Magical Pride/Facebook/Divulgação
Magical Pride/Facebook/Divulgação

Entenda como a Disney virou alvo dos republicanos por apoiar causa LGBT+

Império, que já foi sinônimo do modo de vida americano, está na mira dos ultraconservadores

Jerônimo Teixeira, Especial para o Estadão

18 de junho de 2022 | 16h00

A empresa que se tornou um gigante multinacional oferecendo diversão familiar está em guerra contra os autopropalados defensores da família tradicional. No início de março, a Companhia Walt Disney posicionou-se contra um projeto de lei do estado da Flórida que proíbe o ensino de educação sexual e de questões de gênero para crianças pequenas em escolas públicas. No fim daquele mês, a lei foi sancionada por seu mais ardente apoiador, Ron DeSantis, o governador republicano da Flórida. Dedicado discípulo do ex-presidente Donald Trump e de sua política de perene confronto ideológico, DeSantis decidiu então atacar o reino do camundongo Mickey. Rescindiu privilégios fiscais que há mais de 50 anos seu estado oferecia aos parques e instalações turísticas do Walt Disney World. 

A queda de braço entre o governo da Flórida e a Disney expõe uma curiosa virada política: fundada por um self made man conservador, a Disney, que já foi considerada a ponta de lança do imperialismo cultural ianque, agora firma posição à esquerda do campo de batalha. Ocorre que a esquerda não é mais a mesma, e nem a direita. O episódio da Flórida demonstra que as mudanças pelas quais ambas passaram neste século envenenam o debate público.

Nos anos 1960 e 1970, era da contracultura, dos protestos contra a Guerra do Vietnã e de um radicalismo jovem que idealizava criminosos políticos como Fidel Castro ou Mao Tsé-Tung, Mickey Mouse disputava com a Coca-Cola o lugar de símbolo maior do detestado American way of life. Um livro representativo desse antiamericanismo é Para Ler o Pato Donald, publicado em 1971, no Chile, em que seus autores, o sociólogo belga Armand Mattelart e o escritor e professor de literatura argentino Ariel Dorfman, acompanhavam com entusiasmo o governo socialista de Salvador Allende.

A obra submete as histórias em quadrinhos da Disney a uma dura análise marxista. Matterlart e Dorfman têm seus acertos críticos, embora estes sejam mais óbvios do que parecem imaginar. Tal é o caso, por exemplo, quando eles denunciam a natureza estática e conformista do mundo social do ricaço Tio Patinhas e de seu sobrinho pobretão, Donald. Mais grosseira é a tese, defendida no livro, sobre a manipulação das massas ingênuas pela insidiosa Disney: os quadrinhos do Pato Donald, sugere a dupla de autores, foram projetados para divulgar a ideologia capitalista e assim desviar o proletário de sua missão histórica, que é “acabar com as bases da economia burguesa e abolir a propriedade privada”. Longe de serem diversão inocente, as histórias do Pato Donald transformam crianças e adultos em “rodas na engrenagem repetitiva do consumo”. 

Mattelart e Dorfman recriminavam a ausência do proletariado na cidade de Patolândia. Ainda hoje, as produções dos vários estúdios abrigados pela gigantesca Disney – Disney, Pixar, Marvel e Lucasfilm, para citar só os mais vistosos – quase nunca mostram seus heróis trabalhando em linhas de produção industrial. No lugar do rude operário, a Disney descobriu novos heróis, mais afinados à sensibilidade progressista do século 21. Com a diversidade e a representatividade como norte, esforçou-se para colocar minorias étnicas no centro da tela. Daí saiu, entre outras boas produções, o fenômeno pop Pantera Negra

Há o lado escuro da força: a Disney também tornou-se suscetível às práticas censórias da chamada esquerda woke (literalmente, “desperta, acordada”), que, obsessivamente identitária, dedica-se a escrutinar o que celebridades e artistas dizem e fazem para acusar qualquer indício, real ou imaginado, de racismo, homofobia, transfobia. Gina Carano, atriz de The Mandalorian, série do universo Star Wars disponível na plataforma Disney+, caiu em desgraça com essa turma. Nas redes sociais, ela criticou o movimento Black Lives Matter e se opôs ao uso obrigatório de máscaras durante a pandemia. Essas opiniões alinhadas à direita trumpista levantaram a grita – de novo nas redes sociais, claro – para que ela fosse demitida. A Disney encontrou o pretexto para tanto em uma postagem na qual Gina comparou a perseguição que estaria sofrendo à ascensão do nazismo – uma analogia torta e tola, mas uma razão débil para a demissão. A Disney apenas confirmou que a atriz estava, sim, sendo perseguida por suas opiniões dissidentes. 

