Editora Relicário
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Em 'Eisejuaz', Sara Gallardo dá voz a um indígena com ecos de Guimarães Rosa

Escritora argentina morta em 1988 não obteve o reconhecimento devido de sua obra até os anos 2000, quando foi redescoberta por Ricardo Piglia

Dirce Waltrick do Amarante*, Especial para o Estadão

01 de julho de 2021 | 15h00

Quando Eisejuaz, da escritora argentina Sara Gallardo (1931-1988), foi publicado na Argentina, em 1971, o romance não mereceu a atenção da crítica. Gallardo não era uma escritora novata, já havia publicado três romances, mas continuava praticamente desconhecida dos leitores ou pelo menos não tão festejada como outros autores argentinos de sua época. Além de romances, Gallardo escreveu livros de literatura infantojuvenil, contos e textos diversos sem gênero específico. Sua obra só chamou a atenção nos anos 2000, graças a Ricardo Piglia, que incluiu Eisejuaz na sua coleção de literatura argentina. Se na sua terra natal o reconhecimento foi tardio, no Brasil não poderia ser diferente. 

Gallardo estreia em português apenas este ano com o lançamento de Eisejuaz, em tradução de Mariana Sanchez. A escolha desse livro para introduzir a obra da escritora aos leitores brasileiros parece acertada não só em razão de sua temática -- a saga de um indígena desterritorializado --, quanto de sua linguagem, comparada pela crítica internacional à de Guimarães Rosa, em Meu Tio Iauaretê ou Grande Sertão: Veredas

O romance de Gallardo nasce de uma entrevista que ela fez no ano de 1968 com um indígena wichi. Essa conversa parece ter aberto os olhos da autora para a tragédia de um povo “civilizado à força”, seja por missões protestantes nórdicas, seja por qualquer outro colonizador, os quais deixaram um rastro de pobreza e infortúnios para os nativos: “O dinheiro não dá para comer, tem que beber. Outros bebem cana, bebem uísque, bebem genebra; os paisanos bebem álcool de farmácia com burritos . Os gringos usam ele, ensinam a falar línguas gringas, a rezar para outro Deus. Todos usam ele. O paisano tinha que ser cidadão de honra da pátria argentina. Estou aqui pra isso, e também meus dez caciques e todos os homens deles”. 

Gallardo também está “aqui pra isso”, para contar, numa língua oral e híbrida, os delírios e as violências sofridas por Eisejuaz e por seu povo que não tem nem mais o rio para pescar, pois o “o rio tem dono”. O romance se passa, aliás, à margem do Pilcomayo, rio que nasce na Bolívia e separa a Argentina do Paraguai. 

Eisuarez, que possui outros nomes, como Este Também, imagina ser um enviado pelo Senhor: “Eisejuaz, Este Também, o comprado pelo Senhor, começando o último trecho de seu caminho”. A religião imposta pelos missionários confunde-se, contudo, com seu próprio modo de ver o sagrado, que é inseparável da natureza que o cerca: “Me lembrei da lagartixa cor de sol, mensageira que disse ‘O Senhor sempre está, sempre vive, nunca nasceu, não morre nunca'”. 

O protagonista acredita que cabe a ele cuidar de seu parceiro branco chamado Paqui, o qual o trata com desprezo, como um louco e ignorante, e, na primeira oportunidade, o abandona, não antes de matar os bichos de seu protetor por absoluta maldade. Na cidade, Paqui vira pastor e enriquece com a pobreza dos outros: “Recolhiam moedas, dinheiros, anéis, um lenço, recolhiam abóbora, ovos, um pouco de macarrão”. 

Eisejuaz também parte para a cidade; lá, entre os brancos, percebe que ele e seu povo precisam lidar com o preconceito e com o ódio. Longe das aldeias, as mulheres indígenas se transformam em prostitutas, os homens não conseguem trabalho digno, resta-lhes apenas ser expulsos de todos os lugares: “Fede o índio nessa casa! Isso aqui não é mais vida, Fora selvagens! – E também: – Vista-se índia imunda”. A indígena, levada pelo pai para a casa dos brancos, se questiona, contudo: “Por que me ensinaram a usar vestido, a ter vergonha?”. 

O protagonista se culpa por ter induzido sua gente a seguir as palavras do missionário e acabar sem ter onde morar nem o que comer, mas ele sabia que “já terminou nossa hora no mato, já terminou o mato e todo bicho do mato. É a hora do branco”. 

Uma marca do romance de Gallardo é a violência, não só contra os indígenas, mas contra qualquer um que esteja em uma posição mais vulnerável. A hostilidade e o ódio parecem ter sido os maiores legados deixados pelos missionários e outros “conquistadores”. 

Se Eisejuaz é de fato um visionário, cabe refletirmos sobre suas palavras: “Nosso tempo terminou e o de todos os paisanos. Agora cada qual deve viver como puder. Por que calhamos de nascer nesses tempos, não sabemos. Todos os homens têm a cegueira como triste herança”. 

*ENSAÍSTA, TRADUTORA E AUTORA, ENTRE OUTROS, DE ‘CEM ENCONTROS ILUSTRADOS’ (ILUMINURAS).

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