Hugo Correia/Reuters
Hugo Correia/Reuters

Em textos inéditos, Fernando Pessoa opina sobre fascismo e Salazar

Há quem considere o poeta um reacionário, mas livro desmistifica essa imagem

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2019 | 16h00

Numa hipotética guerra entre poetas de direita e de esquerda, imaginada há tempos por um crítico europeu ocioso e brincalhão, lutariam de um lado (cito de memória) D’Annunzio, Marinetti, Pound, Yeats, Eliot, Larkin, Borges, Frost, Stevens, e, do outro, Lorca, Brecht, Breton, Eluard, Aragon, Auden, Neruda, Ginsberg, Pasolini. Nas duas trincheiras havia grandes poetas e poetastros, pois os méritos artísticos de um escritor não se medem – ou não deveriam ser medidos – pela métrica ideológica. 

Por minha conta e risco acrescentei o paulista Menotti Del Picchia às hostes da direita e reforcei as da esquerda com Drummond, Vinicius de Moraes e Thiago de Mello. Resisti à tentação de alistar Pessoa na brigada da direita e desalistar Auden da outra por não ter certeza com qual uniforme vesti-los. 

Auden, que nunca se sentiu confortável em seu papel de profeta poético da esquerda britânica, renegou seus engajados versos dos anos 1930 (Espanha, 1º de Setembro de 1939), rebaixando-os à categoria de “propaganda”, mas como não trocou de facção, permanece onde o puseram antes da guerra. O recrutamento de Pessoa não se daria com a mesma facilidade. 

Há quem considere Pessoa um reacionário padrão Borges, um imenso poeta despudoradamente elitista, defensor de regimes autoritários e puxa-saco de Salazar, e também quem desautorize cabalmente essa visão negativa do desassossegado escritor, como é o caso do sociólogo e historiador José Barreto, da Universidade de Lisboa, que amenizou meu carnaval com as 431 páginas de Fernando Pessoa Sobre o Fascismo, a Ditadura Portuguesa e Salazar, recém-lançado pela editora Tinta-da-China Brasil.

Para tirar dúvidas a respeito do alegado flerte de Pessoa com o fascismo e, por extensão, o salazarismo, Barreto leu tudo que o poeta-ensaísta escreveu sobre política, mais o que lhe foi possível recensear entre os inéditos acerca do fascismo, de Mussolini (a partir de 1922), da ditadura militar portuguesa (1926-1933) e do período salazarista (de 1928 a 1932, como ministro das Finanças do general Óscar Carmona, e como líder do governo e do Estado Novo, de 1933 em diante). 

Pessoa, que morreu em 1935, pegou apenas sete anos de salazarismo. Previu-lhe vida breve. Enterrado o poeta, a ditadura ainda durou 39 anos. A pá de cal foi a Revolução dos Cravos. 

No minucioso prefácio à antologia, Barreto procura desmistificar a má fama do escritor junto a alguns intelectuais portugueses, segundo ele empenhados numa tentativa de “fascistização póstuma” do pensamento do poeta, “sem provas”, apenas com meras “extrapolações não documentadas”, mirando notadamente o escritor e ensaísta Alfredo Margarido, contumaz nêmesis de Pessoa entre as décadas de 1970 e 1980. 

Margarido aproximou as ideias do escritor não só do salazarismo, mas também do nacionalismo-sindicalismo de Rolão Preto (um dos fundadores do Integralismo luso) e do nazifascismo de Mussolini e Hitler. Nunca deu o braço a torcer. 

Confrontado com as duras críticas de Pessoa a Salazar (rotulou-o de “pequeno Duce” clericalista e desdenhou-lhe o “fascismo sonolento”), Margarido minimizou-as como parciais e tardias, atribuindo-as a uma volúvel troca de preferências em favor de Mussolini. Não levou em consideração as deformações, os desvios e o silêncio impostos pela censura às notas, aos poemas satíricos e aos ensaios políticos do poeta. Sem acesso aos inéditos, muitos vetados na época ou estrategicamente engavetados de moto próprio pelo autor, os detratores do pensamento político pessoano impuseram-lhe, na melhor das hipóteses, uma análise capenga, à base de “juízos dicotômicos simplistas”.

Hesitante, paradoxal, contraditório, o pensador Pessoa sem dúvida abriu brechas para as conclusões desfavoráveis de Margarido & cia. Acreditava-se um liberal, visceralmente individualista, porém eivado, desde a adolescência, de um nacionalismo místico, sebastianista (vide os 44 poemas de “Mensagem”, publicado um ano antes de sua morte), de resto perfeitamente compatível com seu “feroz elitismo” e seu anti-humanitarismo filosófico e seu constante radicalismo político. 

Porque abominava o socialismo, o comunismo, o estatismo e tinha uma concepção singular da “opinião pública”, parecia, de fato, uma presa fácil para a tentação fascista que rondou a porta de inúmeros artistas e intelectuais do seu tempo. A prova dos nove de sua resistência lhe exigiria mais alguns anos que a vida não lhe deu. 

Pessoa foi republicanista em 1909, fez apologia da monarquia absoluta nove anos mais tarde (com um ersatz de Frederico II da Prússia sentado no trono de Portugal e Algarve), chegou a defender a ditadura militar como solução transitória, mas seu antipopulismo não combinava com o fascismo italiano e sua ojeriza ao tradicionalismo católico o incompatibilizava com o governo clericalista de Salazar e a ditadura pré-franquista do general Primo de Rivera. 

Tisnou Mussolini de “gênio paranoico”, “primitivo cerebral”, “louco” e “traidor da missão civilizadora e universalista da Itália”, e igual diagnóstico aplicou a Hitler e seu “nacionalismo mórbido e animal”. Se no início reconheceu a sobriedade, a frieza, a inteligência clara e a vontade firme do “contabilista” Salazar, em contraste com “a palavrosa e estéril classe política republicana”, considerava-o apenas talhado para ser, no máximo, “o mordomo do país”, não seu mandachuva – muito menos seu déspota esclarecido.

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