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Em crônicas, Carlos Drummond de Andrade revela o absurdo do cotidiano

Compêndios de crônicas 'Moça Deitada na Grama' e 'Cadeira de Balanço', ambos lançados em 2020, mostram que o poeta mineiro se aventurou na prosa do sci-fi ao surrealismo

André Cáceres, O Estado de S.Paulo

26 de dezembro de 2020 | 16h00

Não é segredo que Carlos Drummond de Andrade é um dos maiores poetas que a língua portuguesa já pariu, mas suas crônicas — embora sejam, sim, bastante lidas — ainda não são tão reverenciadas quanto seus versos. Talvez isso mude com a publicação de Cadeira de Balanço e Moça Deitada na Grama, dois volumes de prosa publicados pela Companhia das Letras em celebração à 10ª edição do Dia D, data que comemora o aniversário de nascimento do poeta.

A crônica foi um gênero literário brasileiro por excelência durante décadas, no tempo em que a imprensa reservava espaços generosos para que escritores como Rubem Braga, Fernando Sabino, Clarice Lispector e Otto Lara Resende se debruçassem sobre os mais desimportantes temas para revelar o que de mais sublime há na vida em suas crônicas. Drummond foi um desses autores, conforme ele mesmo escreve em A Visita da Borboleta: “Discorram meus colegas sobre assuntos graúdos, nacionais e internacionais, que hoje eu fico com as borboletas.”

É claro que as crônicas de Drummond não são exatamente escapistas. O contexto brasileiro segue visível por trás de seus gracejos, com maior ou menor opacidade. Em Sim, Não, um repórter fustiga um cidadão comum tentando inquiri-lo a respeito do vindouro plebiscito sobre presidencialismo e parlamentarismo, enquanto o entrevistado se limita a responder “sim” e “não”, demonstrando pouco apreço pelas questões nacionais. Em Declara sua Renda, Drummond brinca com a burocracia da Receita Federal, recitando um trecho da lei que versa sobre a aplicabilidade do Imposto de Renda sobre “rendimentos de bens de que tenham a posse, como se lhes pertencessem”, ao que o cronista resolve declarar entre seus bens de maior rendimento o sol, as árvores, as paisagens, as crianças no playground e os versos de seus poetas prediletos.

Muitos de seus textos comentam acontecimentos que podem ter ocorrido, como Declaração de Amor em Outdoor, que parece ter se inspirado em um publicitário paulistano que teria comprado um espaço num outdoor para homenagear sua amada. “Prova de que o amor continua, em meio a toda sorte de absurdos, violências e marotices políticas e outras, que nenhum índice de inflação, nenhum terremoto, nenhuma sinistra maquinação é capaz de cassá-lo da face da Terra.” A ausência de datação nos textos, porém, retira do leitor a possibilidade de verificar a veracidade das crônicas, infelizmente.

As situações que Drummond aborda, no entanto, ainda que supostamente reais em muitos dos casos, soam pouco verossímeis, como na crônica em que ele é abordado ao telefone por uma jovem que quer saber se ele é imortal. Claro, ela quer saber se ele é da Academia Brasileira de Letras, mas o absurdo se segue: ela precisa de um imortal com seu fardão para uma… gincana. 

O absurdo da realidade vai se colidindo e quebrando a normalidade a cada linha na prosa límpida de Drummond, fazendo o leitor encarar sem espanto situações bizarras como a do sujeito que mantém em sua casa como relíquia o crânio de um poeta. O insólito vai se imiscuindo nas narrativas de Drummond, que por vezes estão mais para contos do que para crônicas. 

É o caso, por exemplo, de É Proibido Fumar, em que um fumante mal-educado é repreendido pelo passageiro de um ônibus e o diálogo dá voltas inimagináveis debatendo a razão da lei que os proíbe de fumar no transporte coletivo. Ou de Moça Deitada na Grama, que dá nome a um dos livros, em que a senhorita descrita pelo título do texto é convidada por um guarda a se levantar, mas o deixa sem argumentos ao questionar o porquê de os mendigos poderem ficar daquele jeito. As figuras de autoridade, aliás, são quase sempre ridicularizadas por sua sisudez e burocracia, alusão aos anos de chumbo nos quais Drummond escrevia.

O sistemático derretimento da tessitura do real faz com que Drummond, com a naturalidade de um cronista que relata, via de regra, o cotidiano, conduza o leitor embevecido pelo pouso de dois discos voadores no Leblon, onde um marciano e uma saturnina entram em contato com João Brandão, um singelo oficial administrativo carioca. “Embora não o confessassem, estavam certamente informados do caráter suspicaz de nossa espécie: sabiam que o terriano é bicho difícil, disposto a declarar guerra a outro terriano antes que este lha declare, quanto mais ao desconhecido desembarcado de outro planeta. A única proteção dos naturais de Marte, Saturno, Vênus, Júpiter, Netuno, Mercúrio e Plutão está no fato de não se protegerem absolutamente; não lutam entre si nem concebem ideia de luta. Por isso são invulneráveis.”

Elizabeth Ginway, pesquisadora americana da ficção científica brasileira, faz notar em seus estudos que, diferentemente do que ocorre na literatura anglófona, no Brasil as narrativas que tratam do contato com civilizações alienígenas não são mediadas pelo militarismo e pela hostilidade, mas sim permeadas do senso hospitaleiro de quem os recebe em seu planeta como quem recebe velhos conhecidos em sua sala de estar. É o caso, por exemplo, do conto Um Moço Muito Branco, incluído nas Primeiras Estórias de Guimarães Rosa, no qual um sujeito — que nunca se confirma exatamente como alienígena, embora a alusão à sua origem extraterrestre seja bem clara — é recebido com maior ou menor grau de hospitalidade pelos personagens, que ganham em troca felicidade e vitalidade a depender de como o trataram.

Outra pequena e inesperada pérola sci-fi é Pesadelo Eletrônico, um relato onírico que mescla cyberpunk e surrealismo, inspirado nos primeiros videogames surgidos nas décadas de 1970 e 1980. Em suas crônicas, Drummond utiliza sobremaneira o fantástico, o realismo mágico e o insólito, que se repete em narrativas das mais variadas. 

Em Os Bichos Chegaram, animais de toda sorte (de baleias e girafas até dinossauros) invadem a cidade, porém ninguém reclama, tampouco as autoridades tomam medidas — “e se tomassem, haveria protestos gerais contra elas”. Novo Poeta na Praça descreve um escritor que usa as substâncias químicas de nomes impronunciáveis nas bulas de remédios para fazer poesia. Em O Medo e o Relógio, talvez a mais interessante das narrativas insólitas de Drummond, uma dona de casa vai ao centro da cidade temerosa, é seguida e furtada por um ladrão, mas tem seu relógio restituído, apenas para descobrir, ao chegar em casa, que não havia saído com nada no pulso.

Por meio desse e de outros expedientes literários, Drummond, como outros autores — Murilo Rubião, Campos de Carvalho, José J. Veiga —, desconstrói o véu de naturalidade com que a ficção realista recobre a tal da realidade, desnudando o absurdo da vida. 

 

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