por Abracurcix resistia na base do sopapo e do tapa na orelha - estes turbinados pela força sobre-humana que advinha da poção mágica preparada por Panoramix. - Qual a receita da poção, ó druida? - pergunta Asterix, o mais astuto dos gauleses.- A origem da receita se perde na noite dos tempos... E só é transmitida de druida para druida... A única coisa que posso revelar é que leva visgo e lagosta. A poção mágica podia ser feita em diversos sabores: sopa de peixe, omelete de queijo, pato com laranja e amêndoas. Descobrir sua receita era o obsessão de todos os centuriões que comandavam os acampamentos romanos na Floresta Armoricana - entre eles, Caius Metidus, Caius Bonus e Caius Aerobicus. (Romanos, claro, tinham os nomes terminados com o "us" do latim). Como os vários seqüestros de que Panoramix tinha sido vítima jamais lograram sucesso, César convoca uma reunião: - Preciso dar um fim naquela maldita aldeia. Espero sugestões e quero que todos falem. (Segue-se a frase para entrar na história:) Até tu, Brutus. Vem daí o aparecimento de Tulius Detritus, o maior criador de cizânia de todo o império, infiltrado certa vez entre os gauleses. Mais tarde, uma nova estratégia: convoca-se o arquiteto Compassus para projetar um enorme condomínio de apartamentos no entorno da aldeia, de forma a destruir a floresta e, por conseqüência, a própria aldeia. "Para você que quer vma vida savdável e feliz, venha para O Domínio dos Devses! Tvdo isso a menos de três semanas do centro de Roma!" A estratégia não funcionou (pelo menos não com a eficiência que se consegue nos dias atuais).As histórias de Asterix, esse De Gaulle dos tempos antigos, foram desenhadas por Uderzo e escritas por Goscinny. Goscinny morreu em 1977. Uderzo assumiu então a elaboração dos textos. Como autor, é um excelente desenhista. Isso, no entanto, não diminui a importância de seu personagem, criado em 1959 (e cuja idade jamais é revelada). Asterix já foi traduzido para mais de cem línguas e dialetos, incluindo o grego antigo, o latim e até o esperanto. Entre animações e filmes com atores reais, o herói cabeçudo (a cabeça esta sempre adornada por um capacete alado) já protagonizou 11 longas-metragens. Em todo o Ocidente, apenas os Estados Unidos ignoram Asterix. Esses americanos são uns neuróticos! Em compensação, ninguém representa melhor a França do que a grande figura diminuta de Asterix. O primeiro satélite francês, lançado em 1965, chama-se Asterix-1. A final da Copa do Mundo de 2006, disputada por França e Itália, foi retratada pelos jornais como uma batalha entre legionários romanos e gauleses irredutíveis. Desprovido da poção mágica, Zidane meteu a cabeça pelos pés e ao menos dessa vez os inimigos venceram. Não resta dúvida de que os originais de Asterix estarão um dia no Museu do Louvre - o mesmo panteão que abriga a Monalisa de Da Vinci.

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