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Entre a cautela e o forte apelo do perigo

Os gerenciadores de risco lutam constantemente para evitar acidentes, mas o aleatório persiste

Mônica Manir, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2009 | 22h35

Há 43 anos, quando veio ao Brasil pela primeira vez para estagiar na USP, John Adams pegou carona com um brasileiro pelas curvas da estrada de Santos. Quase morreu. De susto. A velocidade era muita para sua comedida experiência nas rodovias britânicas. Ao pedir que o piloto desse uma aliviada no acelerador, recebeu uns tapinhas no joelho, seguidos de uma frase aparentemente acalentadora: "Não se preocupe, Deus é brasileiro".

Como você verá daqui a pouco, John começa esta entrevista falando da importância da nacionalidade divina para a percepção do risco. É isso que estuda: o risco e seu papel numa sociedade em que, em geral, as pessoas não estão mais preocupadas em conseguir alguma coisa boa, mas sim em evitar o pior. Professor de geografia em Londres, ele começou mapeando as ameaças ao ambiente. Mas, se você incursionar pelo seu livro, na oitava edição inglesa e na primeira brasileira, recém-lançada pela editora Senac, verá que seu maior interesse é o trânsito ameaçador. Esse ciclista inveterado quer entender por que algumas pessoas teimam em assumir atitudes arriscadas nas ruas, a despeito de todas as pesquisas acadêmicas e de toda a megaestrutura da indústria de redução do risco, "a maior do mundo", na sua avaliação.

De fato, apenas na Grã-Bretanha, além das mais de 150 mil pessoas vinculadas às forças policiais, há o ascendente setor de seguros, os milhares de funcionários de saúde ambiental, o Serviço Nacional de Saúde e seu 1,5 milhão de empregados, as Forças Armadas e seus 300 mil, afora medidas contra a energia nuclear, o efeito estufa, as gripes, o terrorismo, a queda na bolsa, os asteroides. "Na prática, o gerenciamento do risco se volta não para o equilíbrio de custos e os benefícios do risco, mas para a sua redução", afirma. Só que o Homo prudens é apenas um aspecto da natureza humana. O Homo aleatorius, pouco reconhecido, muitas vezes toma a direção da vida e gera comportamentos inesperados, que John explica a seguir. Em tempo, quase saindo da curva, o nome do livro: Risco.

No Brasil, quando se escapa de uma situação difícil, é comum alguém dizer: "Deus é brasileiro". Qual é a importância da nacionalidade de Deus na análise do risco?

A expressão "Deus é brasileiro" representa o que chamo de filtro de percepção. Diferentes sociedades e culturas percebem os riscos de uma forma diferente. Há dois tipos culturais que poderiam invocar um Deus brasileiro. Os pobres, que têm pouco controle dos riscos em sua rotina, tendem a ser fatalistas e esperar que um Deus benigno cuide deles, se não nesta vida, na próxima. E há os aventureiros, como os pilotos de Fórmula 1 brasileiros, que locam suas esperanças em ser protegidos aqui e agora. Suspeito que essa expressão não seja muito usada pelos burocratas da saúde e da segurança... Muitos australianos, por sua vez, gostam de dizer que moram no "país da sorte" - provavelmente uma versão secular do "Deus é brasileiro". De que forma esses filtros influenciam o comportamento? Estatísticas mostram que a probabilidade de um australiano, sortudo, morrer em acidentes nas estradas é 50% maior que a dos britânicos, nem tão afortunados. E os brasileiros, que dirigem sob a proteção de uma divindade que os privilegia, morrem nas estradas numa frequência 3,5 vezes maior.

Qual a diferença básica entre o estilo de dirigir brasileiro e o britânico?

Resposta curta: Deus é brasileiro, enquanto a maioria dos ingleses é de ateus. Resposta longa: quando os carros são poucos, cada um deles é altamente letal. O Brasil ainda tem um número de proprietários de carro menor que a Grã-Bretanha. As sociedades se ajustam ao aumento do tráfego. Em 1922, quando a Grã-Bretanha tinha poucos carros e o limite nacional de velocidade era de 32 km por hora, três vezes mais crianças morriam em acidentes nas estradas.

Ao mesmo tempo, brasileiros têm pagado cada vez mais por segurança. Proliferam condomínios fechados, algumas cidades instituíram o toque de recolher para adolescentes... O risco da violência pode derrubar a crença no bairrismo divino?

