Em plena encruzilhada

O maior perigo hoje para a economia mundial não é um exagerado internacionalismo, mas o fortalecimento do nacionalismo econômico

Timothy Garton Ash*, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2009 | 21h51

Através da atual tempestade podemos perceber o sistema econômico global em uma encruzilhada. As grandes empresas, as elites políticas e da mídia reunidas em Davos ainda estão em grande parte presas a suas raízes nacionais. A crise poderá acentuar essa situação.O Homem de Davos, o "mamífero mais evoluído do planeta", deveria pedir desculpas pelo caos econômico em que nos lançou - afirma, em um breve e incisivo artigo publicado pelo Times de Londres, o deputado conservador e jornalista britânico Michael Gove. Analisando a lista de participantes da reunião do Fórum Econômico Mundial deste ano, noto o nome do líder do Partido Conservador britânico, David Cameron. Se a memória não me falha, Cameron também foi um Homem de Davos, no ano passado. Portanto, claramente, Gove está pedindo ao líder de seu partido que se desculpe.Em parte, o jogo jogado atualmente, que consiste em responsabilizar os outros, é previsível e ridículo: nele, políticos acusam banqueiros, banqueiros acusam autoridades reguladoras, autoridades reguladoras acusam políticos e assim por diante. Se, como Barack Obama observou de modo absolutamente correto ante Joe, o Encanador, precisamos distribuir um pouco mais a riqueza, também precisamos distribuir um pouco mais a culpa - e de maneira mais diferenciada. Aqueles que não são especialistas em finanças começam agora a compreender o que não funcionou no que George Soros definiu como um superboom seguido por um supercolapso. (Se quiserem um curso intensivo - o termo é duplamente adequado -, recomendo um relatório especial sobre finanças publicado na última edição da Economist e uma recente conferência do diretor da Agência de Serviços Financeiros da Grã-Bretanha, Adair Turner, disponível no site da própria agência.) Quanto às provas de que dispomos até o momento, a lista a seguir pode ser usada para as pessoas se questionarem sobre sua parcela de responsabilidade. Com exceção da primeira e da última categoria, seria o caso de inserir as palavras "parte de" antes de cada uma das outras. Evidentemente, minha lista é apenas indicativa.Fraudadores. Bernie Madoff burlou a confiança dos outros (é o que parece, mas o tribunal ainda deve decidir a respeito), é um escroque e vigarista. Ele e pessoas como ele sempre existirão. A questão importante é saber como conseguiu se safar por tanto tempo e numa escala tão gigantesca.Banqueiros. Alguns, extremamente respeitados e cumpridores da lei, fizeram jogadas enormes e arriscadas e cálculos tremendamente errados às nossas custas, mas não deixaram de ser beneficiados com bonificações de muitos milhões de dólares, enquanto os acionistas e os contribuintes foram obrigados a arcar com os prejuízos. Outros não fizeram isso.Autoridades reguladoras. São inúmeras as falhas cometidas nesta categoria. "Isso é um erro de grafia?", perguntou um alto funcionário da Securities and Exchange Commission (SEC, equivalente à Comissão de Valores), ao ver a estimativa de US$ 50 bilhões dos prejuízos causados por Madoff . "Não serão US$ 50 milhões?"Políticos. É muito certo que os políticos se insurjam contra "Wall Street" e os "banksters", mas tudo isso aconteceu durante os governos de George Bush e Gordon Brown. "Os defensores do mundo financeiro", escreve Edward Carr, da Economist em seu excelente artigo, "não querem admitir que as casas eram caras demais e o risco barato demais." Sim, mas os defensores britânicos e americanos desse tipo de política tampouco admitem.Economistas. Esta é uma categoria da qual talvez possamos ouvir um pouco mais de autocrítica útil - principalmente os economistas quantitativos, cujos modelos matemáticos contribuíram para confundir os investidores. Em que sentido a economia ainda pode se declarar uma ciência se sua capacidade de previsão é tão limitada? Imaginem a física de Newton quando as maçãs começarem a cair para cima.Jornalistas. Alguns bem que alertaram, assim como uns poucos economistas excepcionais, como Nouriel Roubini. Mas somente agora o leitor médio das páginas de negócios tem condições de compreender sob que risco estiveram seus investimentos. Será que o jornalismo econômico nos enganou?Nós, o povo. Ou alguns de nós, fomos aumentando nossas dívidas com a compra da casa própria, principalmente na Grã-Bretanha e nos EUA, uma vez que os preços inflados