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Em nome do pai: uma história de luta pela liberdade de expressão

Filha de político russo assassinado, ela foi obrigada a deixar seu país. Hoje luta para que os conterrâneos possam falar o que pensam

Jamil Chade / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

06 Agosto 2016 | 16h00

A propaganda de Estado mata. Quem faz a afirmação é Zhanna Nemtsov, filha do dissidente e político russo Boris Nemtsov, morto em Moscou em 2015 em um crime até hoje não elucidado (o julgamento dos acusados só começou no fim de julho). Crítico de Vladimir Putin, Nemtsov havia denunciado o autoritarismo cada vez maior do Kremlin e a corrupção no governo. Com reportagens em 2014 sobre o desvio de verbas públicas nas obras de Socchi para os Jogos Olímpicos de Inverno, o dissidente havia alertado que temia ser vítima de assassinato.

Foi o que ocorreu na noite de 27 de fevereiro de 2015, quando Nemtsov foi alvo de quatro tiros enquanto caminhava nas proximidades do Kremlin. Sua filha, Zhanna, passou a exigir uma investigação completa do crime, o que lhe valeu ameaças – e a necessidade de deixar a Rússia.

Em 26 de maio de 2015, ela se mudou de Moscou para a Alemanha, onde passou a ser apresentadora de TV, criou uma fundação pela liberdade expressão e, com seu trabalho, vem acumulando prêmios de governos e entidades. O governo de Barack Obama destacou em março sua “firme coragem”.

Em Genebra, onde ela esteve para receber mais um reconhecimento internacional, a russa de 32 anos faz uma análise da situação de seu país sob Vladimir Putin. “A propaganda do Estado russo cria uma atmosfera no país onde crimes como o do meu pai passam a ser considerados possíveis”, disse, arranhando o português que aprendeu na faculdade em Moscou.

Poliglota, com um discurso apaixonado pela liberdade de expressão, Zhanna alerta que existe “um vácuo de informação” hoje na Rússia, com o Kremlin praticamente controlando a imprensa. Eis os principais trechos da entrevista ao Aliás:

Por que a sra. deixou Moscou e foi viver na Alemanha?

Vejo como algo muito negativo o fato de eu ter partido. Não fui a única. Cerca de 300 mil pessoas deixaram a Rússia em 2014 e outros 300 mil em 2015. Existe uma fuga de cérebros. São pessoas que querem viver em um estado democrático estável. São pessoas que querem educar suas crianças com base na liberdade. A saída não é apenas levada por questões políticas. Empresários e profissionais também não querem viver naquela sociedade. Putin criou uma atmosfera onde pessoas não se sentem confortáveis. No meu caso, eu estava sob ameaça. Se eu ficasse, certamente teria sido demitida de meu trabalho. Mas existiam ameaças reais de violência física. Eu não queria ser alvo de violência. Estou pronta para um debate. Mas não para ser violentada.

Como a sra. avalia o comportamento do Estado russo em relação à imprensa?

Existem tendências muito preocupantes na Rússia. Desde 2001, o objetivo de Putin foi o de buscar o controle sobre a imprensa. Putin tem uma visão diferente do papel do jornalista. Em primeiro lugar, em sua avaliação, o jornalismo não é uma profissão decente. É, acima de tudo, um instrumento de poder.

E qual a situação hoje?

Temos um vácuo de informação na Rússia. As pessoas têm cada vez menos acesso a informações independentes. Em maio, mais uma onda de ações foi lançada, fechando emissoras que publicaram reportagens importantes nos últimos meses. Com ampla facilidade, jornalistas são demitidos por qualquer crítica que se faça. E, no lugar delas, o que existe é uma máquina de propaganda. E uma propaganda que mata.

De que forma?

É um tipo de propaganda que cria uma atmosfera em que esses crimes passam a ser considerados possíveis. Meu pai foi repetidamente apontado como um traidor pelo Estado e assim mostrado na imprensa oficial. Essa propaganda tira a humanidade das pessoas. Cria imagens de traidores. A liberdade não é algo vago. É algo que precisamos para que um país seja próspero. Ao realizar uma propaganda agressiva, o Estado gera reações agressivas, o que é inaceitável. São propagandas que falam de emoções.

Como a sra. avalia o futuro da imprensa na Rússia e da liberdade de expressão?

Antes de melhorar, a situação vai ficar ainda pior. A situação já é cada vez pior. Ser um jornalista independente hoje na Rússia é ato de heroísmo. O problema é que se não contarmos com esses heróis, não podemos saber o que ocorre hoje na Rússia. Hoje, 60% da população só recebe informação da TV oficial. Agora, não se trata de um regime autoritário tradicional. É uma nova forma, que permite algumas ilhas de liberdade de existir. Mas, quando passam de um limite, elas são sufocadas. A Rússia está ficando para trás em muitos aspectos. É ainda uma república do petróleo. Se o país quiser passar para um novo estágio, com uma economia baseada em informação e tecnologia, precisará de liberdades.

Haverá eleições parlamentares na Rússia este ano. Putin pode ser questionado nas urnas?

Não acredito nessas eleições. São eleições decorativas, não democráticas. Não temos novas caras na política e, quando temos, elas são proibidas de aparecer. Os novos nomes jamais são convidados a debater na TV. E não acredito nas taxas de popularidade apresentadas sobre Putin. A vida é cada vez mais difícil economicamente para o cidadão russo. Mas temos de lembrar que os ditadores sempre tiveram altas taxas de aprovação...

Mas Putin concedeu asilo político para Edward Snowden. Foi sincero ou golpe de publicidade?

Não sei como Snowden conseguiu asilo e quais foram as considerações. Mas o que sei é que muita gente na Rússia tem sido alvo de perseguição por suas convicções e tiveram de pedir asilo no Ocidente. Existem hoje na Rússia 86 prisioneiros políticos do governo. E essa é uma situação cada vez mais dramática. Em epans um ano, foram detidas 53 pessoas. Hoje, na Rússia, não há como ter um debate político real. O governo russo não aceita o que essas pessoas fazem. O Estado russo tem como objetivo silenciar muita gente.

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