Você descreve uma situação que também é familiar aos ingleses. Aqui as crianças não estão mais autorizadas a brincar na rua. Sou coautor de um livro sobre esse assunto, One False Move... A Study of Children's Independent Mobility (Um Falso Movimento... Um Estudo da Mobilidade Independente das Crianças). Em suma, esse tipo de tendência pode ser encontrado em países mais ricos, ou em partes mais ricas de certos países, por todo o mundo. Quanto mais rico você é, mais controle é capaz de exercer sobre as ameaças à sua vida. Quanto mais os médicos e bioeticistas conseguem prolongar a vida, mais os acidentes são vistos como o grande obstáculo à imortalidade.

O senhor disse certa vez que as leis sobre cintos de segurança se baseiam num modelo de comportamento humano que assume que os motoristas são estúpidos. Poderia explicar isso melhor?

O conceito tradicional de segurança nas estradas reside na hipótese de que os usuários das rodovias são autômatos estúpidos e irresponsáveis, que seu comportamento não será afetado por suas percepções de segurança e perigo. Então você torna a batida mais segura usando cintos de segurança, e não muda a forma de dirigir. Não contesto as evidências em relação aos benefícios do cinto em termos de poupar vidas quando pessoas estão envolvidas em colisão. Em 1983, quando a lei do cinto de segurança britânica foi aprovada, a diminuição no número de pessoas mortas nos bancos dianteiros de carros e vans foi importante, mas teve a contrapartida no aumento do número de mortes de pedestres, ciclistas e passageiros do banco traseiro. Essa mudança condizia com a hipótese de compensação do risco, que previa que o maior senso de segurança proporcionado pelo cinto encorajava uma postura mais descuidada na direção, o que colocava outros usuários de estrada em maior risco. Cerca de dez anos depois, uma propaganda mostrava um motorista batendo seu carro de propósito para inflar o airbag. Assim, conseguia um travesseiro para recostar a cabeça. Aliás, a mais nova moda entre os jovens que buscam grandes emoções é roubar carros com airbags e enfiá-los em muros. Maior a velocidade, maior a glória.

Por que algumas instituições perseguem o risco zero, mesmo sabendo que é impossível alcançar essa meta?

Ao atravessar uma rua, avalio o "prêmio" de chegar do outro lado contra o risco de um acidente. Se estou com pressa, me arrisco nas brechas do tráfego. Mas, para os gerentes de risco institucional, a agenda é outra. Sua profissão exige que previnam ou reduzam acidentes. Não se espera que seu julgamento sobre o que é seguro ou perigoso seja influenciado pelos possíveis prêmios. Um só acidente é muito. Esse estilo de administração de risco não considera que vale se arriscar por uma possível recompensa. Eles já estão tomados pelo que chamo de "obstinação". Não importa quanto isso custe em excesso de prevenção.

A morte de Jean Charles resultou dessa paranoia?

Sim. O governo britânico está paranoico com o terrorismo. Tenho reclamado de um exemplo bem menos trágico. Alguém, em algum lugar do mundo, já foi morto por uma bicicleta-bomba? Pois essa ideia permanece na cabeça da polícia do Palácio de Westminster como uma possibilidade a se levar em conta. O comportamento dos guardas tem complicado a vida de um número significativo de ciclistas. Em volta do Parlamento, ou mesmo de outras áreas que a polícia considera sujeitas a ataques terroristas, ela confisca as bicicletas na suposição de que poderiam ser bombas. A questão é que os limites dessas áreas não estão claros para os ciclistas. Eles têm de adivinhar onde é seguro parar as bicicletas. Além disso, há uma diferença crucial entre explosivos disfarçados de bicicletas e escondidos em bicicletas. Bicicletas, assim como motos, carros, vans e pedestres com pacotes, poderiam transportar bombas. Ocorre que a polícia está confiscando "magrelas" despojadas.

Como a ciência pode ajudar? Ela pode combater o terrorismo?

A ciência e a tecnologia são neutras. Podem ajudar na defesa contra o terrorismo ou ajudar os terroristas a penetrar nas defesas. Mas na Grã-Bretanha a ciência e a tecnologia estão alimentando a paranoia que já discutimos. A paranoia não pode ser curada por câmeras de TV de circuito fechado, nem por testes de DNA, nem por GPS, nem por arquivos de computador. No final das contas, isso tudo alimenta a suspeita de que ninguém é confiável e o governo é uma espécie de Big Brother.

