Entre a casa e a rua

Para o autor de ?Carnavais, Malandros e Heróis?, o rito da folia oferece uma interpretação possível do País

Flávia Tavares e Rinaldo Gama, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2009 | 02h50

O que faz o Brasil, Brasil? Em busca da resposta para essa ambiciosa pergunta, o antropólogo Roberto DaMatta publicou, em 1979, um livro cujo destino, como se comprova hoje, era alinhar-se em uma das prateleiras mais altas da estante das interpretações do País: Carnavais, Malandros e Heróis - Para uma Sociologia do Dilema Brasileiro. Como o título explicita, a obra partia de um daqueles rituais considerados "ópio do povo" pelos opositores do regime militar então vigente - ao lado do futebol, por exemplo - para tentar uma explicação daquilo que somos. Três décadas depois do lançamento, mudou o carnaval ou mudamos nós? "O clima político mudou para melhor, mas os dilemas nacionais persistem. Continuamos com duas éticas conflitantes: uma da casa (significando harmonia, calma) e outra, da rua (o mundo, com seus imprevistos)" , analisa DaMatta, 72 anos, na entrevista a seguir. "Falta-nos uma politização adequada entre obedecer à lei e dar o jeitinho para favorecer ?inocentemente? os amigos", acredita. Para DaMatta, também colunista do Estado, o carnaval é uma festa multicêntrica e sem dono. Além disso, argumenta ele, o modelo de carnaval do País "traduz como o poder se manifesta aqui: essa reversão de papéis", uma licença que, uma vez por ano, faz "subir o pobre (como aristocrata ou deus) e o marginal, que legitima o canalha procurado pela polícia e financiador de escolas e desfiles". São quatro dias para se "deixar as mágoas pra trás", conforme diz aa letra de Pelo Telefone (de Donga e Mauro de Almeida), o primeiro samba gravado no Brasil, que ainda comemorava: "Ah! ah! ah!/Aí está o canto ideal, triunfal/Ai, ai, ai/Viva o nosso carnaval sem rival". Mais do que "sem rival", a manifestação, segundo DaMatta, "permitiu que a gente amasse de fato o Brasil".O que mudou na sociedade brasileira desde o lançamento de ?Carnavais, Malandros e Heróis?, em 1979? Podemos falar em novos dilemas do País?Bem, mudou radicalmente o clima político. Há 30 anos, vivíamos uma ordem política ainda caracterizada pelo autoritarismo e pela censura; havia gente perseguida e a esquerda era um símbolo de honestidade, imaginação, esperança e resistência. Hoje, ela está no poder e, nesse sentido, convergiu com a direita. Isso para não falar da segmentação do PT. De um lado, a ideologia; de outro, o populismo do presidente Lula, que tem um discurso para cada plateia. Em 1979, o livro rompia com tabus: como estudar um ritual que era visto - paralelamente ao futebol - como o "ópio do povo"? Como tratar do Brasil por meio do carnaval, do rito de autoridade do "você sabe com quem está falando?" e de personagens populares, malandros ou santos - como Pedro Malasartes (protótipo do Leonardo Filho do livro Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida, e dos espertalhões brasileiros que ficam ricos enganando todo mundo) e Augusto Matraga, personagem de Guimarães Rosa, cuja figuração histórica é certamente Antônio Conselheiro? Um dos impactos do livro foi a retomada de um viés interpretativo que havia desaparecido: o da sociologia. Não é um trabalho em cima de um inquérito. Resumindo, o clima político de lá para cá mudou para melhor - hoje posso falar o que quero sem problemas -, mas os dilemas nacionais, como a ausência de uma politização adequada entre obedecer à lei e dar o jeitinho para favorecer "inocentemente" os amigos, continuam. Temos éticas conflitantes: uma da casa e outra, da rua.Esse conflito é uma particularidade brasileira?É universal, mas no Brasil não se debate isso. A ausência de discussão entre a casa e a rua, seus limites e - importante - zonas de atrito, está nas páginas dos jornais e ainda não foi encarada de modo aberto, como uma questão sociológica.Os políticos costumam tentar se "apropriar" de rituais populares como o futebol e o carnaval. O presidente Lula, por exemplo, deve comparecer pela primeira vez ao sambódromo. Como analisar isso?Entre carnaval e política há uma enorme incompatibilidade. No caso do futebol, não se pode saber do resultado antes do jogo; assim, o político sempre busca se apropriar da vitória. Pois bem: com o carnaval é mais complicado, porque se dissolve a autoridade. Ele é desenhado contra a hierarquia. Itamar Franco, quando foi à avenida, se desmoralizou (foi fotografado, em 1994, ao lado de uma modelo que não usava roupa íntima). Se