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Em novo livro, David Chalmers afirma que a realidade pode ser uma simulação

Filosofo que estuda a consciência humana, o autor escreve sobre doppelgangers, teoria, adaptada para o cinema e literatura, de que cada ser humano teria um par

Jess Keiser, Washington Post

24 de fevereiro de 2022 | 10h00

A filosofia, muitas vezes argumentou o crítico Arthur Danto, é definida por sua singular obsessão pelos duplos. Pegue duas coisas – exatamente iguais aos nossos sentidos – e mostre por que uma é pedra e a outra, sombra. Isto é filosofia.

Se você folhear os escritos filosóficos, vai encontrar repetidas confirmações desse argumento de Danto. A filosofia da linguagem muitas vezes nos pede para imaginar uma “Terra Gêmea”, um mundo exatamente igual ao nosso, mas diferente de algum modo fundamental que transforme a definição, digamos, da palavra “água”. Já no campo da identidade pessoal, você pode se ver diante de um teletransportador no estilo 'Star Trek’, instado a refletir se é seu eu original que faz a viagem ou se você é substituído por uma réplica atomicamente idêntica. Se você pegar um livro sobre consciência, vai encontrar uma horda de “zumbis filosóficos”, seres que são como você e eu – que podem falar, escrever, realizar ações complexas – mas que têm uma diferença fundamental: essas atividades não significam nada para os zumbis. Eles são inteligentes, mas não têm qualia: o sentido inefável do “como é” que parece definir a experiência consciente.

Este último grupo de doppelgangers especulativos muitas vezes passam se arrastando pelos escritos de David Chalmers. Os zumbis aparecem em seu último livro, Reality+: Virtual Worlds and the Problems of Philosophy, junto com a Terra Gêmea já mencionada. Mas todos esses pares e impostores familiares desempenham um papel coadjuvante na busca de Chalmers para resolver aquele que talvez seja o maior dos quebra-cabeças filosóficos: como saber se este mundo é o real?

Como observa Chalmers, você pode encontrar variações desse enigma ao longo de toda a história da filosofia – tanto oriental quanto ocidental. Platão desafia seus leitores a reconhecer que o que eles tomam por realidade não tem nada de real: estamos em contato direto não com o real, mas com cópias e reflexos, sombras projetadas na parede de uma caverna. O sábio indiano Narada, punido por Vishnu por sua insistência arrogante de que seu intelecto conseguiria perfurar até mesmo a ilusão mais poderosa, foi obrigado a viver uma segunda vida inteiramente falsa, do nascimento à velhice, antes de ser empurrado de volta para esta. Zhuangzi se perguntou se era um filósofo que às vezes sonhava em ser uma borboleta ou uma borboleta que se tornava um filósofo quando dormia. Na era moderna, a versão mais influente do quebra-cabeça – e aquela em que Reality+ mais se debruça – aparece nas seções iniciais das Meditações de René Descartes: ali Descartes se pergunta como pode distinguir a realidade do sonho, e então considera a possibilidade de um demiurgo quase onipotente que poderia empurrá-lo para uma existência falsa.

Reality+ leva a sério essas histórias de sonhos, sombras e alucinações. Elas não são, insiste Chalmers, simplesmente fantasias ociosas de excêntricos, nem enigmas ultrapassados da história da filosofia. De fato, a proliferação de versões contemporâneas dessa pergunta – e se eu for só um cérebro dentro de um pote? E se eu estiver na Matrix? E se eu for, sem saber e sem querer, um participante de um reality show muito antiético? – mostra que as preocupações com a irrealidade do que se passa por cotidiano estão florescendo no nosso imaginário cultural.

E por um bom motivo. Chalmers argumenta que os avanços contínuos em tecnologia – especialmente em realidade virtual e simulação de computador – acabarão por transformar em possibilidades concretas as histórias assustadoras que se contam em torno das mesas de seminários sobre sonhos e simulacros. Afinal, não preciso imaginar um demiurgo, como fez Descartes, para refletir se (ou quando) será possível conectar uma pessoa a um mundo virtual de aparência verdadeiramente real. Quando isso acontece, logo surge outra pergunta: será que de alguma forma escorreguei para um mundo simulado sem me dar conta?

Responder a essa pergunta leva Chalmers ao que às vezes é chamado de “hipótese da simulação”, essencialmente a versão moderna e tecnológica das cavernas, demônios e sonhos da filosofia. Em poucas palavras, a hipótese da simulação diz o seguinte: se algum dia conseguirmos desenvolver um mundo virtual totalmente convincente, então é provável que nossa realidade, agora, seja apenas uma simulação forjada por alguma civilização “superior”, mais avançada. Afinal, se tais simulações podem existir, elas algum dia irão superar as realidades originais. Assim, é estatisticamente improvável que nosso mundo seja – como muitas vezes gostamos de supor – a realidade pura e simples. Em vez disso, estaríamos vivendo na “realidade +”, um “cosmos (...) que contém muitos mundos (espaços físicos e virtuais)”.

