Jason Lee/Reuters
Jason Lee/Reuters

Em centenário da morte de Rodin, galerias e museus expõem obras

Artista francês foi considerado o pai do modernismo na escultura

Roslyn Sulcas, The New York Times

24 Junho 2017 | 16h00

LONDRES – Milhões de dólares gastos em seguro, transporte, documentação, trabalho, sensores para detectar movimentos, tarifas de exportação, passaporte para as obras de arte.

Em algum momento neste verão europeu, Auguste Rodin deve chegar a uma cidade próxima de você, uma vez que instituições em todo o mundo estarão homenageando o centenário da morte do escultor francês. No geral as exposições serão realizadas por museus com muitos recursos, equipes administrativas e enormes áreas de estacionamento onde descarregar em segurança os enormes bronzes.

Mas na estreita Duke Street em Mayfair, Londres, a galeria Bowman Sculpture, que é modesta, abriu sua exposição Rodin – O Nascimento da Escultura Moderna (até 27 de julho) com 32 obras em bronze e terracota do artista, como também oito desenhos de Rodin raramente vistos.

“É um “tour de force”, disse Jérome Le Blay, que está preparando um catálogo online das esculturas de Rodin sob os auspícios do Comitê Auguste Rodin, em Paris. “Você não consegue reunir tudo em um ano. É preciso dez ou 15 anos de trabalho sobre Rodin para saber onde comprar, como conseguir as peças. Mesmo os maiores marchands de arte e muitos museus famosos não o conseguem”.

Robert Bowman, 59 anos, fundador da galeria Bowman Sculpture, despendeu esses dez ou 15 anos. Sua paixão por Rodin, disse ele, começou quando trabalhou como diretor da área de arte europeia na Sotheby’s, no final dos anos 80. “Tudo começou com uma peça intitulada A Velha Cortesã. E entendi como ele vê beleza na desarmonia, até no que é feio”.

Bowman começou a procurar e estudar obras de Rodin e passou um tempo no Museu Rodin em Paris estudando sua coleção e seu processo de fundição.

Quando abriu sua própria galeria em 1993, demorou algum tempo até Bowman ter fundos para sua primeira grande aquisição, “O Pensador”, em 1997. “Pagamos US$ 150 mil pela obra e tive de pedir empréstimo a um banco. Recentemente vendi uma peça similar por US$ 3,2 milhões”.

Desde então ele vem comprando obras de Rodin e se tornou um dos grandes marchands de esculturas do século 19. “Procuramos comprar qualquer coisa boa que chega ao mercado e a preço acessível”, disse ele.

O que é uma peça de Rodin considerada “boa”? Ele é um dos mais célebres artistas da França e um dos poucos cujas esculturas (como O Beijo e O Pensador) são instantaneamente reconhecidas, mesmo por leigos em belas-artes.

“São imagens inculcadas na consciência cultural”, disse August Uribe, ex-vice chairman da casa de leilões America at Philips. “Existe um número limitado dessas obras e o mundo está disposto a pagar qualquer preço por elas”.

Em termos relativos, contudo, a obra de Rodin é muito menos cara do que as de pintores contemporâneos seus, como Monet ou Gauguin, ou escultores como Giacometti ou Brancusi. Isto porque Rodin não só era prolífico, mas também astuto, e suas esculturas eram moldadas em diferentes tamanhos, e ele autorizava as casas de fundição a produzir várias edições. Identificar as peças autênticas e sua proveniência é “um grande quebra-cabeça”, disse Le Blay.

“Durante sua vida Rodin conseguiu produzir o máximo que conseguisse vender e até 1968 não havia lei na França limitando uma edição a 12 peças, como ocorre hoje”, disse ele.

Rodin também começou a trabalhar com um ajudante nos anos 1890 para criar suas obras em diferentes tamanhos, já que na maior parte eram monumentais e inacessíveis para colecionadores privados. “Ele adaptou sua obra ao mercado, mas não era comercial. O tamanho da escultura muda a maneira como você a vê e Rodin se interessava por esse aspecto”. O preço vai depender  da qualidade e da raridade da obra” e se foi fundida quando ele estava vivo ou postumamente”.

