Henry Nicholls/Reuters
Henry Nicholls/Reuters

Em novo livro, Sally Rooney se firma como a porta-voz da angústia dos millenials

'Belo Mundo, Onde Você Está' é uma história lúcida e cheia de nuances sobre amadurecer em um mundo despedaçado

Bilal Qureshi, Especial para o Washington Post

17 de setembro de 2021 | 10h00

Neste mês, a volta da romancista irlandesa prodígio Sally Rooney foi divulgada tanto pelas suas editoras como pela imprensa internacional como um “evento” literário, para o bem e para o mal. Com seu best-seller de estreia, Conversas com Amigos, além do aclamado livro e sua adaptação para TV Pessoas Normais, Rooney tornou-se a ungida voz do mal-estar dos millennials. Em uma linguagem ao mesmo tempo acessível e clara, ela é a cronista dos anseios românticos de uma geração sem rumo em um mundo - quase literalmente - em chamas. Seu último romance, Belo Mundo, Onde Você Está, não se aventura muito além dos apartamentos em Dublin, mesas de jantares e caixas de e-mail de sua obra anterior. Para cada chamativo perfil da escritora de 30 anos que antecedeu a publicação, há uma crítica igualmente afiada de sua intensa mediocridade ou de sua pálida imaginação.  

Tentando focar em seu novo romance, foi essencial, embora difícil, calar o barulho incessante ao redor de Rooney e seu sucesso. Felizmente, o texto está mais do que à altura da promessa de seus antecessores e até mesmo supera o alarde. Rooney escreveu um livro extraordinariamente lúcido, maravilhoso e cheio de nuances sobre amadurecer no que é, de fato, um mundo despedaçado. Sem tratar diretamente da pandemia, o livro poderosamente reflete um momento definido pela interioridade existencial e pelas incertezas. Ao fazer de uma romancista que se debate com sua fama repentina uma de suas personagens principais, ela colocou sua própria angústia no texto.

O romance começa com uma escritora chamada Alice esperando pelo seu encontro marcado no Tinder em um bar de uma pequena cidade. Ela se mudou para o interior da Irlanda após um colapso psíquico e agora mora em uma grande casa à beira-mar, sozinha e isolada, apesar das obrigações de sua carreira de sucesso - festivais literários e momentos de celebridade na internet. No bar, ela está esperando por Felix, um morador da região com um passado conturbado que ganha a vida digitalizando caixas de encomenda em um depósito e não lê livros. Paralelamente ao relacionamento que eles estabelecem está a história de Eileen e Simon - os melhores amigos de Alice em Dublin - que vêm lutando para definir sua própria relação há anos. Este é o tamanho do enredo. É a linguagem de Rooney e sua prontidão para o humor, ambiente e ritmo que fazem esses relacionamentos tão profundamente atraentes.  

Em seu trabalho, Rooney tem analisado uma geração ocidental nascida durante o relativo privilégio econômico e político dos anos 90, agora confrontada com uma ordem em colapso e profundas desigualdades. Para os que pensavam que sua educação traria proteção e um caminho para a estabilidade, há confusão emocional e falta de conexão. Rooney é uma marxista declarada, mas seus romances não polemizam com o capitalismo. Sua política é mais sutilmente embebida em seu interesse constante na dinâmica de poder entre homens e mulheres, entre amigos e amantes, entre os ricos e a classe trabalhadora.

Na superfície, Belo Mundo é, de fato, sobre a angústia da geração de 30 e poucos anos - e talvez seja exatamente por isso que Rooney tem sua cota de detratores. “Normcore”, “básicos” e “millennials” parecem ser acusações recorrentes. Em contraste com um momento literário definido por novas e sub-representadas vozes e romances politicamente pulsantes recheados de cálculos culturais, os personagens de Rooney são bens comuns. E ainda assim, é um dos livros mais seguros, poéticos e bem calibrados que li em anos. A “tecnologia” de seu romance - um termo que Rooney usou para descrever seu trabalho - é precisamente testada para alcançar o modo com que a linguagem funciona hoje.

Em longos e-mails intercalados com a narrativa central, Eileen e Alice ruminam sobre tudo, da mudança climática ao privilégio dos brancos, da história da escrita à sua ambivalência em relação à maternidade. Em um capítulo, Eileen escreve para Alice sobre como “os sintomas estruturais, como a massa de refugiados afogados e os repetidos desastres provocados pela mudança no clima, estão começando a ser compreendidos como a manifestação de uma crise política”. Quando ela muda de assunto para o questionamento em torno de ter filhos enquanto nos aproximamos de um colapso civilizatório, acrescenta: “Provavelmente estou pensando em tudo isso agora porque vi Adam aleatoriamente na rua outro dia e imediatamente tive um ataque do coração e morri”. Exagerada, dialética e estranhamente familiar, essas trocas formam capítulos inteiros. A forma com a qual Rooney desenha essas conversas demonstra sua compreensão a respeito de como muitos de nós pensamos e falamos agora, em pensamentos dispersos, alternando entre registros de catástrofes globais e problemas pessoais, fofocas e indignação política.

Com essas trocas abertas, Rooney dá à narrativa as raízes políticas e culturais de seu tempo. Desastres internacionais colidem com mensagens do Tinder em telas brilhantes. Eileen e Alice nunca chegam a conclusões positivas, mas sua correspondência sincera demonstra como o mundo intervém mesmo quando estamos isolados em um refúgio privado. Apesar das reclamações sobre o egoísmo dos millennials ou seu narcisismo nas redes sociais, um dos aspectos mais tocantes da geração para e sobre quem Rooney está escrevendo é uma certa seriedade e consciência social que a ordem política atual parece incapaz de aproveitar.

Em uma entrevista para a Canadian Broadcasting Corp., em 2019, Rooney falou sobre sua preocupação e compromisso em preservar o romance. Ela disse ao entrevistador que, apesar de estar consciente das origens do romance inglês como um entretenimento burguês do século 19 para a classe média alta, ele tem um papel a desempenhar na cultura contemporânea. Uma das características mais bem-vindas de Belo Mundo, Onde Você Está - em meio à publicidade, às reações e ao barulho - é como Rooney ajudou a colocar a ficção literária no centro da cultura popular. Romancistas raramente ocupam o espaço que apresentadores, atores e influenciadores assumiram agora no mundo da cultura dominante. Este livro foi feito para ser amplamente lido e discutido. Ainda que outra série esteja sendo feita de seus livros - e esse também vai virar série, imagino - o compromisso de Rooney com a beleza do romance parece antigo e sincero da melhor maneira possível. /TRADUÇÃO DE LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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