Benoît Tessier/Reuters
Benoît Tessier/Reuters

Em dois livros, Bruno Latour investiga os efeitos das mudanças climáticas

Filósofo e antropólogo francês é um dos principais pensadores do Antropoceno

Rodrigo Petronio*, Especial para o Estado

31 de outubro de 2020 | 16h00

Bruno Latour é um dos expoentes da antropologia e da filosofia das ciências em atividade no mundo. Essa frase deixa de ser um lugar-comum quando se navega pelo site do autor, em específico pelo seu memorial, que reúne as suas dezenas de livros e as suas centenas de trabalhos, conferências e artigos. 

E também quando se investiga a influência do criador da Teoria do Ator-Rede (TAR) na área dos Science Studies, conforme aponta a tese de Daniel Laskowski Tozzini defendida na Universidade Federal do Paraná (2019). Para o leitor dimensionar esse pensamento e compreender esse vasto campo de estudos transdisciplinares conhecido como “novas ontologias”, acabam de sair do prelo duas obras de Latour bastante complementares, em uma curiosa sincronia. 

A primeira é Diante de Gaia: Oito Conferências sobre a Natureza no Antropoceno. Trata-se das Gifford Lectures de Edimburgo. Proferidas em 2013, saem agora pela primeira vez reunidas em português, em uma coedição entre a Ubu e o Ateliê de Humanidades. A excelente tradução de Maryalua Meyer foi ainda aperfeiçoada com a revisão técnica do sociólogo André Magnelli, diretor do Ateliê de Humanidades, centro de formação e de livre-pesquisa. 

Sem fins lucrativos, o Ateliê se concentra em Humanidades e, em especial, na sociologia e na antropologia das tecnociências e dos saberes tradicionais. E vem se dedicando a promover autores e temas contemporâneas de envergadura. Dentro desse catálogo ainda pequeno mas consistente, o Ateliê publicou também há pouco A sociedade das tecnociências de mercadorias, livro minucioso de Marcos Lacerda sobre a obra do sociólogo português Hermínio Martins, referência mundial no estudo das tecnociências. 

A segunda obra é Onde Aterrar? Como se Orientar Politicamente no Antropoceno, publicada pela Bazar do Tempo em tradução de Marcela Vieira. A revisão técnica e o posfácio são assinados por Alyne Costa, professora de Filosofia da Ciência na PUC-RJ e especialista nos estudos de impactos ambientais produzidos pelas tecnologias. O livro vem enriquecido por um anexo intitulado “Imaginar gestos que barrem o retorno da produção pré-crise”, ensaio de Latour publicado originalmente em 29 de março de 2020 no site Analyse Opinion Critique (AOC) e traduzido pela filósofa Déborah Danowski e o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro. 

As duas obras de Latour abordam um mesmo conceito matricial: o Antropoceno. Este seria a nova (ceno) época da Terra sob a dominação do humano (anthropos). Há grandes reivindicações da comunidade científica internacional para essa redefinição do momento em que vivemos. Estaríamos saindo do Holoceno, época baseada na integração (holos) de todas as formas de vida e no equilíbrio climático, e cuja origem remonta há cerca de 12 mil anos. Esta nova época começaria agora por um motivo simples. Ainda que o sapiens se extinguisse hoje, a intervenção dos humanos deixou resíduos na Terra que devem perdurar pelos próximos milhares ou mesmo milhões de anos. As evidências acerca das marcas humanas na Terra são incontestáveis. As controvérsias se dão apenas em relação a como e a quando oficializar o Antropoceno. 

O leitor deve imaginar os infinitos fatores implicados nesse macrofenômeno. Para compreendê-lo, há duas grandes linhas de vigentes: a Teoria Gaia, concebida pelo cientista, livre-pensador e inventor James Lovelock, e a Ciência do Sistema-Terra. Latour define esta grande mudança que estamos vivendo como Novo Regime Climático (NRC). Mais importante do que a passagem do Antigo Regime das monarquias para os Novos Regimes da modernidade, ocorrida no século 18, esse NRC descreve uma alteração de todo planeta em um corte de mais de 10 mil anos. 

Para Latour, a humanidade está perplexa porque os discursos que nos orientaram até agora não funcionam mais. Essa alteração atual é fruto de três fatores que começaram nos anos 1990: 1. A globalização. 2. O aumento das desigualdades sociais. 3. As mutações climáticas. E o pensador é categórico: nada no mundo vai mudar se não tivermos uma visão unificada destes três fenômenos ou se continuarmos a isolá-los, como se estivessem desconectados. 

