Joshua Trujillo/AP
Joshua Trujillo/AP

Em distopia de Octavia Butler, a sensibilidade é tratada como doença

Autora tem dois livros inéditos no Brasil lançados em 2018, 'A Parábola do Semeador' e 'Despertar'

Faustino da Rocha Rodrigues, O Estado de S.Paulo

08 Dezembro 2018 | 16h00

“Compartilhar é uma fraqueza, um segredo vergonhoso”. A frase desnuda A Parábola do Semeador, livro de Octavia Butler publicado pela primeira vez no Brasil, pela Morro Branco, com tradução de Carolina Coelho. A obra, de 1993, relata uma década de 2020 destruída por crises ambientais, econômicas, sociais e políticas. 

O resultado é uma distopia, evidente pela construção de espaços narrativos possíveis a revelarem a realidade social como um pesadelo futurista. É o oposto à utopia. O peso de um futuro distorcido e sua aproximação com a realidade se faz ainda maior pelo formato de diário em que a obra foi concebida. 

O distópico no universo de Butler é evidente na medida em que a autora manipula e desenvolve elementos bastante presentes no dia a dia de hoje, 2018. Ou seja, neste caso, a distopia é o desenvolvimento de coisas comuns da atualidade, levadas às últimas consequências por sua narrativa e capacidade de contar histórias. 

A frase que inicia essa resenha exemplifica isso. Butler manuseia a insensibilidade. Esboça o quão estranho, em 2027, é ser tocado pelo sofrimento alheio. O individualismo norte-americano, exacerbado pelo discurso neoliberal da década de 1980 e princípio da de 1990 – exatamente quando a A Parábola do Semeador é escrita – facilita o crescimento da apatia entre os indivíduos, rompendo, progressivamente, com noções morais básicas de convívio social – no neoliberalismo, a conciliação é supostamente feita pelo mercado. 

No decorrer da história, Butler apresenta o individualismo radical consolidado, evidenciando a sua perniciosa progressão à medida em que despreza pequenos valores comuns, fechando os seres humanos em si mesmos, tornando-os infensos a tudo que lhes é externo. A paisagem, descrita com minúcia, é uma Califórnia destruída, desértica, com criminalidade e mercado de armas incontrolável, em que a polícia – e a segurança pública como um todo – é uma simples prestadora de serviços: paga-se por ela ou faça você mesmo. A autora também relata a disseminação de uma nova droga, o piro, que faz com que os usuários tenham enorme prazer, quase sexual, em contemplar o fogo. Por conseguinte, os incêndios criminosos se espalham incontrolavelmente. 

Eis o mundo de Butler. Descrito sem esperanças, resta a cada um dos personagens-vítimas, que vão e vêm a todo instante, recolher-se em busca da sobrevivência. E, nesta paisagem desoladora, isso significa romper com a dignidade, tornar-se cada vez mais indiferente ao sofrimento alheio, fechar os olhos a tudo o que é cruel e naturalizar a barbárie, aproximando-se do subumano. Está-se perto das raias da loucura. Uma única frase resume tudo isso: “Precisamos de nossa paranoia para continuarmos vivos”. Aqui, paranoico e sobrevivência coincidem. 

Sem ares de heroísmo fácil, Lauren Oya Olamina se afirma como a personagem principal da trama. É igualmente paranoica ao ver o perigo por todos os lados a ponto de achar “loucura viver sem um muro como proteção”. O mundo hostil não bate aos portões de seu bairro, devidamente enclausurado, como os gigantescos muros da nem tão longínqua Idade Média. Ele arromba, alimentando a paranoia e se alimentando da paranoia cultivada coletivamente, mas vivida individualmente. 

A protagonista não se apresenta como uma consciência acima dos demais personagens, capaz de superar toda e qualquer dificuldade por pura volição. Ela não deseja resgatar nada do passado, transformado apenas em relato. Seu olhar está adiante, com todas as confusões a moldarem sua personalidade adolescente. Ela é comum. 

Mas, mesmo carregando muitas das características das demais personagens, Olamina é diferente. Ela sofre de uma síndrome orgânica ilusória chamada de hiperempatia. As pessoas a padecerem deste mal são conhecidas como compartilhadoras e costumam sofrer mental e fisicamente com a dor do outro. Na distopia de Butler, a sensibilidade é uma doença, algo que ninguém deseja ter. 

Tanto a compaixão é sinônimo de fraqueza que a nova religião anunciada por Lauren Olamina distancia-se completamente deste propósito do amor universal, pregado desde sempre pelo cristianismo. É o desespero, temperado com paranoia, a desejar, antes de qualquer coisa, a transformação. Olamina, portanto, com sua seita, só consegue identificar Deus com o intangível, com a incerteza. Ao “amai-vos uns aos outros” tem-se como máxima da Semente da Terra, “Deus é mudança”. 

Para Olamina, na religião que começa a semear em sua fuga pela Califórnia em busca de um lugar seguro, não é possível iniciar uma nova vida pelo amor. Talvez porque este amor cristão já é algo estranho aos seres humanos, vítimas de si mesmo, pois criadores de uma sociedade cuja exploração exortada ao longo dos séculos levou-lhes à completa destruição. Em 2027 a mudança urge: “Tudo o que você toca, você muda; tudo o que você muda, muda você”. É a sugestão de Butler para a necessidade de reconstrução. Uma necessidade que, sem sombra de dúvida, é consequência dos fatos. 

Tal como nos demais livros da autora - como no recém-lançado Despertar, sobre o retorno da humanidade a um planeta Terra novamente tornado habitável sob a custódia de uma raça alienígena evoluída -, a temática de gênero e raça não poderia estar ausente. Com violência fora de controle, Olamina convive inevitavelmente com vítimas de estupro. Mulheres nunca devem andar sozinhas. Simultaneamente, tem consciência de um insistente racismo a viver em uma sociedade cada vez mais miscigenada. Desse modo, anuncia a incapacidade social de superação do preconceito racial, a ponto de o leitor não conseguir dissocia-lo da degenerescência da sociedade. 

Em Kindred, romance recentemente publicado no Brasil, também pela Morro Branco, o racismo se faz evidente quando a autora nos proporciona a experiência de uma jovem que volta constantemente no tempo, tendo de viver como escrava no princípio do século XIX. E, incrivelmente, muito do que vive ali se assemelha aos seus dias, na Califórnia dos anos de 1970.

A Editora Morro Branco continuará publicando as obras de Octavia Butler. O próximo volume será a segunda parte da dualogia das parábolas, “A parábola dos talentos”. Publicado originalmente em 1998, a distopia narra os EUA como um país destroçado, centrando-se na história de um candidato à Presidência da República e seus seguidores, cujo passatempo maior é o de perseguir e queimar quem julgam ser bruxos e ocultistas. O lema da campanha presidencial em questão é “Make America Great Again”, o mesmo utilizado por Donald Trump, em 2016. A distopia é hoje.

Ítalo Calvino diria que “inventar em literatura é redescobrir palavras e histórias deixadas de lado pela memória coletiva e individual”. Octavia Butler, ao definir a compaixão como algo anormal, a necessidade de sobrevivência, em sua forma brutal de competitividade, exacerbando ainda mais o individualismo, definitivamente, redescobre palavras e histórias que se encontram presentes entre nós. Assim é que ela reaviva a memória chamando a atenção para o futuro. Assim é que alerta para o presente.

Mais conteúdo sobre:
literaturaOctavia Butler

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.