Jessica Lange
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Entrevista com

Jessica Lange

Paula Sacchetta, O Estado de S. Paulo

07 Fevereiro 2015 | 16h00

Modelo e atriz, sex symbol nos anos 1970, ganhadora de dois Oscars e indicada a outros seis. Quem pensa em Jessica Lange lembra logo da bela loira indefesa nas mãos do gorila gigante King Kong pendurado nas Torres Gêmeas de Nova York. Agora esqueça tudo isso. Aos 65 anos, Jessica chega ao Brasil para mostrar seu trabalho de fotógrafa ainda pouco conhecido. No dia 10, ela abrirá uma exposição individual no Museu da Imagem e do Som, em São Paulo, com 135 fotografias em preto e branco. Falando ao Aliás de New Orleans, onde vive momentaneamente enquanto grava a série de TV American Horror Story, ela comenta a experiência que começou há 20 anos quando ganhou uma Leica do ator e roteirista Sam Shepard, então seu marido, e da paixão que tem pelo México, tema de uma das duas sessões da exposição no MIS.

Qual o tamanho da fotografia em sua vida?

A fotografia é uma constante no meu dia, forma substancial do meu ser, e atua como contrapeso em relação a meu trabalho no cinema. Vejo sem ser vista e meu eu físico se transforma em presença, em sentimento feito de papel. Diante da câmera eu atuo. Atrás dela, me diluo, deixo de ser protagonista e dissolvo meu eu em todos e cada um dos elementos da imagem. A fotografia sempre rodeou meus dias de múltiplas formas e perspectivas. Do ângulo de espectadora, como colecionadora e, há 20 anos como fotógrafa. Além disso, ela faz um contraponto com o cinema, porque é uma experiência privada, íntima, solitária. É como escrever ou pintar: você pode fazer sozinho, bem ao contrário do cinema.

Sua carreira de atriz influencia seu olhar de fotógrafa?

Sem dúvida. Não poderia haver escola melhor que o cinema para observar como a luz é capaz de mudar qualquer discurso. No set, a luz cria. Luz intensa para destacar, luz tênue para esconder. A luz, sempre a luz. Tudo está relacionado e dessa inter-relação, dessa sinergia, da observação e escuta daquilo que rodeia a vida nasce minha obra. Do cotidiano, da superfície, aí encontro a verdade.

Como a fotografia te encontrou?

Comecei a estudar Belas Artes nos Estados Unidos no final dos anos 1960. Meu principal interesse era a pintura, sonhava em ser pintora, mas uma das matérias que eu tinha de fazer era fotografia e aquilo logo atraiu minha atenção. Com a matéria foram organizadas viagens de estudo e graças a isso visitei Holanda, Espanha, França e pude crescer, enriquecendo meus conhecimentos artísticos e fotográficos. Viajei para a velha Europa, conheci seus costumes, visitei museus, mas os caminhos da vida acabaram por me levar a fazer um curso de arte dramática. A fotografia então foi deixada de lado por um tempo, adormecida, mas jamais morta. Sempre fui a encarregada de registrar minha família e tudo que acontecia conosco, mas era outro tipo de fotografia. 

Quando a fotografia adormecida acordou?

Ganhei um presente maravilhoso há 20 anos, uma Leica M6, e ela se converteu em um prolongamento do meu sentir. Mudou minha perspectiva, minha maneira de ver e olhar o mundo e isso se reforçou quando saí à rua com ela. O cotidiano me grudou atrás da câmera. O processo criativo é algo importante e presente em toda minha vida e carreira. A imagem é um reflexo do processo, o último passo de um conjunto de ações, todas fundamentais em si mesmas. E então a câmera virou um prolongamento do meu corpo. É uma relação íntima e pessoal, o único elemento mecânico dentro do meu processo criativo. Capta minhas emoções. Sabe a relação entre um músico e seu violino? É isso que sinto.

E o México? Por que ele é tão presente em sua obra?

O México sempre foi uma referência visual, um lugar ao qual sempre volto, de onde nunca me vou por completo, que vai e vem comigo. Sua luz é única, tão intensa que durante as primeiras horas do dia tenho a sensação de que estou cega. Por isso, exatamente no momento em que o sol decide baixar sua intensidade, para dar as boas-vindas à noite, é quando decido sair com minha Leica. Esse instante me captura, me envolve. Nesse intervalo de fuga da luz me sinto despertar. E então saio, faço perguntas a mim mesma e tudo se transforma em uma coisa mágica. 

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Dia de los muertos México

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