Uma tônica em ambos os livros é a crítica à chamada “crise ecológica” e ao “meio ambiente”. Imaginar que vivemos uma crise é pensar que ela é passageira. Pensar os impasses globais a partir da ecologia e do meio ambiente, é pensar os problemas como se dissessem respeito à natureza. Assim, ignoramos as conexões entre uma miríade de processos complexos, tecnológicos, sociais, culturais, econômicos, entre outros. Por isso, Latour se vale do termo mutação, não crise ou mudança. E usa o conceito de clima, que envolve todos os processos, e não meio ambiente ou ecologia, que diz respeito à natureza. 

Essa escolha decorre de outra crítica contundente, familiar aos leitores de Latour, ao conceito de natureza. A naturalização dos processos complexos, híbridos de artificiais-naturais, é uma falsa solução criada pela modernidade. Uma maneira moderna de purificar atores-actantes impassíveis de serem separados. A solução seria mobilizar uma nova categoria política: o Terrestre. E criar meios-lugares de aterrar, tanto no sentido de criar raízes (na terra) quanto de aterrissar (pousar em um solo acolhedor). 

O livro empreende uma crítica da globalização. Propõe que o conceito de globo não faz sentido no Antropoceno. E demonstra que os eixos tradicionais direita/esquerda, global/local e progressista/conservador são resíduos da modernidade. Entraram em colapso e não funcionam mais. Por isso, a humanidade está sem saber como se orientar. Sugere então um novo vetor de orientação: Terrestre/Moderno. O livro inclui alguns esquemas visuais para didatizar essas alterações dos vetores. 

Já Diante de Gaia é um livro mais extenso e complexo. Latour se dedica a analisar o cosmocolosso, misto de ciclone e de Leviatã, neologismo criado pelo autor para descrever os efeitos titânicos e devastadores com que o cosmos-Terra começa a presentear os humanos. Por isso, a antiga deusa grega Gaia, grande-mãe da natureza criativa e também rainha da destruição e dos caprichos. 

Esta imagem-conceito criada por Lovelock sob influência do romancista William Golding é uma tentativa de descrever a Terra a partir dos chamados sistemas não-lineares fora do equilíbrio. Em resumo: a natureza não é harmoniosa. As leis estáveis e eternas são abstrações. Causas negativas podem gerar efeitos positivos e vice-versa. 

É preciso descrever os cosmogramas (John Tresch), os indicadores de mutações, sempre por meio de regimes complexos e ambivalentes positivos-negativos dessas “zonas metamórficas” de transição. A “revolução galileana” estaria sendo substituída pela “revolução lovelockeana”. Galileu olhou da Terra para céu e descreveu os corpos em queda livre. Lovelock olhou através dos olhos-sondas não-humanos pousados em Marte. E viu nosso planeta-casa como um sistema vivo. 

A revolução de Galileu no século 16 tirou a Terra do centro do Sistema Solar. Para tanto, produziu um “ponto de vista de Sirius”, ou seja, da Terra vista do espaço abstrato. Precisamos criar uma contrarrevolução terrestre: voltar a ver o espaço e a Terra do ponto de vista da Terra. Apenas assim podemos dimensionar a singularidade da vida neste planeta perdido no infinito. 

Essa concepção entretanto não é vitalista nem animista. Isso seria mais uma vez separar natureza e cultura, orgânico e inorgânico, vivo e não-vivo, humano e não-humano. E Latour recorre diversas vezes ao filósofo e matemático britânico Alfred North Whitehead (1861-1947), criador da maior arquitetura metafísica e cosmológica do século 20 e crítico contumaz dessas “bifurcações da natureza”. 

Outro aspecto central do livro é a desconstrução do conceito de globalização. Latour recorre ao filósofo alemão Peter Sloterdijk, seu amigo e confessadamente uma de suas fontes de inspiração. Especialmente à sua esferologia, teoria desenvolvida na trilogia Esferas (Bolhas, Globos e Espumas). 

Em resumo, segundo Sloterdijk, a “globalização terrestre” começou no século 16. A globalização estaria no fim, não no começo. Os séculos 20 e 21 vivem os estertores finais do Globo. Estaríamos agora adentrando as Espumas, o sistema de “paredes finas” e o “colapso dos sistemas de imunização”. Por isso, na tela do pintor romântico alemão Caspar David Friedrich (1774-1840), a Terra está afundada na quase invisibilidade do rio Elba. A Terra-Globo se liquefez. Em outras palavras: adentramos o Antropoceno. 

Devido ao fato de serem conferências, o tom digressivo e dispersivo da oralidade pode incomodar um pouco a leitura. Porém, como toda obra de Latour, estes dois livros são indispensáveis para pesquisadores de todas as áreas de conhecimento, das ciências humanas às ciências naturais. E para todos que queiram se imunizar das Sereias do reducionismo, que matam o pensamento e aprisionam a vida. 

*Rodrigo Petronio é escritor e filósofo. Professor titular da Faap e pesquisador associado no Programa de Pós-Graduação em Tecnologias da Inteligência e Design Digital (TIDD/PUC-SP), onde desenvolveu Pós-Doutorado. 

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