Luciano Spinelli|Estadão
Luciano Spinelli|Estadão

Em pé pela democracia

Há três semanas, milhares de franceses passam as noites na Praça da República, em um movimento político pela convocação de uma Assembleia Constituinte. O pano de fundo é bem familiar aos brasileiros: a falência dos partidos e do sistema político

Andrei Netto, CORRESPONDENTE / PARIS

24 Abril 2016 | 09h01

Na Praça da República, centro de Paris, o calendário indica o que é a data de hoje para um grupo de ativistas: 55 de março de 2016. Há exatos 26 dias, uma pequena multidão de franceses das mais variadas origens e idades vem se reunindo a partir do pôr do sol para conversar em pequenas rodas, discutir em comissões temáticas ou deliberar em uma assembleia geral permanente. Para eles, março ainda não acabou, e não acaba até conseguirem ser ouvidos. Sem bandeira e sem líder, o movimento nascido quase de forma espontânea lembra o Occupy Wall Street, de Nova York, ou os Indignados, de Madri, com uma proposta bem definida: recuperar o controle da democracia, perdido pela sociedade civil e, na visão de seus ativistas, capturado pelos partidos políticos.

Coincidência ou não, o Nuit Debout – ou “Noite em pé”, na tradução livre, como o movimento é chamado – fincou raízes no mesmo local em que a população de Paris escolheu como ponto de homenagens após os atentados terroristas de janeiro e novembro de 2015, que deixaram um total de 147 mortos e uma legião de feridos. Na Praça da República, por exemplo, foi realizada em 11 de janeiro de 2015 a maior mobilização popular da história da França, com uma concentração sufocante estimada em 2 milhões de pessoas. 

Quinze meses depois, em um país ainda ferido pelo terrorismo e sob regime de exceção – o estado de urgência, que amplia os poderes de investigação e intervenção da Justiça e da polícia –, a opinião pública começa a reagir, saindo do torpor.

O ponto de virada aconteceu em 23 de fevereiro na Bolsa de Trabalho de Saint-Denis, uma instituição criada pela prefeitura local para abrigar debates de sindicatos e coletivos de lutas sociais. Ali o jornalista e documentarista François Ruffin, diretor do jornal militante de extrema-esquerda Fakir, decidiu realizar um evento, Leur faire peur – “Provocar-lhes o medo”, na tradução livre. Sua principal motivação havia sido o sucesso da exibição do filme Merci Patron, que aborda o impacto econômico causado pela transferência para a Polônia de uma fábrica de ternos da marca Kenzo, pertencente ao grupo de grifes de luxo Moët Hennessy Louis-Vuitton (LVMH).

Durante o evento, Loïc Canitrot, diretor do coletivo militante Jolie môme, propôs uma ideia: “On ne rentre pas chez nous !”, ou “Nós não voltaremos para casa!”. A sugestão acabaria resumida em um novo slogan, que deu nome ao movimento: Nuit Debout. Essa ideia veio acompanhada de uma figura de linguagem: a de que março de 2016 não acabará nunca, por ser o início de uma mudança que deve se perpetuar no tempo – daí a brincadeira com o calendário.

Por trás da proposta de uma nova mobilização social estava a indignação causada pelo projeto de lei de reforma do mercado de trabalho enviada ao Parlamento pelo presidente socialista François Hollande e, desde então, defendida por sua ministra do Trabalho, Miriam El-Khomri. Baseada no paradoxo da flexi-seguridade, ou seja, na flexibilização do mercado por medidas que facilitam a demissão de trabalhadores com o intuito de encorajar os patrões a empregar mais, a proposta enfrenta uma dura unanimidade: a oposição de sindicatos de trabalhadores e de patrões. Para os primeiros, o texto mina garantias sociais; para os segundos, não é liberal o suficiente.

Em 31 de março, centenas de pessoas aderiram a um convite lançado por coletivos e associações via militantes e redes sociais. O resultado foi a ocupação da Praça da República para realização do dia #1 de Nuit Debout. Esse evento, defendiam seus organizadores, deveria lançar as bases de uma mobilização em favor da democracia direta. Então a ação ganhou em espontaneidade com a adesão de milhares de interlocutores. Exasperados pelo baixo crescimento, de 1,1% em 2015, pelo desemprego elevado e crônico, na casa de 10,3%, pelo projeto de Lei El-Khomri, pela ascensão da extrema direita, que contabilizou 7 milhões de votos nas eleições regionais de dezembro de 2015 – seu recorde histórico – e pela falta de alternativas entre os partidos políticos tradicionais, franceses de diversas origens e idades se reuniram em uma iniciativa política que acabou se reproduzindo pelo interior do país e inclusive por outras capitais europeias, como Bruxelas e Madri. 

O movimento se organiza em assembleias gerais e em comissões que discutem temas como política, economia, imigração, educação, feminismo, direitos humanos, mudanças climáticas. Uma dessas comissões debate, por exemplo, o vocabulário que o grupo deve adotar em suas manifestações públicas. Cada decisão é discutida e aprovada ou rejeitada por aclamação.

Para observadores, Nuit Debout reedita Ocuppy Wall Street, nos Estados Unidos, ou dos Indignados, na Espanha. Essa também é a impressão de Lucie Conjard, 22 anos, formada em Filosofia, encarregada da comissão de “Vocabulário”. “Este movimento tem muitas influências. Tem influências dos zadistas (ambientalistas radicais), do 15 de Maio (Indignados) e Occupy, que são coisas muito diferentes. Um resultou em não muita coisa, mas em um estar junto; outro resultou em um partido”, lembra.

