Rebecca Smeyne/The New York Times
Rebecca Smeyne/The New York Times

Em exposição, Andy Warhol surge como pai da era de saturação da mídia

Artista retratou a experiência do consumismo e, mesmo tendo morrido em 1987, nunca foi tão relevante

The Economist

01 Dezembro 2018 | 16h00

Andy Warhol morreu há mais de 30 anos, mas jamais pareceu tão relevante. Essa é a tese convincente apresentada por uma nova exposição retrospectiva de seu trabalho no Whitney Museum of American Art. 

Quando a linha entre celebridades e realizações genuínas está quase diluída, quando hospedar um reality show pode servir como plataforma para cargos políticos, e quando o status é medido em cliques, curtidas e seguidores, Warhol – um fantasma pálido e profético – paira como pai espiritual desta era saturada de mídia.

A partir do início da década de 1960, ele e seus colegas da Pop Art rejeitaram o expressionismo abstrato – um modo introspectivo que investigava as profundezas psicológicas do indivíduo – em favor da arte que retratava a experiência do consumismo. 

Usando as técnicas fotomecânicas dos meios de comunicação de massa, Warhol retratou produtos comerciais (Coca-Cola e a sopa Campbell) e ícones da cultura pop (Elvis Presley e Marilyn Monroe), bem como a parte mais baixa das histórias de sucesso americanas (distúrbios raciais e morte violenta). 

Warhol nunca julgou ou editorializou, produzindo o bom e o mau, o brilho e o grunge, com a agitação indiscriminada do mercado.

Desta forma, ele se tornou o principal cronista de uma revolução na consciência, encenada como um mundo dominado por coisas que se transformavam em um estado saturado de imagens. Andy Warhol era conhecido por ser obcecado com a fama, mas uma de suas ideias era que, em uma economia impulsionada pela campanha publicitária da Madison Avenue e de Hollywood, a fama era inestimável, mas também sem valor e fugaz.

Em um mercado de imagens, a visibilidade era a única coisa que importava: era imperativo ter seu rosto estampado em uma capa de revista, ser uma presença em cena, estar disponível como um produto na prateleira, pronto para a venda e fácil de comprar. 

Embora a visão de Warhol possa parecer distópica, também implica num tipo perverso de democracia, já que tudo (e todos) são intercambiáveis. Reduzidos a meras commodities, o presidente Mao e Mick Jagger são negociados na mesma bolsa, e a Mona Lisa é apenas mais um outro logotipo corporativo. 

Todos esses rostos aparecem na exposição Andy Warhol – de A para B e vice-versa (que no próximo ano será transferido do Whitney Museum para o Museu de Arte Moderna de São Francisco e, posteriormente, para o Instituto de Arte de Chicago). Recentemente uma outra mostra no Grand Palais, de Paris, tem como um dos destaques uma tela dele, um retrato do cantor Michael Jackson.

Um dos caprichos da carreira de Warhol é que o artista que inventou o conceito dos “15 minutos de fama” teve um poder de permanência que poucos de seus colegas podem igualar. 

A longevidade repousa sobre a sua estudada neutralidade, o que lhe permitiu ser apreciado tanto por marxistas como capitalistas. Para alguns, seu irônico desapego parece trazer seu próprio veredicto de condenação; mas é impossível saber ao certo se ele está satirizando o consumismo ou é um fã, um crítico ou um incentivador, já que se apresentou como um receptor passivo da cultura ambiental. 

Ele era o mais vazio dos quadros em branco, forçando os espectadores a preencher as lacunas com base em seus próprios preconceitos – um processo que ele tornou explícito quando, em 1984, começou sua série de Rorschach, imitando as manchas de tinta do renomado teste de personalidade.

Warhol levou o mito americano do “self-made man” a um extremo lógico. Os consumidores, na sua opinião, não tinham identidades estáveis. Ao contrário de seus antecessores expressionistas abstratos, ele rejeitou a busca de um self “autêntico” como uma missão impossível. De sua perspectiva, as pessoas pareciam não ter um centro fixo; eles eram apenas feixes de desejos que mudavam em resposta à mais recente aparição, seus apetites sempre atiçados, mas jamais saciados. 

As pessoas eram definidas pelo que compravam, pelos shows aos quais assistiam, pelas roupas que consumiam – tudo descartável.

“Você vive na sua própria América de sonho”, ele disse, “que você fez sob medida de arte, dramaticidade e emoções.”

Como um homem abertamente gay em uma era conformista, para Warhol o sonho feito sob medida era libertador, oferecendo uma chance de reinvenção constante. Ele estava sintonizado com a capacidade dos meios de comunicação de massa de derrubar barreiras e nivelar hierarquias: entre a alta arte e o comércio, entre o público e o privado.

Os processos por ele tornados visíveis só se aceleraram na era da internet, quando as vidas são em grande parte virtuais e a identidade é construída pelo histórico de navegação e pelas compras com cartão de crédito e mapeada em complexos algoritmos. 

Sonho ou pesadelo, essa é uma realidade que Warhol viu antes de qualquer outra pessoa – e ajudou a criar. / Tradução de Claudia Bozzo 

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