dos imóveis residenciais davam a ilusão de segurança, sem investigar devidamente onde nossos fundos de pensão estavam sendo investidos.O sistema. As acusações generalizadas contra um "sistema" desnaturado e despersonalizado em geral revelam uma incoerência fantasiada de indignação. Mas neste caso existe a percepção de um sistema financeiro global que se tornou tão grande, tão complexo e desprovido de transparência que a possibilidade de compreendê-lo estava além até da capacidade dos principais participantes do mercado, sem falar na possibilidade de controlá-lo. Um sistema no qual decisões aparentemente racionais no curto prazo, tomadas pela maioria de participantes individuais, produziram um resultado pernicioso em termos coletivos.A primeira conclusão que posso extrair é a que se refere a conhecimento e transparência. O que muitas dessas categorias têm em comum é que as pessoas envolvidas - banqueiros, autoridades reguladoras, políticos, jornalistas ou meros participantes de fundos de pensão - não viam nem compreendiam exatamente o que estava de fato acontecendo. Houve muitas caixas-pretas e bonecas russas não abertas - como as "obrigações de dívidas colateralizadas", várias vezes reapresentadas sob formas atraentes. Segundo dizem, o próprio Soros, o lendário mestre investidor, desconfiava dos derivativos porque não "compreendia totalmente como funcionam". Agora você poderá dizer: "Bem, se Soros não conseguia entender, por que achavam que eu entenderia?" Mas também poderá aragumentar: "Sigam a regra de Soros - não invistam em algo que não entendem". Se muitos investidores individuais e institucionais tivessem mudado desse modo o paradigma, teríamos a utilização de mecanismos de mercado para disciplinar o próprio mercado. Dêem-nos uma transparência maior ou não verão a cor do nosso dinheiro. Não será o substituto de uma regulamentação mais adequada a ser implementada por governos e instituições internacionais, mas será um formidável complemento.Minha segunda conclusão nos leva de volta ao Homem de Davos, termo cunhado por Samuel Huntington, já falecido, para descrever um integrante de uma nova elite global, que se libertou das lealdades nacionais e menospreza as fronteiras nacionais - uma espécie de cosmopolita impiedoso. O Homem de Davos sempre foi o que os cientistas sociais definiram como um "tipo ideal". Na prática, Davos é um local de reunião de variadas elites econômicas, políticas e da mídia. Muitas empresas multinacionais, bancos e empresas de mídia que estão representadas aqui têm planos e estratégias de negócios globais. Entretanto, também continuam arraigados a uma cultura de negócios ou de mídia nacional. A CNN é global, mas também muito americana; a BBC World é global, mas ao mesmo tempo, muito britânica; a Nestlé é global e totalmente suíça.Quanto aos líderes políticos que vieram a Davos, a maioria continua firmemente baseada na política nacional. Aqui, no alto desta montanha mágica, eles apresentam suas posições e interesses nacionais a um público internacional nos termos mais cosmopolitas de que são capazes - como o primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, e o russo, Vladimir Putin, fizeram na terça-feira. Mas continuam profundamente conscientes de que suas palavras se farão ouvir por meio da imprensa nacional em seus respectivos países. O mais perigoso para o sistema econômico mundial de hoje não é um internacionalismo exagerado no estilo de Davos, mas o fortalecimento do nacionalismo econômico. A própria Davos sempre foi uma pequena parte de uma iniciativa maior não visando a suplantar a concorrência internacional, e sim inseri-la em uma estrutura de cooperação internacional mais forte. Agora, estamos numa encruzilhada. Um caminho leva ao nacionalismo econômico, ao protecionismo e a medidas que beneficiam um país em detrimento de outro; outro leva a uma maior cooperação internacional, com maior regulamentação e transparência. Sem um esforço consciente, a dinâmica da política democrática e não-democrática, que continua nacional, nos levará para o primeiro caminho. No Homem de Davos coexistem seu predecessor e seu possível sucessor, sempre lutando para sair. Se vocês não gostaram do que viram do Homem de Davos, esperem para ver como será o Homem Nacionalista. *Timothy Garton Ash é professor de estudos europeus da Universidade Oxford, sênior fellow da Hoover Institution, da Universidade de Stanford, e autor de Free World (Penguin UK), seu livro mais recente

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