Andrea Barbiroli/Estadão
Andrea Barbiroli/Estadão

Ensaios inéditos de Umberto Eco tratam da intolerância

Pensador italiano previu a onda de migração em massa em direção à Europa

Elias Thomé Saliba, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2020 | 05h00

Todos conhecem a divertida passagem de O Ingênuo, de Voltaire, na qual o índio Hurão, que havia deixado a América para visitar a Inglaterra, é quase forçado a passar pelo rito da confisssão com um frade, após este impingir-lhe a epístola de S.Jacques: “Confessai-vos uns aos outros”. Terminada a confissão, o hurão obriga o frade a trocar de lugar com ele, e colocando-o de joelhos anuncia que o religioso também não sairia dali até que confessasse todos os seus pecados. Esta passagem é um chamariz para Experiências de Antropologia Recíproca, um dos quatro ensaios, sendo dois deles inéditos, de Umberto Eco, reunidos em Migração e Tolerância.

Como são ensaios derivados de intervenções e conferências, realizadas entre 1997 e e 2012, vemos um Eco muito mais à vontade, sem perder a verve, fluência e a erudição que caracterizam sua obra. Suas referências históricas surpreendem: para exemplificar como diferentes civilizações criam seus próprios calendários e respectivas teogonias - e que a cristã é apenas uma entre muitas - retira lá do século 17, o obscuro herege Isaac de la Peyrère, que revelou que cronologias chinesas eram muito mais antigas que as hebraicas, aventando a hipótese de que o pecado original envolvesse apenas a posteridade de Adão, mas não de outros povos, surgidos muito tempo antes. 

Num dos ensaios mais incisivos, Eco procura mostrar que a intolerância quase sempre vem antes de qualquer doutrina, ou seja, a intolerância já existe difusamente na vida cotidiana e alcança até alguma popularidade, antes de se constituir em seitas fundamentalistas, como o integrismo ou o racismo pseudocientífico. A intolerância – argumenta – chega mesmo a ter raízes biológicas, manifesta-se entre os animais como territorialidade, baseia-se em relações emocionais, muitas delas completamente superficiais, mas renitentes: não suportamos os que são diferentes de nós porque têm a pele de cor diferente, falam uma língua que não compreendemos, ou porque comem rãs, cães, macacos, porcos, alho, ou são tatuados. Assim, não são as doutrinas da diferença que produzem a intolerância selvagem, ao contrário, estas desfrutam de um fundo preexistente de difusa intolerância. Foi assim que o antissemitismo pseudocientífico surgiu no decorrer do século 19 e acabou transformando-se em antropologia totalitária e na mais perversa prática industrial do genocídio no século 20. Porém, não poderia ter nascido se já não existisse um antissemitismo popular, já fortemente disseminado – e dissimulado - nos séculos anteriores. Com exemplos curiosos colhidos do universo medieval e mesmo do mundo renascentista, Eco demonstra que todas as teorias e doutrinas da intolerância apenas nasceram e exploraram um ódio pelo diferente que já existia. Escrevendo em 2012, Eco observa, de forma presciente, que o novo fenômeno do antissemitismo não é uma doença marginal que afeta apenas uma minoria lunática, mas o fantasma de uma obsessão milenar. 

Eco não menciona diretamente o conto de Voltaire, mas o episódio serve como inspiração para definir o que ele chama de antropologia recíproca: não mais uns (ativos) observando outros (passivos), mas uns e outros como representantes de culturas diversas analisando-se face a face e mostrando como podemos reagir de maneiras diferentes, aprendendo com a diversidade. Hoje, como ontem, é tarefa difícil lutar contra a intolerância selvagem, porque diante da animalidade pura o pensamento esmaece. Pior ainda quando a intolerância se faz doutrina: aí já é muito tarde para vencê-la, e aqueles que deveriam fazê-lo tornam-se suas primeiras vítimas. Muito desta onda de intolerância acaba se deslocando para as migrações em massa, as quais, sobretudo em relação à Europa, tornam-se fenômenos incontroláveis que Eco, escrevendo em 1997, conclui com um notável prognóstico: “no próximo milênio( e como não sou profeta não posso especificar a data), a Europa será um continente multirracial ou, se preferirem, ‘colorido’. Se lhes agrada, assim será; se não, assim será da mesma forma.” 

Afinal, o migrante, seja ele quem for e de onde vier, sofre na pele o trauma do dezenraizamento, mas também ensina lições novas e aquela singular diversidade que cresce e se fertiliza, ao eliminar fronteiras entre o estranho e o conhecido. O que faz lembrar da frase de Hugues de Saint Victor, a qual noutra obra, Eco traduziu direto do latim: “Quem acha sua pátria doce é ainda um tenro aprendiz; quem acha que todo solo é como o nativo, já é forte; mas, perfeito é aquele para quem o mundo inteiro é um lugar estranho”. 

Elias Thomé Saliba é historiador, professor titular da USP e coordenador do site: humorhistoria.wordpress.com

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