Editora 34
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Em contos sobre medicina, Mikhail Bulgakov diagnostica invisibilidade social russa

Coletânea de primeiros contos trabalha com experiências do autor como médico durante a Revolução Russa e a Guerra Civil

Gutemberg Medeiros, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2020 | 16h00

Júlio Cortázar leu a primeira edição francesa de O Mestre e Margarida logo que foi lançada, em 1968. Não poucos localizam esta prosa como uma das mais importantes do século 20. O argentino não perdeu tempo em escrever a amigos recomendando vivamente esta leitura, afirmando que, se tivesse condições, pararia tudo na vida só para estudar a língua russa e imergir nesta e outras obras de Mikhail Afanásievtch Bulgákov (1891-1940) no original. Se assim fosse, logo chegaria à série de contos que agora a Editora 34 lança sob o título Anotações de um Jovem Médico e Outras Narrativas, traduzidos por Erika Batista. 

O volume traz três blocos de contos – Recordações de um Jovem Médico, Morfina e Eu Matei – criados na juventude, mas com a plena voz literária de Bulgákov constituída. Todos têm em comum um mesmo narrador principal, Doutor Bomgard. O leitor desatento poderia julgar que estas prosas beiram a autoficção. Apesar de muito baseadas nas vivências do autor, este denso manancial da memória é a matéria prima para densa e bem tecida elaboração estética. Onde uma das principais características é habitar o mundo do riso nos seus mais diversos matizes, da sutil ironia ao grotesco. A publicação é enfeixada pelo ensaio esclarecedor do ex-dissidente russo Efim Etkind, filólogo e teórico da tradução, com elementos biográficos e decodificando símbolos específicos da cultura russa para melhor compreensão do leitor brasileiro de hoje. 

Os três blocos trazem movimento pendular entre dois extremos, o singular e o plural. Entre médicos que trazem, cada um ao seu modo, determinados conflitos existenciais e os não menos importantes exemplos da massa de camponeses que vivem em outro tempo em muito anterior a 1917 e década seguinte, entregues à plena ignorância de si e do mundo. Bulgákov registra seu horror pelo atraso desta população que teve que tratou, como nas tentativas vãs de limitar a disseminação da sífilis devido à pura ignorância e preconceito, seu terror por ter de realizar operações que ele havia testemunhado apenas uma vez como estudante, e seu desejo de voltar para sua casa e para a civilização. 

Ou seja, a massa como materialização da invisibilidade social por séculos de abandono do Estado omisso em seu papel fundamental de olhar por todos em seus direitos básicos. Apesar de estes médicos passarem por clínicas minimamente bem montadas no “fim do mundo”, são recém-formados com pouca ou quase nada de consciência da vida e exercem seus papeis titubeantes, apenas sabedores de suas ignorâncias, clinicando por intuição ou ao apelar a manuais médicos alemães em leituras apressadas. Logo que adquirem efetiva experiência, são promovidos para cidades pequenas e outros iniciantes tomam seus lugares. 

Ao longo dos textos, emergem afinidades eletivas de Bulgákov através de devaneios dos personagens quando lembram momentos de Goethe, Tchékhov (igualmente médico) e Tólstoi. Recordações de um Jovem Médico é a narrativa na primeira pessoa do recém-formado Vladímir Mikháilovitch Bomgard, exilado dos adorados Teatro Bolshoi e as vitrines de Moscou para o isolamento rural. A agitação da capital é trocada pelo profundo e ensurdecedor silêncio, com cenário composto de um bosque mirrado, casas de madeira esfrangalhadas e a solidão. E isso em pleno inverno glacial sob nevasca. 

A derrelição, o abandono de si mesmo, é entremeada com a descrição de casos extremos como a amputação de ima perna, parto difícil com a criança mal posicionada provocando dores terríveis na mãe e a traqueotomia arriscada de uma criança até o tratamento de camponês acometido de sífilis. Casos narrados em seus mínimos detalhes clínicos com as incertezas e inseguranças do médico com apenas seis meses de formado. 

Morfina e Eu Matei assemelham-se à tradicional Matriosca, brinquedo russo feito de bonecas, geralmente de madeira, umas dentro das outras. Pois são narrativas dentro de outras narrativas. Na primeira, Bomgard é promovido para uma capital da província e descobre que colega de faculdade ocupou seu cargo anterior e matou com um revólver. 

Logo depois, é-lhe encaminhado um caderno com a primeira metade das páginas arrancadas e o restante com anotações curtas, “de início a lápis ou tinta, com uma caligrafia nítida e miúda, e no final do caderno, a lápis-tinta ou lápis grosso vermelho, uma caligrafia negligente, saltada e com muitas palavras abreviadas”. Ou seja, as memórias de um médico, dessa vez aos poucos se viciando em morfina. A descrição breve expressa o desiquilíbrio crescente e a decadência, a partir dos materiais usados e do corpo do texto. Este é um dos vários momentos aonde Bulgákov chega a imagens ou elaborações de refinada prosa poética, plenas de sentidos. 

A segunda Matriosca “Eu matei” é a narrativa oral de outro médico a Bomgard sobre momento limite vivido anos antes, quando matou de propósito paciente para se salvar de, no caso, um criminoso de guerra. Isso em Kiev (capital da Ucrânia), em 1919, quando estava no auge a Guerra Civil e viva-se pleno terror de tropas opositoras aos bolcheviques promovendo massacres cotidianos, especialmente de judeus. Aqui Bulgákov traça com talento o emaranhado narrativo entre as vozes de ambos os médicos, talento não poucas vezes exercido com igual excelência pelo antecessor Tchékhov. Cortázar, que tanto amava o autor de A Dama do Cachorrinho, deve ter percebido este diálogo intenso entre os médicos-escritores, assim como o seus leitores hoje. 

Reedição

Ride, Ridentes é o verso de Khliebnikov transcriado por Haroldo de Campos. Pode ser a bem ser a síntese da reedição de Antologia do Humor Russo (1832-2014) organizado por Arlete Cavalieri (Editora 34) onde se percebe a grande tradição do riso na qual Bulgákov está inserido e representado pela prosa O Lago de Samogon (1923), pela primeira vez impresso no Brasil. A reedição aconteceu apenas pouco mais de um ano depois da primeira fornada, em 2018. São 37 autores e 57 textos em 551 páginas, trazendo time de 23 tradutores experimentados em versões diretas do original. Surpresa são os autores mais recentes, entre 1955 a 2014. 

*GUTEMBERG MEDEIROS É JORNALISTA, PÓSDOUTORANDO NA ECA/USP E PROFESSOR NA UNIVERSIDADE ESTADUAL DE LONDRINA

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