Bowman levou quatro anos para reunir as obras para esta exposição, que inclui diferentes tamanhos de peças famosas do escultor. “Quis expor os trabalhos iniciais de Rodin, antes de ele se tornar um sucesso comercial, e outras posteriores. As figuras de dança que estão expostas, trabalhos que realizou mais no fim da vida, você vê que vão na direção de Matisse e mesmo Giacometti (Não há esculturas monumentais na exposição, disse ele, porque quase todas estão em algum museu).

Entre os oito desenhos está um raro retrato de uma princesa cambojana e o de um casal numa posição explicitamente erótica, O Casal Sáfico. Rodin faz experimentos com linhas e formas que veremos mais tarde em sua escultura” disse Bowman.

O seguro dessas obras chega a milhões de dólares e envolve especificações sobre como os trabalhos são expostos. (Qualquer obra abaixo de determinado tamanho e peso tem de ficar exposta em uma caixa de acrílico, para evitar o risco de ser roubada). E qualquer peça com valor superior a US$ 50 mil tem de ter seu passaporte.

“Se a tarifa de importações passar a ser cobrada após o Brexit, veremos um êxodo em massa dos marchands de arte”, disse Bowman.

Mesmo sem ter de pagar impostos, existem outros obstáculos. Bowman disse que não conseguiu incluir três trabalhos de Rodin, em Paris, devido ao tempo que levaria para obter a licença de exportação, exigida pela França no caso de trabalhos considerados patrimônio cultural.

Tocando ternamente na escultura Amor Fugitivo, Bowman disse que vale a pena a dor de cabeça. “Olha esta peça, apontando para uma pequena cabeça em terracota, A Idade do Bronze. “Rodin criou seus próprios modelos em terracota, então sabemos que a peça foi moldada com suas próprias mãos. Há obras mais caras, mas o fato de expor esta peça é emocionante”

Comemorações do centenário de morte de Rodin no mundo:

RODIN: EXPOSIÇÃO DO CENTENÁRIO. Museu Rodin e Reunião dos Museus Nacionais, Grand Palais. Paris. Mais de 200 obras de Rodin e desenhos de Brancusi,Picasso, Matisse, Gormley e outros artistas. Até 31 de julho.

VERSUS RODIN: Corpos através do espaço e tempo – Galeria de Arte do Sul da Austrália, Adelaide. Peças importantes de Rodin como precursoras das obras de arte modernas e contemporâneas. Até sete de julho.

KIEFER-RODIN, uma colaboração entre o Museu Rodin, em Paris (até 22 de outubro) e a Barnes Foundation, Filadélfia (17 de novembro a 12 de fevereiro). Anselm Kiefer cria trabalhos em resposta a Rodin.

O BEIJO: DE RODIN ATÉ OS DIAS ATUAIS – Museu de Belas Artes de Calais, França. O Beijo como tema na arte, de Rodin em 1882 até os dias atuais. Até 17 de setembro.

O HOMEM E SEU GÊNIO. RODIN – RILKE – HOFMANNSTHAL – Alte Nationalgalerie, Berlim. Exposição focada na pouca conhecida obra de Rodin, O Herói (Homem e seu gênio). De 17 de novembro até dois de fevereiro.

RODIN NO MET -  Metropolitan Museum of Art, Nova York. Cerca de 50 peças de Rodin em mármore, bronze, gesso e terracota, representando mais de um século de aquisições e doações. De 16 de setembro a 15 de janeiro.

MATERIAL HISTÉRICO – Smart Museum of Art, Universidade de Chicago. O corpo como instrumento de emoção nas obras de Rodin e Bruce Nauman. De 14 de setembro até 17 de dezembro.

O BEIJO - Museu Rodin, Filadélfia. Uma instalação de mármores, bronzes, gessos e terracota criada em torno de O Beijo. Permanente.

RODIN: A EXPERIÊNCIA HUMANA -  Flint Institute of Arts, Flint, Michigan. Mais de 45 bronzes, pequenos e monumentais, da maior coleção particular de obras de Rodin. Até 30 de julho.

EVA ATRAVÉS DO OLHAR DA ARTE - Museu Soumaya, Cidade do México. A escultura em mármore, EVA, de Rodin, de 1882, é a peça central dessa exposição com mais de 150 trabalhos em bronze, mármore, gesso, porcelana e terracota, de artistas da Europa, México e América Latina

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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