Na chamada guerra cultural que vem separando esquerda e direita em polos incomunicáveis, os dois campos brigam sobretudo por questões morais e comportamentais. Prevalece uma preocupação bizantina com escolhas vocabulares, e os dois lados têm sua lista de palavras que desejam apagar. A nova legislação da Flórida que detonou a disputa entre o governo republicano e a Disney carrega uma mal-disfarçada tentativa de censurar temas sensíveis nas escolas. Oficialmente intitulada "Lei dos Direitos dos Pais sobre a Educação", ela foi tachada pela militância LGBT+ de “Lei Não Diga Gay”. O apelido desvirtua o espírito da lei, dizem seus defensores, pois o texto proíbe que se trate de orientação sexual e de identidade de gênero somente do jardim de infância até o terceiro ano do ensino fundamental.

Na verdade, porém, a lei veta esses temas também nos anos seguintes, se forem ensinados de forma “não apropriada à idade” dos alunos – uma formulação vaga e imprecisa, que pode induzir professores a silenciar qualquer palavra sobre sexo. Seguindo o exemplo da Flórida, pelo menos uma dúzia de estados americanos estão planejando coibir a educação sexual nas escolas por meios legislativos. DeSantis está em busca da reeleição neste ano, e a notoriedade de sua lei permite que ele sonhe em concorrer à presidência em 2024.

Bob Chapek, CEO da Companhia Walt Disney, a princípio quis esquivar-se da controvérsia, alegando que um posicionamento público da empresa só inflamaria os ânimos “de ambas as partes". Funcionários da Disney engajados em causas LGBT+ não o perdoaram por esse reconhecimento de um outro lado: no espírito intransigente da guerra cultural, a militância só admite a legitimidade de posições defendidas por seu próprio campo político. Mas esse grupo de funcionários também levantou incoerências nas práticas da Disney, que se diz compromissada com a inclusão LGBT+ mas em 2018 doou cerca de US$ 100 mil para a campanha de DeSantis (também fez, é verdade, doações para o Partido Democrata). Houve ainda reclamações sobre limitações criativas: personagens LGBT+ propostos pelas equipes de animação estariam sendo vetados pelos executivos – o protagonista gay de Segredo Mágico, curta-metragem da Pixar, seria a exceção isolada. Pressionado, Capek foi a público criticar a lei de DeSantis.

Foi então que o governador e seus aliados no legislativo estadual moveram-se para cassar os privilégios que a Disney obtivera em 1967, como incentivo para erguer na Flórida aquele que ainda hoje é seu maior complexo turístico, o Walt Disney World, inaugurado em 1971.

O estado não concedeu só isenções de impostos: deu à companhia um distrito independente de 100 quilômetros quadrados no qual a Disney tem autonomia administrativa. A rejeição de tais bondades oferecidas ao big business seria mais típica de um governo de esquerda. Está claro, porém, que os republicanos cancelaram os privilégios da Disney por retaliação, não por princípio. Essa medida casuísta criou confusão. Dois condados da Flórida devem absorver os territórios que pertenciam ao soberano Mickey, e ninguém sabe ao certo se eles terão de abraçar os títulos da dívida do distrito, ou se estes permanecerão a cargo da Disney. A conta total fica em torno de US$ 1 bilhão.

Resta qualquer coisa fora do lugar quando uma grande empresa de entretenimento é cobrada a se posicionar sobre assuntos que não são de sua alçada. E é assustador que, em uma democracia, essa corporação seja perseguida pelo governo por tomar tal posição. Educada pelos linchamentos morais em rede social, a esquerda woke deseja politizar tudo e todos, e a direita reacionária lhe faz eco, em um círculo vicioso no qual a militância irracional retroalimenta a irracionalidade militante. O debate político segue dominado não por quem argumenta melhor, mas por quem grita mais alto.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.