E o que dizer da gripe suína? Será daquelas ameaças superapavorantes que nunca acontecem?

A hipótese de que a gripe aviária e a sars pudessem ter sido, ou a suína possa ser, tão catastróficas quanto a epidemia de 1918 não foram, e não são, implausíveis. Mas podem ser classificadas como de baixa probabilidade estatística. Que deveria um governo fazer ao se ver confrontado com tais ameaças? Quanto deveria gastar em dinheiro, tempo e sacrifício para se defender delas? Montar defesas contra ameaças de baixa probabilidade incorre em desviar recursos de outras prioridades. É mais provável que o dinheiro pudesse ser mais bem gasto em outra coisa. Vamos considerar um evento muito mais improvável e de impacto literalmente muito maior - uma colisão catastrófica entre a Terra e um asteroide. Já aconteceu e acontecerá de novo. No atual estágio do mundo, tudo que podemos fazer é dar de ombros fatalisticamente. Empenhar todos os recursos econômicos, científicos e tecnológicos para nos defender disso seria roubar meios de um vasto leque de atividades que, no final, poderiam consolidar uma economia na qual fosse possível bancar a defesa contra asteroides. Se você apostar contra todo evento de baixa frequência e alto impacto que possa acontecer, você acertará/terá sorte na maioria das vezes. Muitos desses acontecimentos são hipóteses, mas poucos se materializam.

As pessoas voltam aos poucos a investir na bolsa. Estão vendo compensação no risco?

Isso é um sinal de otimismo que pode ou não se mostrar justificado. Os investidores no mercado financeiro estão tentando gerenciar riscos que envolvem atitudes de outros que também estão tentando gerenciar riscos. Se o mercado conseguir uma massa crítica de otimistas, o preço das ações subirá. Caso contrário, cairá. A conexão com a economia real é frequentemente tênue.

Como as sociedades decidem quais riscos voluntários devem ser banidos e quais devem ser permitidos?

Vou ser claro: riscos voluntários tomados por adultos mentalmente competentes não devem ser criminalizados. Chamo isso de argumento da bomba de chocolate. Comer demais é ruim para você, mas colocar você próprio em risco deve ser permitido. Envolver outros numa situação arriscada, por exemplo, dirigindo bêbado ou perigosamente, é errado e deve ser penalizado.

A proibição é a melhor atitude para combater as drogas?

A proibição ao álcool falhou, assim como a proibição às drogas. Ambas espalharam grandes impérios do crime. Na maioria dos países, desde a experiência americana com a proibição o álcool tem sido regulado e taxado, mas não banido. Eu trataria as drogas da mesma maneira.

O homem é o único vilão no risco de aquecimento global?

Não, certamente não é o único. Sou um fatalista agnóstico quanto ao aquecimento global. Muitos adeptos do consenso apocalíptico entendem a ciência mais ou menos como eu - ou seja, não muito bem. O debate se tornou predominantemente simplista e político, mesmo porque, em um futuro previsível, a natureza continuará a esconder muitos de seus segredos e a ciência permanecerá inventando novos riscos. E já se sabe que, quanto mais ineficaz for a ciência, mais influentes são os filtros da teoria cultural.

Risco se refere ao futuro. Então, como lidar com ele? Vivendo cada dia como se fosse o último? Como gerenciar o risco, afinal?

A maior parte da literatura insiste na distinção entre o risco "real" ou "objetivo" e o risco "subjetivo" ou "percebido". O risco objetivo é de domínio dos especialistas, enquanto o percebido cabe ao restante de nós. Mas, como você mesma disse, risco é uma palavra que se refere ao futuro, ele existe somente em nossa imaginação. Então mantenho que todo risco é percebido. Sua questão é intrigante, mas não acho que devamos viver cada dia como o último. Nosso julgamento, apesar de não ser infalível, é geralmente um bom guia. Quanto a gerenciar o risco, relaxe. Toda vez que as pessoas me perguntam isso, querem na verdade saber como gerenciar melhor a vida. Entre minhas modestas sugestões, começo lembrando que seus palpites são fortemente influenciados por suas crenças, e seu comportamento é muito influenciado por seus palpites. Além disso, nunca será possível capturar o risco objetivo, porque as previsões do computador serão utilizadas para orientar o comportamento que pretende influenciar o que foi previsto. Resumindo: na dança dos termostatos do risco, a música nunca para.

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