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Em nova tradução, 'Crime e Castigo' evidencia banalidade do mal nos dias de hoje

Livro clássico de Fiodor Dostoievski poderia ser intitulado 'Crimes sem Castigo' se fosse escrito em 2019

Flávio Ricardo Vassoler*, Especial para o Estado

06 de abril de 2019 | 16h00

Com tradução do escritor Rubens Figueiredo, a editora Todavia acaba de lançar uma nova edição de Crime e Castigo, obra-prima do escritor russo Fiodor Dostoievski (1821-1881). Publicado originalmente em 1866, o romance é não apenas a porta de entrada mais recorrente para a obra de Dostoievski, como tende a ser a primeira leitura da maioria daqueles que chegam à literatura russa propriamente dita, como já divulgou a International Dostoevsky Society, instituição que reúne os mais renomados pesquisadores dostoievskianos ao redor do mundo. 

Crime e castigo nos apresenta a primeira grande investigação de Dostoiévski sobre um dilema, que, para o autor, sintetiza os (des)caminhos da modernidade: se Deus não existe, tudo é permitido? 

Filho de uma época que, após 1800 anos de judaico-cristianismo, ousou chamar de mitológico o Livro de Gênesis para desvelar, a partir das investigações do cientista inglês Charles Darwin (1809-1882), a verdadeira origem das espécies, o jovem Ródion Raskólnikov, aguçado por seu niilismo, compreende que, se Deus está morto, é preciso matar o Não matarás. Grandes legisladores da humanidade, como Júlio César e Napoleão, não se constrangiam em submeter seus soldados às agruras mais lancinantes. Para os homens extraordinários – raciocina Raskólnikov –, os fins justificam o choro e o ranger de dentes de quaisquer meios. Apenas a massa ordinária, a manada que se ajoelha diante da lei e dos profetas, não percebe que, se Deus não existe, tudo é permitido – conclui a personagem dostoievskiana.

Assim, Crime e Castigo nos apresenta, em sua primeira parte, as ponderações niilistas de Raskólnikov que, ao fim, desembocarão no assassinato da usurária Alióna Ivánovna, a idosa para quem o jovem empenhara as derradeiras quinquilharias de sua pobreza, que o fizera abandonar o curso de Direito. Afinal – reflete Raskólnikov –, por que um piolho usurpador merece continuar vivo? César e Napoleão sequer hesitariam em esmagar tal usurária como quem enxota uma mosca. Assim, munido de um machado, Raskólnikov racha a têmpora de Alióna Ivánovna. Ocorre que, inusitadamente, a irmã da vítima aparece na hora e no local errados, e o jovem niilista, num instante, se torna um duplo homicida, já que precisa realizar a queima de arquivo. 

A mensagem subliminar de Dostoiévski é vigorosa: violada a fronteira do Não matarás, vale a máxima do Livro de Salmos, segundo a qual “um abismo chama outro abismo”. Se Raskólnikov verteu sangue uma vez, por que o jovem não o faria pela segunda vez? (Levado às últimas consequências, tal raciocínio niilista reverbera uma máxima do ditador soviético Josef Stalin (1878-1953), responsável pelo aprisionamento, fuzilamento e expurgo de milhões de pessoas: “A morte de uma pessoa é uma tragédia; a morte de milhões, material estatístico”.)

Após o duplo homicídio cometido por Raskólnikov, o romance passa do crime ao castigo, isto é, o jovem se vê acossado pelo fardo de ter ceifado vidas humanas e, à revelia de sua vaidade niilista, descobre que seu sentimento de culpa não o eleva à condição extraordinária de César e Napoleão. 

Vale frisar, no entanto, que, em Crime e Castigo, Raskólnikov congrega a concepção e a execução do assassínio. O jovem viu o rosto transtornado de suas vítimas e entreouviu as súplicas derradeiras, ele viu os corpos estrebuchando e foi aspergido com sangue inocente. A dor moral de Raskólnikov se vincula à transgressão corpórea do Não matarás, ao fato de o homicida ter presenciado a ruptura da pedra fundamental de todas as leis. Como o Não matarás se confunde com o próprio transcurso da construção do imaginário coletivo, o crime de Raskólnikov afronta milênios de história. (Em um famoso aforismo de Para Além do Bem e do Mal (1886), o filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), leitor contumaz de Dostoievski, sentencia que, muitas vezes, o assassino só está à altura do niilismo de seu ato no momento mesmo da transgressão. Logo após o crime, a culpa passa a embotá-lo, de modo que o candidato a super-homem se apequena para aquém do bem e do mal.)

