Engenharia estética

Paraibano de João Pessoa, Antonio Augusto Fontes achava que seu destino era ser engenheiro. Filho de um, começou a cursar engenharia mecânica em 1968. Mas no meio do caminho havia um Cartier-Bresson, que o seduziu inapelavelmente, e a técnica perdeu para a estética. Fontes interrompeu o curso e se mandou para os Estados Unidos, onde estudou fotografia, antropologia e história da arte. Na volta, trabalhou nas revistas Veja, Exame e IstoÉ. Morador do Rio, hoje, aos 65 anos, ele diz que vive uma fase de produzir menos e se debruçar mais sobre o que já produziu ao longo de quase cinco décadas de fotografia. Mas a fase também é de pensar a fotografia, como se vê na entrevista a seguir.

CHRISTIAN CARVALHO CRUZ, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2014 | 02h10

O que fotografia e engenharia têm em comum?

O que mais me interessava na engenharia era a postura do engenheiro de ver as coisas de maneira clara e objetiva, dentro de limites. Gosto justamente das fotografias que, apesar de simples e precisas, se tornam enigmáticas, contêm certo mistério. É o claro enigma, como diz o título daquele livro do Drummond. Então, os universos da exatidão e da poesia não são excludentes. É assim que eu penso a fotografia, uma ideia quase minimalista. Como nordestino, me filio à estética de Graciliano Ramos, João Cabral de Melo Neto... Acho que João Cabral, aliás, lançou um agudo manifesto estético com o poema A Palo Seco, que no final diz: "Não o de aceitar o seco / por resignadamente, / mas de empregar o seco / porque é mais contundente".

É o conceito da fotografia direta, ou straight photography, de Walker Evans...

Um dos meus fotógrafos preferidos. As pessoas o interpretavam mal e lascavam nele o rótulo de fotógrafo documentarista. Mas o Evans dizia que não se interessava exatamente pelo documento fotográfico, e sim pela poesia do documento fotográfico. O que me leva a outra questão: por que algumas fotografias permanecem, transcendem, e outras não?

Por quê?

Nunca encontrei resposta pra isso, só suspeitas. Acho que as que ficam são as que passam pelo inconsciente. Essas nós temos vontade de rever. As que passam pelo consciente se perdem. Quando fui morar nos Estados Unidos, nos anos 1970, só se falava de Atget. Eu estava numa pegada de instante decisivo, Bresson, fotojornalismo. Mas era tanto Atget pra cá, Atget pra lá que fui a uma biblioteca ver as fotos dele. Não achei nada demais aquele monte de ruas vazias, uma coisa enfadonha. Mas à noite, na cama, me peguei pensando nas imagens que tinha visto. De repente elas não me saíam da cabeça, eu estava impregnado. O silêncio que elas transmitiam me tocou demais, e mais tarde veio a ser importante na minha fotografia.

Talvez a resposta esteja no tempo mesmo. Precisamos dele. Precisamos sair da biblioteca e voltar para casa, ir dormir, para começar a vislumbrar o mistério de certas imagens...

Por isso defendo a ideia da imagem em estado de latência. Acho fascinante a facilidade que as pessoas têm hoje para fotografar suas vidas e o mundo a seu redor. Mas me preocupa a questão da permanência. Me pergunto às vezes qual o sentido de ser fotógrafo hoje se tanta gente fotografa tudo o tempo todo. Um dia precisei preencher uns papéis e perguntaram minha profissão. Quando eu disse "fotógrafo", a pessoa se espantou: "Só?" Ainda dou valor ao processo antigo, ao laboratório, o processo químico de transformar uma coisa noutra. Fotografia é alquimia. O laboratório me ajuda nesse tempo lento que a fotografia pede. Já reparou que a palavra laboratório é formada por "labor" e "oratório"? Trabalho e oração. Ou seja, um lugar de recolhimento e introspecção, de olhar para o próprio trabalho com demora, deixá-lo descansar para depois voltar a ele... Porque quanto mais fotografias produzimos, menos compreendemos a fotografia.

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