um político se aproxima muito do jogo carnavalesco, corre o risco de se desmoralizar. Então, o que houve no Brasil foi uma apropriação formal do carnaval; não dá para mexer muito no conteúdo.O carnaval brasileiro representa um ritual de autoexaltação, em que a sociedade perde a medida real de suas dimensões e do contexto do mundo em que vive (mergulhado em diferentes crises)?Todo ritual, como é o caso do carnaval, separa os meios e os fins. Ou seja, coloca em crise um certo tipo de racionalidade. Se quero me esbaldar, posso sair na noite de São Paulo. Se somos sempre inibidos pelos nossos empregos, podemos ir a um estádio. Mas por que - essa é a questão - o carnaval promove bailes e desfiles tão grandiosos, elaborados e dispendiosos? Eis uma festa multicêntrica e sem dono; um rito de reversão, que tira do foco os políticos enfatiotados com o nosso dinheiro e mostra a mulher e, melhor ainda, o feminino. Que faz "subir" o pobre (como aristocrata ou deus) e o marginal; que legitima o canalha procurado pela polícia, financiador de escolas e desfiles. No livro, questiono se tudo isso que o carnaval coloca em foco não conduz a um entendimento produtivo do poder à brasileira. O modelo do carnaval traduz como o poder se manifesta aqui: essa reversão de papéis, a exibição sem medo numa sociedade marcada pelo medo da inveja, decorrente da percepção de que a riqueza é limitada. A sociedade não se vê como capaz de produzir riqueza para todos, porque, ao longo da história, só produziu riqueza para um grupo pequeno. O viés dessa sociedade é aristocrático. Como o carnaval muda esse quadro?Quando multiplica a riqueza nos balangandãs, máscaras, ouro, prata e diamantes da riqueza carnavalesca, a sociedade finaliza essa exibição contra um cotidiano em que as pessoas exibidas não são bem vistas. Num plano mais amplo, tudo isso indica o nosso pessimismo e medo diante do mundo, típico das cosmologias tradicionais, pois precisamos do carnaval para rir e brincar. Até hoje temos dúvida se podemos ser uma sociedade justa. Mas no carnaval, com a chancela coletiva, fazemos o exercício raro de lermos a nós mesmos por meio de uma chave fundada na troca de lugar e no riso que isso provoca. O carnaval é uma alegria, uma liberdade e uma sensualidade desmesuradas, marcando uma sociedade onde cada qual conhece muito bem seu lugar.Os carnavais aconteciam nas ruas, em pequenas manifestações. Eram os blocos dos sujos, cordões de melindrosas, desfiles animados por marchinhas. Isso se perdeu na sociedade do espetáculo?Uma pergunta fundamental que faço em meus ensaios é: o que o carnaval comemora? O Sete de Setembro a gente sabe o que comemora, uma procissão, também. Já o carnaval é uma festa sem foco. Quem acabou "ancorando", vamos dizer assim, o carnaval foi um dos intérpretes mais célebres do Brasil, o professor e político Darcy Ribeiro, quando inventou um troço chamado sambódromo. Ele fez isso quando era vice-governador no Rio de Janeiro, centro dessa manifestação, dando-lhe um contorno de espetáculo pago. Quais as consequências disso?Se o desfile era na rua, depois do sambódromo passou a ser um palco. A divisão entre atores e espectadores, que era mínima, tornou-se estrutural. Isso tentou dar ao carnaval aquilo que ele não tinha e ainda não tem: um centro, um dono e um patrão. Antigamente, o carnaval era formado por um leque de manifestações que vieram de uma Europa Cristã e medieval e que foram acolhidas no Brasil. Havia muitos desfiles, encontros, bailes, concursos e confrontos. A hierarquia que ordenava o cotidiano aristocrático desmanchava-se. A rua virava casa; a casa, rua. O nobre que demandava reverência podia, como as mulheres, ser abordado sem rapapés. O carnaval brasileiro igualava; outros, como o de Nova Orleans, desigualavam. Ora, tudo isso foi abalado pela centralização do sambódromo. Somente agora estamos voltando a incentivar outras manifestações, das quais a mais importante era o baile que, no fundo, contém um desfile em miniatura. Pois tudo no carnaval é revelação sedutora e relacional. Um modo de ver-se e deixar-se ver por meio do corpo e do indivíduo mascarado.As personalidades que inspiram samba-enredo hoje funcionam como heróis de ocasião?Os heróis do carnaval são os malandros e seus correspondentes femininos. Ao lado deles, porém, temos os santos, os bandidos e os renunciantes - gente como Conselheiro e Lampião - que abandonam ou relativizam o mundo por seus atos antissociais. O carnaval com seus atores primordiais apenas nos introduz a um lado de um sistema que ama o mundo e