A exemplo de todas as grandes teorias filosóficas, a hipótese da simulação pode parecer ao mesmo tempo destruidora e friamente convincente. Chalmers, que endossa amplamente essa ideia, tenta deixar a hipótese mais clara sem sacrificar sua complexidade. De fato, Reality+ às vezes parece dois livros em um. É uma obra acolhedora para leitores iniciantes de filosofia, cheia de referências geniais a marcos culturais como ‘Matrix’ e ‘Rick and Morty’. Mas, simultaneamente, se mantém substancial o suficiente para as pessoas familiarizadas com o campo e seus debates atuais.

Como estudante de pós-graduação na Indiana University Bloomington, Chalmers trabalhou com Douglas Hofstadter, autor de Gödel, Escher, Bach, uma meditação envolvente, mas às vezes incompreensível, sobre matemática, mente e música. E Reality+ muitas vezes parece uma tentativa de reproduzir e suavizar o que há de espinhoso naquele livro anterior. Assim como a obra de Hofstadter, Reality+ muitas vezes é estranho, selvagem e maravilhoso; cativa o leitor comum recusando-se a fazer concessões. Mas onde Hofstadter é divertidamente enigmático e impetuoso, a escrita de Chalmers é perspicaz e didática – uma abordagem que a impede de entrar em colapso na obscuridade mais recalcitrante.

Por exemplo, em uma série de cenários rápidos, mas abrangentes, Chalmers mostra como a hipótese da simulação sutilmente complica, aprofunda e amplia questões da ética (as vidas reais são mais valiosas do que as simuladas?), da filosofia da ciência (a estrutura fundamental da realidade é uma espécie de código de computador para átomos em vez de bits?) e da filosofia da mente (dá para simular a consciência?). Do começo ao fim, Chalmers muitas vezes retorna a um conjunto de questões que ele acha que inevitavelmente surgem quando reconhecemos a solidez da hipótese da simulação. Entre elas se encontram a questão do “conhecimento” (se eu caísse em uma simulação, será que saberia a diferença entre esse mundo virtual e a coisa real?), a questão da “realidade” (a realidade virtual é de alguma forma incompleta ou de segunda categoria em relação ao original?) e a questão do “valor” (como eu poderia viver uma vida “boa”, significativa ou justa na realidade virtual?).

É quando tenta responder a essas perguntas que Reality+ se mostra mais surpreendente e audacioso.

Se uma simulação verdadeiramente poderosa quisesse nos enganar, seria bem-sucedida, afirma Chalmers. Pode parecer uma conclusão desesperadora se você estiver comprometido com a ideia de que a realidade virtual é inferior à realidade real. Mas, no que é provavelmente o movimento mais controverso do livro, Chalmers quer que pensemos de outra maneira: a realidade simulada ou virtual pode ser tão significativa, robusta e completa quanto a real – talvez até mais. “Se passei toda a minha vida dentro de uma simulação, toda e qualquer flor que admirei era digital”, escreve ele. A beleza que apreciamos quando olhamos para as flores simuladas era autêntica, então por que haveria de importar que elas não sejam “reais”?

Chalmers defende essa tese incansavelmente. A meu ver, porém, ele é menos convincente quando procura estendê-la – o que ocorre quando se propõe a nos convencer não apenas de que as simulações são reais por si mesmas, mas que provavelmente vão melhorar a existência. Embora ele às vezes seja neutro nesse ponto – “Assim como a maioria das tecnologias, se a realidade virtual é boa ou ruim depende inteiramente de como é usada” – há um recorrente tom tecno-otimista em Reality + que muitas vezes parece falso: “A realidade virtual pode ser melhor do que a realidade física”, escreve ele, acrescentando que “ela pode possibilitar muitas experiências que são difíceis ou impossíveis na realidade física: voar, habitar corpos inteiramente diferentes, novas formas de percepção”.

Mas Chalmers rapidamente descarta o contra-argumento óbvio: a tecnologia, ainda que aparentemente enriqueça a vida ou facilite a existência, necessariamente aliena, diminui e restringe. Pense em como as redes sociais transformaram a promessa de interação interpessoal autêntica em uma briga sangrenta, triste e moralizante. Outros filósofos, talvez mais notavelmente Jürgen Habermas, exploraram esses problemas, mas Chalmers nunca se dá ao trabalho de questionar seus argumentos ou oferecer uma resposta. Em vez disso, ele se contenta com a possibilidade de que nossa existência dupla seja, à sua maneira, inteiramente singular. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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Jess Keizer é professora associada do departamento de inglês da Tufts University e autora de Nervous Fictions: Literary Form and the Enlightenment Origins of Neuroscience.

SERVIÇO

Reality+: Virtual Worlds and the Problems of Philosophy

David Chalmers

W.W. Norton - 544 páginas - US $32.50

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