Instigantes e seminais, as reflexões de Dostoievski e os crimes de Raskólnikov nos fazem pensar, mediados pelos 153 anos que nos separam da publicação original de Crime e Castigo, sobre as metamorfoses do niilismo, que, em nossa época, talvez demandem um novo título para a obra: Crimes sem castigo. Senão, vejamos.

Hoje, Raskólnikov seria o mentor e o executor dos homicídios? 

Hoje, Raskólnikov conseguiria – ou, pior, precisaria – sentir culpa? 

Quando o nazista Adolf Eichmann (1906-1962), burocrata responsável pela logística de deportação dos judeus para os campos de concentração da Europa do Leste, se deu conta de que os carrascos responsáveis pelos fuzilamentos em massa, em Auschwitz, estavam sendo acometidos por surtos de apoplexia, alcoolismo e violência contra as esposas e os filhos, Eichmann lançou mão daquilo que bem poderíamos chamar de “divisão letal do trabalho”: com a Solução Final para a Questão Judaica, que passou a ser implementada a partir da Conferência de Wannsee, em janeiro de 1942, o extermínio perpetrado pelos nazistas se tornaria tão impessoal quanto profissional, a ponto de os antigos carrascos serem realocados como meros operadores das válvulas que liberariam o gás tóxico Zyklon B, que, para o bem da indiferença moral e da otimização da eficiência no trabalho, passaria a ser o único culpado pela matança industrial. (Se os nazistas houvessem vencido a 2.ª Guerra Mundial, o operador de câmara de gás Ródion Raskólnikov poderia apresentar um exímio estudo de caso sobre a eficiência de seu método produtivo em cursos de MBA.)

Quando imaginamos que a banalidade do mal não poderia alcançar maiores requintes de sadismo, nos lembramos de que as guerras atuais não precisam mais lançar mão de soldados. Hoje, Raskólnikov se transforma em um operador de drones a milhares e milhares de quilômetros de distância dos campos de batalha – e do choro e do ranger de dentes das vítimas, que a indiferença moral dos vencedores contabiliza como collateral damage, isto é, dano colateral. Quando, em 1866, o jovem Raskólnikov empunhou um machado contra Alióna Ivánovna e sua irmã, às vítimas, por mais improvável e exígua que fosse, ainda restava a possibilidade de escapar. Ora, ninguém escapa de um ataque de drones comandado via satélite. Ademais, quando os mais letais ataques high-tech são apresentados por canais de televisão, ao vivo, como se fossem extensões de jogos de video game, a excitação do entrenimento dá lugar à culpa, que, cada vez mais, é relegada como um anacronismo de uma época para a qual mesmo a transgressão mais bárbara (o homicídio) ainda tinha laivos de humanidade.

Quando administradores de empresas decidem construir barragens tendo em vista não a máxima segurança dos funcionários e da população circunvizinha, mas a maximização dos lucros que, a bem dizer, aceita correr o risco de catástrofes humanas e ambientais sem precedentes, estamos diante da mais escatológica radicalização/banalização do princípio niilista que fez com que Raskólnikov se imaginasse um herdeiro da amoralidade de Júlio César e Napoleão. Da máxima dostoievskiana, segundo a qual se Deus não existe, tudo é permitido, nós bem podemos depreender que, com ou sem Deus, de Crime e Castigo a Crimes sem Castigo, nossa época só faz pregar (e ironizar) um dos mais célebres trechos da primeira epístola que o apóstolo Paulo escreveu aos coríntios: “Tudo me é permitido, mas nem tudo me convém”. 

*Flávio Ricardo Vassoler é doutor em Letras pela FFLCH-USP, com pós-doutorado em Literatura Russa pela Northwestern University (EUA). Autor de O evangelho segundo Talião (nVersos), Tiro de misericórdia (nVersos), Dostoiévski e a dialética: Fetichismo da forma, utopia como conteúdo (Hedra) e Diário de um escritor na Rússia (Hedra, no prelo). 

 

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