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IARA MORSELLI / ESTADAO
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Ensaios de Benzaquen são eruditos e populares

Livro 'Zigue-zague', do historiador e antropólogo, morto em 2017, reúne textos tanto sobre Shakespeare como Paulinho da Viola

André Jobim Martins , Especial para o Estado

02 de janeiro de 2021 | 16h00

Roland Barthes escreveu uma vez que, ao ouvir o tagarelar de crianças chinesas, a ele incompreensível, ocorreu-lhe a impressão de ouvir o rumor da língua. O rumor: som que daria corpo a uma espécie de configuração ideal da linguagem, constante, agradável, eventualmente até erótico, não num sentido sexual, mas no de exercer atração pela sua energia vital. Foi um pouco essa a impressão que tive quando li pela primeira vez alguns dos ensaios de Ricardo Benzaquen agora reunidos na coletânea Zigue-zague (Editoras Unifesp e PUC-Rio). Impressão que, para ser superada na forma de algo próximo de uma verdadeira compreensão, não me obrigou a dominar o mandarim, mas exigiu o aprendizado gradual de uma língua, ou melhor, de certo enquadramento da vida característico do historiador, do antropólogo, do sociólogo, enfim, do pensador singular que foi Ricardo.

Zigue-zague compreende uma coleção de textos aparentemente heteróclita: há um conjunto de textos sobre pensadores brasileiros, um trio de ensaios dirigidos ao debate sobre as relações entre historiografia, ficção e narrativa, travado no interior do campo da teoria da História (que nada deixam a dever a reflexões europeias e anglo-americanas da mesma época), e até incursões sobre objetos artísticos, incluindo um texto sobre Romeu e Julieta (escrito em coautoria com Eduardo Viveiros de Castro) e uma inspirada reflexão sobre Paulinho da Viola.

É tentador remeter essa amplitude incomum de interesses a alguma forma de diletantismo ou às “esquisitices” comumente associadas aos historiadores, sempre preocupados com minúcias de tempos passados por razões que costumam ter alguma coisa de gratuito. E essa leitura não é, a rigor, incorreta, afinal, a própria figura de Ricardo não andava muito longe desse estereótipo. Mas não posso deixar de notar que, por outro lado, há uma estrutura profunda de afinidades que sustentam a unidade deste belo livro.

No penetrante prefácio de Hans Ulrich Gumbrecht a Zigue-zague, lê-se que Ricardo escrevia num estilo oral, conversador, aparentemente despreocupado de um eixo argumentativo rigoroso, e que mesmo suas exposições escritas concluem de maneira mais ou menos aleatória. O comentário é certeiro e reflete o domínio excepcional que Ricardo desenvolveu da forma do ensaio – que é também, em versão alargada, a de sua tese de doutorado sobre Gilberto Freyre, Guerra e Paz (Ed. 34). Mas, para fazer uma apresentação mais orientada para o caráter propriamente especulativo e, por que não, científico, dos textos, creio que valha a pena forçar um pouco os olhos e, talvez à revelia do estilo intelectual do próprio Ricardo, e também na contramão dos comentários que surgiram desde seu desaparecimento em 2017, identificar de modo mais ou menos sistemático alguns fundamentos de sua reflexão.

Os textos de maior fôlego se movem em torno de um objeto ou de um conjunto restrito, e percorrem uma determinada questão, que vai se desdobrando num conjunto de sub-questões. Peço a licença dessa descrição banal de qualquer texto argumentativo para destacar que, em Ricardo, essas questões são conduzidas quase insensivelmente na forma do aprofundamento de categorias ou representações efetivamente vigentes na organização da cultura, terminando numa espécie de construção explicativa, tal como ele se apresenta diante da questão, em miniatura (isto é importante: elas nunca são totalizantes ou exaustivas, e os ensaios são geralmente curtos, às vezes curtíssimos). Exemplo: Ricardo acompanha, na poética de Paulinho da Viola, a oscilação do sambista entre posições de afirmação da autodeterminação da existência individual (“O meu ideal se resume/em ter meu destino na palma da mão”, em Pra jogar no Oceano) e de aceitação da natureza casual da vida (“Não sou eu quem me navega/Quem me navega é o mar”, em Timoneiro), mobilizando o mesmo esquema simbólico (a antítese terra/mar, com todos os seus diversos e surpreendentes corolários semânticos), chegando a um certo ideal conciliatório de “prudência” diante do sentimento trágico da vida, que se exprime de forma exemplar em “Argumento” (“Faça como o velho marinheiro/Que durante o nevoeiro/Leva o barco devagar”).

Não estamos, como na sociologia compreensiva weberiana, diante de uma investigação ideal-típica direcionada à construção de um modelo operacionalmente plausível da realidade, mas sim, voltando a Gumbrecht (em outro ponto do livro, onde está transcrito um debate sobre um texto de Benzaquen), do esboço de uma “tipologia da compreensão humana”. Ricardo Benzaquen se interessava fundamentalmente por uma ciência onde os textos não tivessem como destino a acomodação a uma teoria geral da linguagem e da cultura previamente dada, mas antes se entrelaçassem formando, por meio da ocorrência, em seu interior, das categorias por ele iluminadas, uma teia potencialmente infinita de significados.

Disposição analítica rara entre cientistas sociais, historiadores e críticos literários brasileiros, mas que se aproxima notavelmente de uma de suas referências favoritas: a sociologia formal de Georg Simmel. Naturalmente, a formação de Ricardo em antropologia, na qual Lévi-Strauss parece ter desempenhado um papel especialmente destacado, foi crucial para que ele pudesse realizar com tanto desembaraço e clareza suas finas análises textuais, que apresentam, não por acaso, na forma de pequenas digressões, uma série de pequenos esquemas da cultura reminiscentes da melhor literatura etnológica – somos lembrados da leitura de Tristes Trópicos, mas sem o pedantismo engravatado do francês.

À diferença, porém, do estruturalista, as ambições explicativas da ciência de Benzaquen são muito mais circunscritas, ainda que nem por isso modestas: caminhando pelos mais inusitados desvãos dos textos, Ricardo nos conduz por diversos motivos da vida, como a melancolia, as histórias de assombrações e até o humor escatológico, que são iluminados em toda a sua dignidade como elementos estruturantes da cultura. Não se trata de um estilo de investigação linguisticamente centrado como o da “virada” hoje um pouco deslustrada ocorrida quase simultaneamente nas filosofias francesa e analítica no pós-2ª. Guerra, mas de um mergulho, através dos textos, pelas lógicas próprias das coisas e das ideias que as articulam. Esse me parece ser o conteúdo daquilo que, voltando ao prefácio de Gumbrecht, se poderia chamar o “realismo” muito particular de Ricardo Benzaquen.

O resultado desse esforço parece ser o de anunciar, ainda que com a discrição auto-irônica típica de Ricardo, uma solução, ainda que sempre provisória e direcionada a objetos individuais, para a alternativa entre contextualismo (social ou histórico) e formalismo na análise literária e na história intelectual. Quando os motivos e tipos se cristalizam no interior de um texto, com sua lógica própria desnudada por uma leitura cuidadosa, que estabelece o valor e os modos das relações que se estabelecem entre seus elementos, o problema quase que já não se coloca – a interpretação é, ela própria, um desdobramento sintético do contexto mediado pela obra. Seja como for, o certo é que as histórias de Ricardo Benzaquen, contadas em tom de conversa, às vezes quase fofoqueiro, não são de intelectuais ou mentalidades, mas, no sentido mais amplo e democrático possível, de ideias.

 

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