Embaixadas de Marlene

O Corinthians volta à série A com o título da B. Ela também quer subir na hierarquia do clube

Flávia Tavares, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2008 | 21h22

Enquanto caminha ligeira pelo Parque São Jorge, Marlene Matheus é saudada por funcionários e sócios com beijinhos e abraços. O clima anda ótimo entre os fiéis, afinal, "o Coringão voltou!" e conquistou o título da Série B com uma campanha empolgante. Alguém lamenta não estar com uma câmera para tirar fotos com ela. Marlene se envaidece, balança os cabelos loiros e sorri. Chama a todos de "meu amor". Como vice-presidente social do Sport Club Corinthians Paulista e viúva de Vicente Matheus, é esse seu papel. Muda as feições do rosto, que aparenta uns dez anos a menos do que os seus 72 de vida, quando vê duas pessoas falando alto perto das catracas de entrada. Um amigo próximo do presidente Andrés Sanchez, "que pensa que é o próprio presidente, mas é um nada", desanca um sócio por algum motivo. "Ele não pode gritar desse jeito. Isto aqui é Corinthians!", resmunga, batendo no peito. Marlene está a caminho da diretoria para conversar com Sanchez sobre algumas condutas que considera erradas em vários setores do clube. Como figura atuante há 40 anos, conselheira vitalícia e membro do Conselho de Orientação (Cori), é seu papel fazer política pelos corredores.No caminho para o quinto andar, alguém tenta lhe vender um seguro de vida. E um para o túmulo de Matheus, novamente vandalizado no cemitério da Quarta Parada. "Ah, peraí, acho que para o túmulo não pode", diz o corretor, "só para gente viva." "Mas o Matheus está vivo!", é a resposta pronta de Marlene para tudo. É só por isso que ainda está ali, garante. Por isso e porque, segundo ela, ano que vem será candidata a vice-presidente na chapa de reeleição de Sanchez. "O Andrés foi lá em casa em 2006. Disse que precisávamos tirar o Dualib (Alberto Dualib, que comandou o clube por 14 anos e renunciou em 2007) do poder. Sugeriu que eu saísse candidata a presidente e ele a vice. Eu disse para fazermos o contrário, porque é difícil para uma mulher sozinha", lembra. "Só que eu não era vitalícia, não podia sair na chapa. Então, disse para ele sair sozinho e, na reeleição, a gente conversaria. Aí, ele criou o cargo de vice-presidente social para mim e me tornou vitalícia. Agora, estou esperando..."O presidente, ou "presi" ou "meu filho lindo", como ela se refere a Sanchez, não pôde atendê-la antes do almoço. Estava negociando com o empresário de um jogador. Marlene se dirige ao restaurante, mas é novamente interceptada. Dessa vez, pelo advogado Luiz Bussab, secretário-geral do Corinthians. Ele quer a opinião dela num cartão que os associados aniversariantes vão receber. "Isso está horrível! Não tem coração, alma." De coração e alma, Marlene entende. "Toda reunião acaba com a d. Marlene chorando. As pessoas acham que é só para as câmeras de TV, mas não. Ela é muito emocional", revela Antonio Roque Citadini, presidente do Cori e na oposição à atual diretoria. Quem fez o tal cartão foi o departamento de marketing. Marlene acha um absurdo algo desse tipo ser decidido sem que a consultem antes. As consultas não têm sido mais tão freqüentes mesmo. Isolada numa sala gasta e decadente no térreo, longe dos outros membros da direção, que ficam também no Parque, mas num prédio exuberante, Marlene mal consegue organizar as festas do clube. Um baile do Havaí, por exemplo, foi todo planejado pelo departamento de esportes aquáticos. Ela foi chamada no fim para ajudar, mas, como discordou de alguns pontos, acabou de escanteio. Ganhou um beijo na bochecha do diretor do departamento na hora do almoço, retribuiu. Mas ficou cabreira. Ah, Sanchez vai saber disso.No futebol, Marlene não dá palpite. Mesmo quando se elegeu presidente do Corinthians, em 1991, quem cuidava dessa parte era Vicente, seu vice. Ninguém votou na chapa enganado, o slogan da campanha já avisava algo como "vote em Marlene para levar Vicente". A eleição da mulher foi deixa para uma das frases memoráveis do marido: "Pelo Corinthians, eu topo até ser a primeira-dama". Nessa época, o casal sempre recebeu jogadores em jantares em sua casa - diziam até que Marlene era amante de alguns deles. Um dos ex-freqüentadores é Neto, grande ídolo da Fiel, hoje comentarista esportivo. "Lembro como o seu Matheus olhava para ela. Era com muita paixão." Ele elogia o fato de que o casal não tirou dinheiro do clube nem se candidatou a cargos públicos. Não é bem assim. Marlene se filiou ao PSDB, em 2000, segundo ela, a pedido de Mário Covas, para tentar se eleger vereadora. Gastou R$ 250 mil do bolso, fez outdoors e gravou comerciais, "mas nunca aparecia na