Entre a abstinência e o espetáculo

É significativo que não faça parte do debate sobre o celibato a essência da questão: a função do sagrado na castidade

José de Souza Martins*, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2007 | 22h14

A quebra eventual do celibato sacerdotal católico é um desses temas secundários da modernidade que entrou no rol de diversões freqüentes desta sociedade do espetáculo. A problemática exposição da sexualidade dos padres, em episódios sempre dolorosos para os envolvidos, aí incluída a própria Igreja, acaba se dando na pauta do falso pressuposto de que os padres deveriam ser assexuados para exercer o sacerdócio. Sociedade tendente à religiosidade nominal e difusa, diverte-se, intolerante, com as diferenças e a diversidade que a constituem e lhe são até contraponto crítico, como é o caso do sacerdócio. É significativo que a essência da questão do celibato não entre no debate, que é a questão do sagrado, de que é ele instrumento, e da função social e simbólica que no sagrado tem a castidade. Ou, ao menos, seu resíduo ritual que é a abstinência sexual nos períodos mais críticos do sagrado, não só na cultura católica, mas na cultura cristã em geral e nas culturas religiosas de várias sociedades. Todos os que exercem funções sacerdotais nas diferentes religiões, e não só os padres, são objeto de cumprimento da mesma expectativa de observância da castidade, da abstinência ou, ao menos, da temperança na sexualidade. Na compreensão do tema, além da relevância do sagrado no celibato, existem as exceções. Aqui mesmo, na Arquidiocese de São Paulo, já tivemos, no último meio século, bispo católico, apostólico e romano casado, com descendência de filhos e netos, bispo reconhecido como tal por três papas. Foi o caso de dom Salomão Ferraz. De tradicional família protestante, que ofereceu a sua igreja notáveis pastores, foi pastor presbiteriano e como tal casou e teve filhos. Com o cisma de dom Carlos Duarte Costa, bispo de Maura, antigo bispo da Diocese de Botucatu, que fundou a Igreja Católica Apostólica Brasileira, em 1945, converteu-se ao catolicismo e foi ordenado bispo da igreja cismática no mesmo ano. Quando o Vaticano procurou atrair de volta os católicos do cisma, dom Salomão Ferraz fez parte do grupo que retornou ao seio da Igreja de Roma, ainda no tempo de Pio XII, e foi admitido em 1958. Teve sua ordenação episcopal reconhecida, pois resultara da imposição de mãos por bispo consagrado. Nessa condição, quando já era avô, participou do Concílio Vaticano 2º, sob João XXIII, e foi designado para uma comissão do concílio por Paulo VI. Matrimônio e paternidade não representaram obstáculo para sua assimilação no sacerdócio católico e nos ritos da Igreja. Não foi diferente da situação, mais recente, do acolhimento dos sacerdotes casados da Igreja Anglicana, pela Igreja Católica, quando decidiram deixar sua igreja por discordarem da então iniciada ordenação sacerdotal de mulheres. Na Diocese de Lungro, na Calábria, há sacerdotes casados. Diocese católica, constituída de fiéis historicamente originários da Igreja do Oriente, Roma aceitou e preservou seus costumes e ritos. Tivemos, também, padre casado perante o Estado e a Igreja, o dr. Vicente Melillo, viúvo, que foi ordenado, aos 83 anos de idade, pelo próprio filho, dom Aníger Francisco de Maria Melillo, bispo de Piracicaba, a pedido do cardeal dom Agnelo Rossi.A Igreja Católica Apostólica Romana se divide, como se sabe, entre a Igreja de rito latino e a Igreja dos 15 ritos orientais. Na Igreja Latina, desde 1967 casados podem ser ordenados diáconos e o têm sido, em número crescente. Eles podem batizar e celebrar casamentos. Na Igreja Oriental, casados podem ser ordenados presbíteros. Nas duas, casados não podem ser ordenados bispos. Esquecemo-nos, portanto, de que, além da intrínseca relação do celibato com o sagrado, o celibato tem atenuantes formais no catolicismo, relativas às gradações no trato sacerdotal do sagrado. O catolicismo romano não é a única religião a preconizar alguma forma de celibato, mesmo temporário, a seus celebrantes, justamente por conta das particularidades do mundo do sagrado, como mundo antípoda do mundo carnal. É nessa tensão que em diferentes sociedades se constitui o propriamente social e humano. A sociedade se funda nela e não só as igrejas e as religiões. É nesse contexto que se põe o crucial problema dos padres casados. Ordenados, são sacerdotes para todos os efeitos. Casados depois da ordenação, estão interditados para o exercício do ministério religioso. A maioria deles optou pelo casamento entre os 45 e 60 anos de idade, depois, portanto, de terem oferecido à obra da Igreja o melhor de sua juventude, quando maior era a possibilidade do clamor do propriamente carnal. Casaram, portanto, maduros e, do que se sabe e como era de esperar, constituíram famílias exemplares que são expressão de paternidade responsável, conforme a doutrina e os mandamentos. É no celibato fingido que surgem os problemas de degradação e crise da instituição e do próprio sagrado. O retorno cíclico da discussão sobre o celibato expõe, no que omite, aspectos problemáticos da modernidade e da secularização da sociedade e não da religião. A coerência da secularização, um dos pilares constitutivos da modernidade, depende de que se difunda como expressão da liberdade de consciência, preservando, em nome dessa mesma liberdade, o espaço de afirmação de particularidades de opção individual e cidadã e diversidade de mentalidades e tradições, como é o caso do celibato sacerdotal. A modernidade deixará de ser híbrida e vacilante, como tem sido, e será propriamente moderna quando encarar as funções sacerdotais como nicho de sacralidade e não como arcaísmo. A prática das diferentes igrejas e religiões, quanto ao celibato, e das próprias igrejas sob autoridade do papa, mesmo a do rito latino, é indicativa de que a questão crucial da relação entre a sexualidade do sacerdote e o sagrado não exige o celibato obrigatório. O problema, portanto, não é esse. O problema é saber o que a sociedade moderna fará com o sagrado persistente e constitutivo do social, que é também refúgio dos aflitos. * José de Souza Martins é professor titular de sociologia da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo

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