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Endireitar, no bom sentido

A cultura brasileira ia muito bem em todos os setores e com pelo menos um fenômeno internacional em seu crédito, a bossa nova, quando os militares usurparam o poder. Com apenas nove dias de mando, baixaram seu primeiro ato institucional e invadiram o câmpus da modelar Universidade de Brasília. Estava iniciada a guerra santa contra a inteligência nacional, que pelo gosto do comandante da invasão, coronel Darcy Lázaro, teria durado três décadas. "Se essa história de cultura vai-nos atrapalhar a endireitar o Brasil, vamos acabar com a cultura pelos próximos 30 anos", ameaçou o truculento invasor.

SÉRGIO AUGUSTO, O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2014 | 02h10

Passados 30 anos, a cultura brasileira permanecia viva e o coronel, historicamente morto. Àquela altura, quem fazia história era outro Darcy-o antropólogo Darcy Ribeiro, reitor da UnB enxotado pelo xará fardado em abril de 1964. Mas o coronel não foi totalmente esquecido. Se não ganhou uma estátua equestre, ao menos batizaram com seu nome um estande de tiro, no Distrito Federal. Sic transit gloria mundi.

Não foi por falta de empenho que os templários do obscurantismo verde-oliva perderam sua cruzada. Enquanto a UnB era invadida, tocaram fogo no prédio da União Nacional dos Estudantes, depredaram o Instituto de Estudos Brasileiros, ambos no Rio, e criminalizaram o ativismo do Centro Popular de Cultura (Rio e São Paulo) e do Movimento de Cultura Popular (Recife), dois antros de perigosos comunistas, na avaliação do novo regime. Em seguida vieram os expurgos e demissões em massa em colégios e universidades, os inquéritos humilhantes e sem fundamento jurídico, as ameaças, prisões e tortura de intelectuais, jornalistas e artistas; livros foram apreendidos e destruídos, jornais, filmes, peças, músicas e exposições censurados e proibidos.

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Horrorizado, o mais respeitado intelectual católico da época, Alceu Amoroso Lima, desabafou: "Até hoje nunca tive medo do comunismo no Brasil. Agora começo a ter".

Quando beleguins do Dops recolheram numa livraria do Rio vários exemplares do romance O Vermelho e o Negro, de Stendhal, por suspeitá-lo "subversivo", o humorista Sérgio Porto, vulgo Stanislaw Ponte Preta, não se conteve: "A revolução está descambando para o perigoso terreno da galhofa". E deu por inaugurado o Febeapá, o festival de besteiras que começava a assolar o País. E continuaria assolando até depois da morte do humorista, quatro anos mais tarde. De enfarte, esclareça-se.

Ainda havia margem para críticas e gozações aos generais nos primórdios do regime militar. Mas nem por isso a revista de humor Pif-Paf, criada por Millôr Fernandes em 1964, conseguiu suportar as pressões da censura - no oitavo número, bateu mesa. Pif-Paf seria o embrião do semanário O Pasquim (lançado com o AI-5 já em vigor) e Sérgio Porto, seu patrono. Apesar de ameaçado de todas as formas pelo governo e até por atentados à bomba pelas forças de direita, O Pasquim logrou blefar a censura e sobreviver à ditadura. Já uma publicação séria, como a Revista Civilização Brasileira, aguerrida trincheira da intelectualidade liberal e de esquerda, viu-se obrigada a capitular após duas dezenas de edições.

Uma cultura de resistência, manifesta nas imagens ásperas de dois filmes de 1964, Vidas Secas (de Nelson Pereira dos Santos) e Deus e o Diabo na Terra do Sol (de Glauber Rocha), e no show Opinião, espetáculo musicado de contestação criado no ano seguinte por Oduvaldo Viana Filho, Armando Costa, Paulo Pontes e Augusto Boal para o Teatro de Arena do Rio, com Nara Leão (substituída por Maria Bethânia), Zé Keti e João do Vale, indicou um novo rumo para o cinema, a música popular brasileira, o teatro e as artes plásticas. De parâmetros renovados pela pop art e outras vertentes da arte conceitual, a geração de Hélio Oiticica, Rubens Gerchman, Carlos Vergara e Cildo Meireles elaborou estratégias simbólicas e metafóricas para burlar o cerco à liberdade de expressão, aproximar-se de formas criativas mais populares, criticar o mercantilismo e desviar sua mirada para os horizontes do social, do político e do econômico.

A cultura mais viva, portanto, continuou à esquerda do regime, buscando manter-se à margem do sistema vigente de produção e consumo. Glauber Rocha, o Hélio Oiticica do Cinema Novo, fechou com a Estética da Fome, renegando o padrão narrativo das cinematografias hegemônicas. Oiticica, o Glauber das artes plásticas, optou por uma "nova objetividade", descentralizando a experiência estética das galerias e dos museus. Nem todos, mesmo à esquerda, apreciaram de estalo a exuberância alegórica de Terra em Transe (1967), por exemplo. José Celso Martinez Corrêa apreciou e, juntando a fome com a vontade de comer antropofagicamente, montou, na mesma clave, O Rei da Vela, de Oswald de Andrade. A música de Caetano Veloso e Gilberto Gil e a pança de Chacrinha completaram o sarapatel tropicalista.

A geleia geral do tropicalismo foi a mais jubilosa contribuição que oferecemos à reviravolta cultural de 1968. Para tudo se acabar na diáspora provocada pelo AI-5. Bem que Millôr profetizara: "Ainda vamos sentir saudades do governo Castelo Branco". Quando abrimos os olhos, Caetano, Gil, Chico Buarque, Glauber, Ferreira Gullar e outros já haviam partido, como o irmão do Henfil, num rabo de foguete.

Quem ficou ou seguiu a receita que Brecht ensinara aos intelectuais alemães, antes de Hitler assumir o poder ("Num tempo em que você não pode dizer o que quer, continue trabalhando, faça o possível para que, no dia em que haja condições reais de você dizer o que quer, saiba fazê-lo melhor") ou conformou-se com contribuir involuntariamente para o "vazio cultural" que por um tempo desertificou nosso panorama intelectual e artístico.

No início dos anos 1970, antes de também partir para a Europa e dar prestígio internacional a sua Estética do Oprimido, Boal arriscou um palpite: o melhor do teatro brasileiro estaria confinado nas gavetas da censura. Mas quando as gavetas afinal foram abertas, a única obra fora de série que dela saiu foi Rasga Coração, de Oduvaldo Viana Filho.

No vácuo deixado pelo Grupo Oficina, quem mais viço deu à arte cênica foi Antunes Filho, com uma memorável encenação de Macunaíma, de Mário de Andrade, não por acaso a base de outro ponto luminoso nas trevas pós-64, o homônimo filme de Joaquim Pedro de Andrade. Além de nos salvar do marasmo criativo, a antropofagia e o tropicalismo, elas sim, ajudaram a endireitar, no bom sentido, a cultura brasileira.

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