também o rejeita. Visão típica do nosso catolicismo que está, de resto, imbricado, ao ponto da indistinção, no nosso sistema moral e político. Não há quem negue mais o mundo que os políticos que vão salvar a pátria. E não há quem adore mais o mundo do que essas rainhas, madrinhas e sambistas que fingem que estão cantando, bebendo e gozando a vida, sem ligar para a morte e a dor. Nesse sentido, temos heróis e anti-heróis que operam ao mesmo tempo. O problema é separá-los, como manda o figurino moderno.Quem canta música de carnaval? Ainda cantamos os velhos sucessos porque as músicas atuais se perdem no superespetáculo?Existem as músicas protocolares ou padrão, como as marchinhas de João de Barro e Lamartine Babo. Mas mesmo no desfile, no pavoroso estilo sambódromo, as pessoas cantam, pois cantar com os desfilantes é um sinal de sucesso.Qual é a função do canto?Quando falamos em cantada, ou cantar uma mulher, tem a ver com a sexualidade. Então, o deslumbramento e o canto estão juntos. No carnaval, o canto transcende a divisão no sambódromo, porque é como um incenso, ultrapassa barreiras. O canto é importante no carnaval como o discurso o é no cotidiano. Só que no carnaval desfaz-se essa seriedade do discurso. Se um fundamentalista ouvir a marchinha Alalaô, de Haroldo Lobo e Nássara, vai querer explodir tudo. Que fim levaram os malandros?O malandro pode não existir. Mas a malandragem existe. A malandragem, que esconde o rompimento com a lei. O pior é o malandro federal da música do Chico Buarque, que dá cheque para o povo, fala em nome dele e tem alta popularidade; acusa todo o mundo de não fazer e, uma vez lá, não faz nada. A malandragem é o nome que usamos para esse "ficar em cima do muro" - entre o crime e a esperteza do "eu não sabia" interessado. Chegamos ao século 21 razoavelmente bem: está cada vez mais difícil para pessoas públicas desfrutarem de salários incompatíveis com seu trabalho. Mas a malandragem ainda nos caracteriza. Temos o espírito de chegar a um lugar lotado e dar um jeito de entrar. Essa habilidade de ultrapassar limites, de combinar instituições e papéis sociais, essa fascinação com a pessoa que participa de dois mundos - talvez nossa admiração por estrangeiros tenha origem aí -, esse é o código da malandragem, que lhe permite não bater de frente, evitar o confronto. Isso tem o lado negativo e positivo, obviamente. Saímos da escravidão sem guerra civil, estamos nos modernizando sem precisar passar pelos traumas que atingiram de modo diferentes a União Soviética e o México. É um caminho. Não é uma análise científica precisa, mas uma interpretação possível de Brasil.Sabemos que as escolas de samba viraram empresas, com clientes em qualquer canto do mundo. Hoje um curitibano compra pela internet seu lugar no desfile da Beija-Flor. Rasgamos a fórmula original da brincadeira, perdendo aquele dado do "bairrismo"? Ou o carnaval se reinventa?Ele se reinventa, mantendo velhos padrões. As manifestações de rua, por exemplo, parecem estar voltando. É uma sinalização de que pode haver um movimento de ida e vinda: o sambódromo e, a seu lado, os bailes, os blocos. A outra possibilidade é a de o carnaval acabar, se reduzir a um espetáculo pago, como o futebol. Mas eu acho que vai continuar, porque ele é um elemento definidor da identidade brasileira.Que livro sobre carnaval o senhor faria para ser lido dentro de 30 anos?Nenhum. O meu interesse não é carnaval, é o ritual de passagem coletivo numa sociedade marcada pela seriedade, pela gravidade, pelo discurso inflamado e vazio que, pelo menos uma vez ao ano, inverte-se - e ri, canta, pula, cai e fica embriagada de si mesma. Não quero dizer que no cotidiano somos sempre sérios, mas temos uma consciência grande de nossos papéis sociais, limites, do grupo profissional, do grupo de família, da classe a que pertencemos. O carnaval é uma folga dessas coisas. E foi ele que permitiu que a gente amasse de fato o Brasil. A partir do século 19, tivemos uma forma extremamente negativa de definir o País - estávamos fadados ao fracasso. Primeiro, por causa das raças, depois pela situação econômica e política. Lembro-me de uma filósofa da USP, na comemoração dos 500 anos do Brasil, dizendo que não tínhamos nada a comemorar. Isso não entra na minha cabeça. É um absurdo, que o carnaval - como o futebol - apaga. Quando se vê essa festa de quatro dias e suas manifestações, fica impossível dizer que nada acontece aqui. É assim que o carnaval nos leva à reconciliação com o Brasil.

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