TV". Acabou desistindo.O dinheiro de Marlene vem hoje das pedreiras que eram de Vicente, das quais é sócia-herdeira com as duas filhas dele. Ela diz que não gasta muito e não viaja para o Caribe, seu lugar preferido no mundo, desde a morte do marido, em 1997. Mas se arrisca nas mesas de tranca, apostando baixo, sempre que pode. Não teve filhos e a herança ficará com os três sobrinhos. Sua casa está sempre cheia de gente, mas ela diz conversar mesmo é com as fotos de Vicente que estão espalhadas pelas paredes. Os dois se conheceram quando ela era dançarina de flamenco, numa homenagem ao 4º Centenário da Cidade de São Paulo, em 1955. Casaram-se em 1968, ele já viúvo, ela 28 anos mais nova.A atuação de Marlene no clube sempre foi maior na parte social, com a criação do departamento feminino, trazendo as mulheres para atividades como artesanato, postura e dança. Comandou a construção do berçário e da sauna. Seu grande projeto para 2009, em parceria com aquele mesmo marketing do cartão de aniversário, é a reforma da Biquinha de São Jorge, onde os torcedores fiéis serão batizados. "Vai ter um São Jorge de resina. Vai ser um jardim botânico aquilo. Uma coisa linda!"A relação com a torcida divide-se em momentos de amor e ódio. Quando ela declarou que achava que o Corinthians não era campeão mundial de clubes, a Gaviões da Fiel planejou seu enterro simbólico. Indignada, ela foi falar com a diretoria da organizada. "Vocês foram enganados, amigos. Aquilo foi um torneio, não um campeonato. É um torneio do qual me orgulho, mas isso é coisa do Dualib pra enganar vocês." Assim, não teve de assistir ao próprio enterro. No dia do rebaixamento do Corinthians, em dezembro de 2007, tentou consolar um torcedor inconsolável com um abraço. "Todo mundo cai, meu filho. O negócio é se levantar."Talvez sua influência política no clube não seja de fato tão grande como ela gosta de imaginar. Mas bem que ela tenta. Recentemente, reuniu os dois maiores opositores de Sanchez, Paulo Garcia e Osmar Stábile, para demovê-los da idéia de se candidatar à presidência em 2009. Queria convencê-los a deixar o atual presidente se reeleger, tendo ela como vice, claro, e depois eles poderiam se revezar no poder. Não encontrou ressonância. "O clube está falido, caindo aos pedaços, mas sei que o Andrés vai dar um jeito nisso. E eu vou ajudar."A casa onde tal dobradinha teria sido selada foi cenário de dezenas de reuniões conspiratórias ao longo das décadas de envolvimento dos Matheus com a direção do Corinthians. Em 2002, mais uma vez para planejar uma derrota de Dualib nas urnas, reuniram-se ali figurões do clube como Jack Terpins, Romeu Tuma, Waldemar Pires, Adílson Monteiro Alves e Sócrates. O marqueteiro Duda Mendonça foi convocado a fazer uma pesquisa com os associados e descobrir quem tinha mais chance de vencer. "Olha, fiz a pesquisa e a Marlene ganha estourado de vocês", disse Duda, seis meses depois. Todos foram embora e Duda ficou para trás, com o seguinte alerta para Marlene: "Você vai ficar sozinha". E ela ficou. "O Tuminha foi meu vice, mas o resto me abandonou." Marlene perdeu.Outro encontro marcante: o representante da MSI, Kia Joorabichian, visitou a casa para tentar convencê-la de que a parceria com o Corinthians era um bom negócio. "Eu era contra, achava que o clube estava sendo vendido. Mas acabei cedendo, porque minha gana era tão grande de tirar o Dualib de lá e eu vi que essa história ia prejudicar ele." Kia saiu quase fugido do Brasil. Marlene o encontrou em Londres e ouviu dele: "Falam que eu sou bandido, mas me roubaram muito no Corinthians". A conclusão de Marlene: "A máfia corintiana pode ser pior que a russa".Depois de circular no Parque São Jorge trocando sorrisos com amigos e inimigos, Marlene finalmente consegue falar com Sanchez. Antes, o presidente desabafa com a reportagem. Está transtornado. Fala das dificuldades de ser um dirigente chamado de ladrão na imprensa, de ser um cara que "não fala direito, come as letra das palavra". Nem parece que acaba de ganhar um título e devolver o time à elite do futebol. "Demiti 38 conselheiros que tinham salário. Você acha que eu sou querido? Por mim, sumia daqui!" Sobre Marlene, é taxativo. "Aposto que ela falou que vai ser minha vice, né? Tenho orgulho de ter resgatado a Marlene, que estava isolada há 20 anos, e de ter lhe dado o que é de direito. Mas ela cismou que eu prometi que ela será minha vice. Não será. Não prometi isso." Ele não quer Marlene como vice porque acredita que renovar o clube inclua tirar alguém de sobrenome Matheus do comando.Perguntada sobre o que aconteceria se fosse traída, Marlene responde, com voz baixa: "Eu vou embora".

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