Bel Pedrosa/Todavia
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'Enquanto os Dentes' revela o drama de quem vê o mundo de baixo

Romance de estreia de Carlos Eduardo Pereira aborda, entre outras, a questão da deficiência física

João Prata, O Estado de S.Paulo

24 Fevereiro 2018 | 16h00

Enquanto os Dentes, romance de estreia de Carlos Eduardo Pereira, pode ser lido de uma vez só. São 96 páginas de uma narrativa que flui precisa em meio as dores e dificuldades do cadeirante Antônio. O protagonista beira os 40 e há quatro anos, dez meses e vinte e oito dias passou a se locomover em cadeira de rodas. 

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O livro se passa durante um dia chuvoso em que Antônio está de mudança de seu antigo apartamento para a casa dos pais. Ele precisa cruzar a baía de balsa, seguir um caminho que ele não quer ir, em uma cidade que ignora quem não anda. 

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Antônio possui péssima relação com o pai (não o vê há duas décadas) e mantém apenas contato por telefone com a mãe. O pai ele chama apenas por Comandante. É um sujeito autoritário, branco, que fez carreira na Marinha e espancava o filho na infância por motivos banais. A mãe é negra, religiosa e vive presa na rotina de casa, a mercê do marido: “prepara o almoço feito um robô japonês reproduzindo o cardápio predeterminado, como frango grelhado às segundas ou peixe frito às quartas”.

O relato é feito em terceira pessoa e poderia dar certo distanciamento do protagonista. Mas como tudo é revelado a partir do olhar de Antonio, o leitor consegue vivenciar a rotina de quem passou a enxergar “tudo por baixo”. E a partir daí o mundo fica mais hostil. 

As tradicionais, belas e traiçoeiras calçadas de pedras portuguesas, cheia de irregularidades, a inexistência de banheiros públicos adaptados e a dificuldade para encontrar meios de transporte onde caibam um cadeirante são alguns dos obstáculos a se enfrentar. Carlos Eduardo Pereira, nascido em 1973 e cadeirante desde 2010, também chama a atenção para o incômodo que é ser visto como deficiente. 

“Na rua, as pessoas vivem olhando para Antônio. E ele sorri. É de se imaginar o que elas pensam ao cruzar com um cadeirante desacompanhado. Tem gente que basta topar com um infeliz numa cadeira de rodas que logo se oferece para prestar algum tipo de ajuda. Geralmente os que não podem nem consigo mesmos.” 

A viagem da antiga casa onde viveu os melhores momentos da vida até o local onde era reprimido na infância é solitária. As dores são remexidas o tempo inteiro. As físicas, de um corpo que está a maior parte do tempo na mesma posição. “Doem os braços, as mãos e as costas, sobretudo o lado esquerdo, ele não sabe o porquê.” 

E as sentimentais, de suas memórias que entremeiam essa jornada. Antônio foi obrigado a seguir carreira militar, fez a Escola Naval enquanto aguentou. Planejou de maneira minuciosa sua saída, se matriculou no curso de Filosofia e foi morar sozinho. Desde então, parou de falar com o pai. Nesse período a vida passou a sorrir para Antônio. Ele conseguiu se dedicar à pintura e à fotografia e conheceu Arnaldo, a única grande paixão de sua vida. O acidente aconteceu quando moravam juntos e Antônio prestes a realizar a primeira exposição. 

A cadeira de rodas transformou sua vida. Precisou adaptar a casa à sua nova altura, se afastou dos amigos, os trabalhos tornaram-se mais difíceis, teve que vender o que tinha de algum valor e, enfim, o beco sem saída e o retorno para a casa dos pais. 

Enquanto os Dentes coloca em pauta a violência escondida dentro de casa, a hostilidade pouco debatida na relação familiar, o sofrimento de quem está no limite e não grita. Antônio enfrenta todas as adversidades calado. Não se revolta com o pai, não reage aos dramas enfrentados na rua e evita qualquer discussão com a mãe. Também não há redenção em seu sofrimento. Antônio não se enquadra na preestabelecida tradicional família brasileira e muito menos sente-se acolhido na cidade onde vive. Antônio é um problema para a atual sociedade, que não faz nada ou o que faz é muito pouco para resolvê-lo. 

A estreia de Carlos Eduardo Pereira na ficção é fundamental para colocar em pauta a falta de acessibilidade no país. Torna-se mais uma voz a tocar nesse assunto, que hoje na literatura conta com Marcelo Rubens Paiva e no Congresso por Mara Gabrilli, dois cadeirantes. É preciso também fazer ressoar agora em quem movimenta as pernas.

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