As dúvidas de Lucie são compartilhadas pela maioria dos frequentadores. No que Nuit Debout resultará, ninguém sabe com certeza – ou ao menos não por ora. François Ruffin, o fundador, não quis falar ao Aliás para explicar os rumos do movimento – a rejeição à imprensa “mainstream” é comum entre muitos de seus membros. Já entre os militantes, há quem sonhe com um partido político nos moldes do Podemos, a legenda radical de esquerda liderada pelo cientista político Pablo Iglesias e transformada em terceira força política da Espanha. 

Outros preferem esperar e, ao menos por enquanto, só debater ideias e políticas. Essas bandeiras já são conhecidas: a convocação de uma assembleia constituinte, a reforma do sistema político, o aprofundamento da democracia – leia-se “democracia direta” –, melhor separação dos poderes, mais pluralismo, mais “horizontalidade” (ou seja, menos hierarquias). “O que é muito interessante é que não nos proibimos de sonhar, não nos proibimos de pensar, não nos proibimos de pegar o sistema a contracorrente, a desfazê-lo e recomeçar de outra forma”, diz a bibliotecária Olivia Degraef, que participa de uma comissão sobre educação. “Sabemos que nem tudo é possível, que é um pouco utópico, mas esperamos que esse movimento venha a crescer.”

Como se poderia esperar de uma assembleia aberta ao público em que as contribuições e os discursos são bem-vindos, a dinâmica é lenta – às vezes incrivelmente lenta. Em uma das assembleias acompanhadas pela reportagem, só em avisos preliminares foi consumida uma hora. Ao fim do prazo previsto de duração, propostas de extensão por 30, 60 ou até 90 minutos a mais são submetidas ao voto. Respondendo aos mediadores, a multidão, que varia de dezenas aos milhares, de acordo com o dia, vota erguendo as mãos. E então recomeçam as discussões. Gestos específicos também sinalizam o acordo, o desacordo, problemas técnicos, precisões, etc. Tudo muito lento, mas com compensações, segundo os ativistas.

“Claro que ouvimos às vezes discursos um pouco repetitivos, um pouco imaturos, talvez às vezes infantis”, reconhece Jean Vedrines, 60 anos, escritor e professor que, ao conceder entrevista, comparecia à sua sexta noite consecutiva de mobilização. “Mas são pessoas que querem mudar muitas coisas na França, em particular na área social, e que são com frequência muito revoltadas. E eu gosto muito dessa mistura.”

Vendrines, um professor e escritor, não é exceção em meio à multidão, que não é formada só de militantes de esquerda e de sindicalistas. Há também executivos e profissionais liberais, funcionários públicos, estudantes e ambientalistas – incluindo grupos ambientalistas de matizes anarquistas, os já citados zadistas –, além de neo-hippies, punks, sem-teto e black blocs. Como não há porta-vozes oficiais, muito menos líder, as manifestações são divulgadas via redes sociais, como Twitter, onde o perfil do movimento tem quase 40 mil seguidores. Já o Periscope é o meio pelo qual são transmitidos os debates ao vivo. A divulgação conta ainda com o empenho de associações de militantes de esquerda radical, como ATTAC, além de sindicatos. 

Característica comum aos frequentadores de Nuit Debout, muitos são militantes de esquerda desiludidos com o governo de François Hollande e com o Partido Socialista (PS), que no curso do atual governo se transformou em uma legenda social-liberal. “A Lei de Trabalho é o fermento da mobilização, é o que levou as pessoas às ruas e o que as levou a se reunir aqui”, entende Shirley Wierden, 26 anos, professora de francês e estudante de filosofia.

Essa rejeição a Hollande e ao sistema torna evidente o caráter de esquerda radical do movimento. Personalidades de direita ou vistas como conservadoras já foram hostilizadas. Foi o caso do filósofo Alain Finkielkraut, expulso a cusparadas da praça na semana passada. Em diferentes noites, grupos de black blocs entraram em conflito com as forças de ordem, e responderam depredando o comércio, veículos e agências bancárias. Transeuntes do bairro dizem que não é raro sentir os olhos ardentes pelo gás lacrimogênio usado pela polícia para acalmar os mais exaltados. 

Esse perfil arisco da manifestação existe porque alguns ativistas têm a sensação de que o movimento enfrenta a resistência do sistema e tem a má vontade do governo. Outros, como Ian Greene, um sem-teto de 21 anos, têm a expectativa de que uma revolução esteja nascendo. “A França é uma tirania disfarçada de democracia”, argumenta. “Eu estou aqui pelo início da revolução, porque isso vai acontecer. Começou há mais de uma semana.”

A 13 meses de eleições presidenciais, esse ar de revolta que paira na Praça da República preocupa os partidos políticos tradicionais. Na semana passada, a Frente Nacional, partido de extrema direita da família Le Pen, pediu a proibição pura e simples do movimento e a evacuação à força do local. Mais sutil, o PS tem enviado observadores discretos para entender as raízes e as perspectivas da mobilização. 

Frequentador da praça, “Van Gogh”, pintor que expõe seus quadros nas ruas de Montmartre, representa o lado mais festivo, alegre e fácil de entender do movimento. “Queremos mostrar que a juventude está mobilizada”, diz ele, aos sorrisos, deixando claro os fatores que mais une a militância na Nuit Debout: a desigualdade social. “É um pouco o proletariado contra a mais alta burguesia, os 3% ou 4% do planeta que têm 80% ou 70% do capital. Se pegarmos os 4%, 5%, eles têm facilmente 99% da riqueza. Nós”, diz ele, referindo-se aos ativistas típicos do Nuit Debout, “temos 1%”.

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