Em Hollywood, os astros são os vilões

Há hoje menos estrelas no firmamento cinematográfico. Elas ganham muito mais, mas valem e duram muito menos

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2007 | 00h53

Como só no fim de junho de 2008 expira o atual contrato dos atores de Hollywood com os produtores, ainda faltam sete meses para a greve dos roteiristas ganhar a adesão do Screen Actors Guild (SAG), o sindicato dos intérpretes de cinema e televisão. Até lá, quatro coisas podem acontecer: 1) acabar a greve dos roteiristas; 2) os roteiristas completarem seu sétimo mês de paralisação; 3) o SAG aderir ao movimento dos roteiristas; 4) o SAG acertar seus ponteiros com os produtores. A primeira hipótese é a que mais interessa à indústria cinematográfica. A quarta seria apenas um prêmio de consolação, já que, sem scripts para decorar, atores nada valem. Aliás, mesmo com um roteiro na mão e uma produção com tudo em cima, os atores estão valendo bem menos do que supõem. A rigor, são eles os virtuais vilões da crise que Hollywood ora atravessa. Não todos, evidentemente, apenas uma minoria, a casta nobre que, com seus salários bilionários e mil e um benefícios sobressalentes, vem empurrando a indústria de filmes ladeira abaixo e reduzindo a parte que aos roteiristas cabe naquele latifúndio.Atores como Tom Cruise e Tom Hanks já entram em cena ganhando US$ 20 milhões, fora os 20% sobre o faturamento bruto do filme no mercado internacional. Façam as contas: Missão: Impossível III rendeu US$ 95 milhões para Cruise, que o estrelou e produziu. Lucro total do filme: US$ 400 milhões. A Paramount, que nele investiu US$ 150 milhões, levou apenas US$ 10 milhões para seus cofres. Não foi só por seu fanatismo cientológico que Cruise rodou da Paramount, após 14 anos de amigável (e lucrativa) parceria. O fator grana pesou mais. É uma economia inteiramente biruta. Para a conta bancária de Cruise ou Hanks, cerca de US$ 100 milhões, entre salários e participação na renda bruta. Para dividir entre os roteiristas da indústria, um saldo de apenas US$ 121,3 milhões. Por que O Exterminador do Futuro 3 - A Rebelião das Máquinas custou US$ 187,3 milhões? Porque seu protagonista, só de salário, embolsou em torno de US$ 20 milhões. E a equipe da maquiagem gastou mais US$ 500 mil. A ver a fatura da dublagem bater nos US$ 700 mil, um executivo ironizou: "Desde quando há diálogo num filme de Schwarzenegger?" Há 60 anos, quando havia mais salas de cinema do que bancos nos EUA e 90 milhões dos 151 milhões de americanos assistiam a pelo menos um filme por semana, pagando uma média de US$ 0,40 o ingresso, o marketing de Hollywood era o boca-a-boca do distinto público, gratuito e eficaz. Embora fosse o terceiro maior negócio do país, só atrás do mercado varejista e das revendedoras de automóveis, era na indústria de filmes que trabalhava o mais bem pago executivo da América: Louis B. Mayer, chefão da MGM, que por ano recebia em folha US$ 1,8 milhão. Ninguém achava tal quantia absurda, nem ela afetava a economia do estúdio, que contribuía com boa parte dos 500 filmes anualmente produzidos em Hollywood, sem nenhuma promessa de ressarcimento suplementar via televisão e merchandising. Clark Gable abiscoitava US$ 100 mil por filme - e mais nada.Hoje, a quantas andamos? Relatório da Global Media Intelligence (GMI) prevê que os 132 filmes distribuídos pelos seis maiores estúdios de Hollywood em 2006 terão um prejuízo bruto de US$ 1,9 bilhão. Pudera: os lucros estagnaram após a relativa bonança do período 2000-2004 e os gastos de produção, efeitos especiais e marketing aumentaram exponencialmente. A conjugação de todos esses fatores com a forte queda na venda de DVDs só deu alegria às hienas. Menos às hienas de Walt Disney, que pararam de rir quando seus patrões admitiram um buraco de US$ 554 milhões, em 2006, por conta das participações nos lucros e outros benefícios suplementares acertados com seus astros. Acredita a GMI que até alguns êxitos de bilheteria da última temporada, como Missão: Impossível III, Superman - O Retorno, Dreamgirls - Em Busca de um Sonho, Miami Vice, faturaram bem abaixo do esperado e pouco retorno asseguraram aos que investiram em sua produção. Está cada vez mais frágil a dobradinha estrela-sucesso de bilheteria. "Se uma estrela lidera o elenco de um filme, amorteça as expectativas", advertiu Peter Bart, editor do Variety. "As estrelas de hoje podem ajudar no lançamento de uma produção, mas não asseguram seu sucesso comercial. Alguns distribuidores já se perguntam se o conceito básico de estrela de cinema não virou um anacronismo." Em seguida, Bart listou uma dezena de atores de renome (George Clooney, Ben Stiller, Jodie Foster, Halle Berry, Brad Pitt, Mark Wahlberg, Joaquin Phoenix, Jude Law e Jamie Foxx) cujos filmes mais recentes arrecadaram bem menos do que o esperado ou simplesmente entraram pelo cano. Dos 15 filmes mais bem-sucedidos no mercado americano este ano, apenas três enquadravam-se na categoria que o jargão cinematográfico chama de "star vehicle": O Ultimato Bourne (com Matt Damon), Duro de Matar 4.0 (com Bruce Willis) e Motoqueiro Selvagem (com John Travolta).David Denby, crítico da revista The New Yorker, escreveu recentemente um artigo provocativo sobre o ocaso da estrela de cinema. Há hoje bem menos estrelas no firmamento cinematográfico do que no passado. Elas ganham muito mais, mas valem e duram muito menos. No espaço de seis anos, Ben Affleck despontou como uma promessa em Procura-se Amy, virou astro em Pearl Harbor, e acabou na lixeira em Contato de Risco. Ao longo de 2003, ganhou 17 capas de revistas, que nenhum efeito positivo tiveram sobre a bilheteria do filme. Affleck mal chegou aos 35 anos. Com essa idade, Humphrey Bogart ainda era um desconhecido; mas, depois que atingiu o estrelato, só saiu do trono morto. Os astros de antigamente conseguiam impor um temperamento unificador a seus personagens; havia uma troca entre os atores e seus personagens, uma sobreposição de imagens e caráter, química só possível graças ao sistema reinante na Hollywood dos grandes estúdios, de 40, 50, 60 anos atrás, que o "semicaótico livre mercado" (apud Denby) e a sacralização da violência e dos efeitos especiais destruíram. Autônomos, os atores de hoje migram de estúdio para estúdio, de produtora para produtora, com a mesma facilidade e freqüência com que os atletas trocam de time. Sua empatia com a platéia, com raríssimas exceções, quase não existe - e quando existe, é evanescente. O público se interessa mais por ler sobre eles nos tablóides e revistas de fofocas ou vê-los pelados na internet do que diante de uma câmera, até porque esta está quase sempre mais interessada no appeal das porradas, perseguições e explosões. A SAG deveria entrar em greve não para reivindicar maior participação nos lucros de um filme, e sim para recuperar a dignidade e o status mítico dos seus sindicalizados.

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